Historiador da UFSCar considera que o petista deveria ter sido julgado pelo que classifica de projeto criminoso de poder
Cláudio César de Souza
São José dos Campos
Um dos principais historiadores do Brasil, Marco Antonio Villa, da
UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), acredita que as prisões de
políticos poderosos devido ao mensalão marca uma nova era para a Justiça
brasileira.
“O julgamento do mensalão sinalizou que a leniência com que eram
tratados os casos de corrupção é coisa do passado”, disse Villa, em
entrevista exclusivo O VALE concedida por e-mail.
Autor do livro “Mensalão: o julgamento do maior caso de corrupção da
política brasileira”, ele considera que o ex-presidente Lula (PT) também
teria que ser julgado.
“Lula é o réu oculto do mensalão. É impossível que não tenha tomado
conhecimento de tudo que o que estava sendo armado à sua volta.
Na entrevista, Villa fala também do caso do cartel no metrô de São Paulo e do mensalão mineiro.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
O ex-procurador-geral da República Antônio Fernando de Souza
classificou o mensalão como o maior escândalo político da história
brasileira. O senhor concorda? Por que?
Sim. Não houve nada parecido. O projeto criminoso de poder foi
articulado no interior do Palácio do Planalto. Não há nenhum caso
semelhante na história do Brasil.
Que análise o senhor faz do julgamento do mensalão para as histórias política e jurídica do Brasil?
Foi um marco. Poderá significar um corte na história jurídica
do país. A justiça, finalmente, iniciou o processo (que deve ser longo)
de igualizar os cidadãos pois, até hoje, uns brasileiros eram mais
iguais que outros.
O senhor acredita que o julgamento do mensalão significou uma
ruptura com a impunidade, principalmente em relação a políticos
poderosos?
Sim. Nunca na história deste país tivemos, ao mesmo tempo,
tantos políticos presos. E não só políticos, mas empresários e também
banqueiros.
Qual será, na avaliação do senhor, o reflexo do julgamento do
mensalão nos próximos casos de corrupção que serão analisados e
julgados pelo STF e pela Justiça brasileira?
O julgamento sinalizou que a leniência com que eram tratados os casos de corrupção é coisa do passado.
O senhor acredita que foi cometida alguma injustiça no
julgamento do mensalão, como tem sido dito por advogados, juristas e
líderes políticos do PT?
Não. Foi um julgamento absolutamente legal, com amplo direito
de defesa, transmitido pela televisão. Quer mais transparência que isso?
Os protestos são justificáveis, mas estão distantes do que efetivamente
ocorreu.
O que representou para o Brasil a prisão de políticos
poderosos como José Dirceu, José Genoino e Valdemar da Costa Neto,
principalmente nos casos ocorridos no dia da Proclamação da República?
É o início da refundação da República. Como costumo dizer,
Deodoro da Fonseca só anunciou, em 1889, a República que, até hoje, não
foi proclamada.
Como analisa as declarações da direção do PT e de presos como José Dirceu e José Genoino de que eles são presos políticos?
São políticos presos. E foram presos por formação de quadrilha,
por corrupção ativa, por lavagem de dinheiro, etc. Como disse um
ministro do STF, são os marginais do poder.
Como o senhor avalia os casos clínicos do José Genoino e do
Roberto Jefferson? Acredita que eles teriam que ter prisão domiciliar ou
podem ficar na cadeia como os demais presos?
Cabe à perícia definir cada caso, mas Jefferson, parece, tem o quadro clínico mais grave.
Na opinião do senhor, qual foi a participação do
ex-presidente Lula no mensalão? O fato dele não ser julgado compromete a
atuação do STF e da Justiça? Tem esperança de que o ex-presidente Lula
ainda seja julgado?
Lula é o réu oculto do mensalão. É impossível que não tenha tomado conhecimento de tudo o que estava sendo armado à sua volta.
Qual será o impacto do mensalão nas eleições do ano que vem,
principalmente sobre as candidaturas do PT? Acredita que a oposição irá
explorar o escândalo durante o pleito?
É difícil estimar. O problema maior é que a oposição é muito
ruim de discurso. Mas pode ser, que no momento de maior temperatura da
eleição – -no caso de segundo turno, o tema tenha alguma centralidade.
O STF e a Justiça preparam o julgamento do mensalão mineiro.
Qual a expectativa do senhor em termos de condenações, principalmente do
ex-governador Eduardo Azeredo?
O que aconteceu em Minas é diferente do ocorrido na ação penal
470 \[mensalão\]. Entre os réus, é importante destacar, tem também o
Mares Guia, que foi ministro do Lula, e o Clésio Andrade, entusiasta das
administrações petistas. Mas, é importante destacar, o PSDB não soube
enfrentar a questão. O melhor procedimento seria expulsar o
ex-governador do partido.
O senhor acredita que o mensalão mineiro será julgado antes
das eleições do ano que vem? Se isto não acontecer, acredita que o PT
explorará o episódio na eleição de 2014 para desgastar o PSDB?
É improvável. Ainda não foram resolvidos os embargos da AP-470 e
tem muito processo na fila. E para o PT é melhor julgar a ação quando a
presidência estiver com o Ricardo Lewandowski.
Como analisa as denúncias de formação de cartel nas
licitações do metrô paulista e as suspeitas sobre os governos tucanos
Mário Covas, Geraldo Alckmin e José Serra?
Vamos aguardar o processo. Até agora não passam de
especulações. É evidente que tem algo de errado e funcionários podem ter
sido corrompidos.
Em termos de corrupção, é possível fazer comparação do caso Siemens com o mensalão?
Não. O caso Siemens é um fato isolado, mas que deve ser
apurado, evidentemente. O mensalão foi um projeto de tomada do aparelho
de Estado, um golpe, armado pela quadrilha petista que foi condenada.
Na opinião do senhor, o STF e a Justiça também têm que julgar
o caso Siemens? Acredita que pode resultar em condenações para o
governador Geraldo Alckmin e para José Serra?
O processo sequer foi aberto. Vamos aguardar mas, volto a dizer, são casos e situações distintas.
Para historiador, gestões do PT foram ‘década perdida’
Autor do recém-lançado livro “Década perdida: Dez anos do PT no poder”
sobre os governos Lula e Dilma Rousseff, o historiador Marco Antonio
Villa acredita que o Brasil perdeu oportunidade de crescer
economicamente.
“O PT na direção do governo não soube aproveitar o grande momento de
expansão capitalista. O Brasil, óbvio, mas a passos de tartaruga. Basta
comparar as nossas taxas com a média mundial ou com a média dos países
emergentes. Perdemos de goleada! ”, afirmou o historiador.
Para ele, os principais erros dos 10 anos de governos do PT na
Presidência foram o aparelhamento do Estado e a corrupção. “Como acerto,
os governos Lula e Dilma mantiveram o que funcionava e deram
operacionalidade ao programa Bolsa Família.”
Na opinião de Villa, os governos Lula foram melhores do que está sendo o de Dilma.
FHC.
“Os dois governos são ruins, mas Dilma conseguiu ser pior do
que seu criador. O momento da economia mundial é diferente. Lula surfou
na onda do crescimento chinês a dois dígitos. Já Dilma pegou momento de
certa contenção da economia internacional.”
Ele faz ainda restrições aos governos Fernando Henrique Cardoso (PSDB).
“FHC teve mérito de estabilizar moeda, enfrentar questão das contas
públicas e derrubar inflação. Mas poderia ter sido mais ousado no
segundo mandato.”