Jornalista Andrade Junior

sexta-feira, 18 de março de 2022

'As licões de Olavo de Carvalho sobre a Rússia',

 por Ana Paula Henkel

Na semana da morte do filósofo Olavo de Carvalho, publiquei um artigo aqui em Oeste contando um pouco do meu encontro com a obra do professor. Como relatei, fui apresentada a sua obra lendo artigos sobre a política norte-americana de uma forma nada óbvia. Diante da histeria coletiva e dos efusivos aplausos a Barack Obama, Olavo me tirava do lugar-comum, apresentando personagens enigmáticos que espalhavam ainda mais as peças de um enorme quebra-cabeça político, social, cultural e econômico do cenário norte-americano na minha mente. Enquanto todos falavam das criaturas, Olavo apontava para os criadores. Não havia como explicar quem era e o que queria Barack Obama sem falar de Saul Alinsky. E o mesmo ele fez com Vladmir Putin, o nome mais falado da atualidade.

Enquanto o mundo insiste em debater sobre quem pode ser, na verdade, o líder russo e os caminhos que ele pode seguir diante da bárbara invasão da Ucrânia, a obra de Olavo de Carvalho mostra mais uma vez como seu poder de observação estava à frente de seu tempo. Seu legado pavimentou um extenso caminho de conhecimento e pesquisa para qualquer um que queira sair da zona de conforto e do debate óbvio, e mergulhar um pouco mais nas entranhas de ideologias, ideias e nas mentes de personagens que mudaram e mudam o mundo. Assim como Obama e Alinsky, Olavo nos mostra que é impossível falar de Vladmir Putin sem Alexander Duguin (ou Dugin).

Em 2011, o professor encontrou-se com o eminente pensador e estrategista russo em um longo debate pela internet, que se prolongou de março a julho daquele ano e cujo material acabou se transformando em um livro essencial para entendermos o contexto atual Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos. Os EUA e a Nova Ordem Mundial. Um Debate entre Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho (Vide Editorial, 2012) mostra que, na época do debate, já estava claro que o eurasianismo era a estratégia do governo russo, e de que sem o conhecimento aprofundado do pensamento de Duguin seria impossível compreender as ações de Vladmir Putin. Em um texto publicado por Olavo em 2014, ele escreveu: “Existe alguém, nos meios jornalísticos e acadêmicos deste país, que conheça todas essas áreas do pensamento pelo menos o suficiente para entender do que o prof. Duguin está falando? Não existia em 2003, não existia em 2011 e não existe agora. (…) O eurasianismo apresentou-se para mim, portanto, com uma inteligibilidade imediata que era absolutamente inacessível à classe intelectual brasileira. Esta só podia reagir à novidade estranha e indigerível de duas maneiras: fingindo desprezo, como a raposa da fábula, ou prosternando-se em adoração hipnótica ante a força do incompreensível. O público a quem chega alguma informação sobre o duguinismo divide-se, pois, em despeitados e deslumbrados”.

Num mundo onde etiquetas preconcebidas de “esquerda” e “direita” são colocadas de maneira superficial, Olavo expurga nossos pareceres para fora da zona de conforto

Recomendo vivamente o livro, que mostra em detalhes um dos debates mais ricos e esclarecedores a que já assisti, embora seja difícil não adjetivar da mesma maneira outros tantos trabalhos de Olavo de Carvalho. Diante do cenário geopolítico intrigante em que vivemos, com análises rasas e maniqueístas por toda parte, decidi nesta semana pedir ajuda ao professor, que, mesmo não estando mais entre nós, segue nos ensinando, instigando, entregando.

Para a minha coluna desta semana, reproduzo o artigo de Olavo de Carvalho que abriu minha mente para outro criador. Olavo nos mostra de forma didática e excepcional neste rápido artigo publicado em maio de 2011 que é preciso analisar Vladmir Putin mergulhando na ótica e na perspectiva de Alexandre Duguin. Em um mundo onde etiquetas preconcebidas de “esquerda” e “direita” são colocadas de maneira superficial e irresponsável, Olavo faz o que fez de maneira única e certeira na vida: expurgar nossos pareceres para fora da zona de conforto e nos fazer pensar de maneira mais completa.

Mais uma vez, obrigada, mestre.

O futuro que a Rússia nos promete

Olavo de Carvalho

(Diário do Comércio, 23 de maio de 2011)

O prof. Alexandre Duguin, à testa da elite intelectual russa que hoje molda a política internacional do governo Putin, diz que o grande plano da sua nação é restaurar o sentido hierárquico dos valores espirituais que a modernidade soterrou. Para pessoas de mentalidade religiosa, chocadas com a vulgaridade brutal da vida moderna, a proposta pode soar bem atraente. Só que a realização da ideia passa por duas etapas. Primeiro é preciso destruir o Ocidente, pai de todos os males, mediante uma guerra mundial, fatalmente mais devastadora que as duas anteriores. Depois será instaurado o Império Mundial Eurasiano sob a liderança da Santa Mãe Rússia.

Quanto ao primeiro tópico: a “salvação pela destruição” é um dos chavões mais constantes do discurso revolucionário. A Revolução Francesa prometeu salvar a França pela destruição do Antigo Regime: trouxe-a de queda em queda até à condição de potência de segunda classe. A Revolução Mexicana prometeu salvar o México pela destruição da Igreja Católica: transformou-o num fornecedor de drogas para o mundo e de miseráveis para a assistência social americana. A Revolução Russa prometeu salvar a Rússia pela destruição do capitalismo: transformou-a num cemitério. A Revolução Chinesa prometeu salvar a China pela destruição da cultura burguesa: transformou-a num matadouro. A Revolução Cubana prometeu salvar Cuba pela destruição dos usurpadores imperialistas: transformou-a numa prisão de mendigos. Os positivistas brasileiros prometeram salvar o Brasil mediante a destruição da monarquia: acabaram com a única democracia que havia no continente e jogaram o país numa sucessão de golpes e ditaduras que só acabou em 1988 para dar lugar a uma ditadura modernizada com outro nome.

Agora o prof. Duguin promete salvar o mundo pela destruição do Ocidente. Sinceramente, prefiro não saber o que vem depois. A mentalidade revolucionária, com suas promessas auto-adiáveis, tão prontas a se transformar nas suas contrárias com a cara mais inocente do mundo, é o maior flagelo que já se abateu sobre a humanidade. Suas vítimas, de 1789 até hoje, não estão abaixo de trezentos milhões de pessoas — mais que todas as epidemias, catástrofes naturais e guerras entre nações mataram desde o início dos tempos. A essência do seu discurso, como creio já ter demonstrado, é a inversão do sentido do tempo: inventar um futuro e reinterpretar à luz dele, como se fosse premissa certa e arquiprovada, o presente e o passado. Inverter o processo normal do conhecimento, passando a entender o conhecido pelo desconhecido, o certo pelo duvidoso, o categórico pelo hipotético. É a falsificação estrutural, sistemática, obsediante, hipnótica. O prof. Duguin propõe o Império Eurasiano e reconstrói toda a história do mundo como se fosse a longa preparação para o advento dessa coisa linda. É um revolucionário como outro qualquer. Apenas, imensamente mais pretensioso.

Quanto ao Império Mundial Eurasiano, com um polo oriental sustentado nos países islâmicos, no Japão e na China, e um polo ocidental no eixo Paris–Berlim–Moscou, não é de maneira alguma uma ideia nova. Stalin acalentou esse projeto e fez tudo o que podia para realizá-lo, só fracassando porque não conseguiu, em tempo, criar uma frota marítima com as dimensões requeridas para realizá-lo. Ele errou no timing: dizia que os EUA não passariam dos anos 80. Quem não passou foi a URSS.

Como o prof. Duguin adorna o projeto com o apelo aos valores espirituais e religiosos, em lugar do internacionalismo proletário que legitimava as ambições de Stalin, parece lógico admitir que a nova versão do projeto imperial russo é algo como um stalinismo de direita.

Mas a coisa mais óbvia no governo russo é que seus ocupantes são os mesmos que dominavam o país no tempo do comunismo. Substancialmente, é o pessoal da KGB (ou FSB, que a mudança periódica de nomes jamais mudou a natureza dessa instituição). Pior ainda, é a KGB com poder brutalmente ampliado: de um lado, se no regime comunista havia um agente da polícia secreta para cada 400 cidadãos, hoje há um para cada 200, caracterizando a Rússia, inconfundivelmente, como Estado policial; de outro, o rateio das propriedades estatais entre agentes e colaboradores da polícia política, que se transformaram da noite para o dia em “oligarcas” sem perder seus vínculos de submissão à KGB, concede a esta entidade o privilégio de atuar no Ocidente, sob camadas e camadas de disfarces, com uma liberdade de movimentos que seria impensável no tempo de Stalin ou de Kruschev.

Ideologicamente, o eurasismo é diferente do comunismo. Mas ideologia, como definia o próprio Karl Marx, é apenas um “vestido de ideias” a encobrir um esquema de poder. O esquema de poder na Rússia trocou de vestido, mas continua o mesmo — com as mesmas pessoas nos mesmos lugares, exercendo as mesmas funções, com as mesmas ambições totalitárias de sempre.

O Império Eurasiano promete-nos uma guerra mundial e, como resultado dela, uma ditadura global. Alguns de seus adeptos chegam a chamá-lo “o Império do Fim”, uma evocação claramente apocalíptica. Só esquecem de observar que o último império antes do Juízo Final não será outra coisa senão o Império do Anticristo.


Revista Oeste















publicadaemhttp://rota2014.blogspot.com/2022/03/as-licoes-de-olavo-de-carvalho-sobre.html


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