Jornalista Andrade Junior

sĂĄbado, 2 de dezembro de 2023

'Supremo Tribunal Federal: o problema do Brasil',

  por Deltan Dallagnol

“TambĂ©m envolve uma luta da memĂłria contra o esquecimento, e a gente passa a borracha muito rapidamente nestes fatos. Muitos dos personagens que hoje estĂŁo aqui, de todos os quadrantes polĂ­ticos, sĂł estĂŁo porque o Supremo enfrentou a Lava Jato. Do contrĂĄrio eles nĂŁo estariam aqui, inclusive o presidente da RepĂșblica. Portanto, Ă© preciso compreender que papel o tribunal jogou. Respondendo Ă  pergunta se o Supremo cometeu erros ou acertos, o Supremo mais acertou do que errou. E o Brasil muito deve ao Supremo.”

Essas foram as palavras do ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal, em vĂ­deo que explodiu nas redes sociais no Ășltimo sĂĄbado (25). O vĂ­deo Ă© de um mĂȘs atrĂĄs, mas viralizou agora em razĂŁo do embate acalorado que ocorreu entre o STF e o Senado apĂłs a aprovação, no Ășltimo dia 22, da PEC 8/2021, que limita as decisĂ”es monocrĂĄticas de ministros do STF.

A PEC foi aprovada por 52 votos a 18 em dois turnos no plenĂĄrio do Senado, como manda a Constituição. Ela prevĂȘ resumidamente que juĂ­zes e ministros dos tribunais superiores nĂŁo poderĂŁo sozinhos suspender leis aprovadas por todo o Congresso e sancionadas pelo presidente. A proposta Ă© muito razoĂĄvel e alinhada com o princĂ­pio da colegialidade previsto no artigo 97 da Constituição para esse tipo de decisĂŁo.

A reação do Supremo Ă  aprovação da PEC foi rĂĄpida e disparatada: no mesmo dia, uma jornalista da Globo News anunciou nas redes sociais que os ministros do STF viram o voto favorĂĄvel do senador Jaques Wagner (PT/BA) como “traição rasteira” e deram um ultimato ao governo Lula: “Ou o Jaques Wagner sai, ou nĂŁo tem mais papo do STF com o Planalto e o governo”.

Durante todo o dia seguinte, na quinta-feira (23), assistimos com incredulidade a comentĂĄrios de teor semelhante de vĂĄrios jornalistas. A mesma jornalista da Globo News revelou, com a mesma naturalidade com que deu a primeira notĂ­cia, que o ministro Gilmar Mendes teria ligado para o senador Jaques Wagner e tido com ele uma conversa durĂ­ssima, em que teria dito: “ou o senhor Ă© um gĂȘnio ou Ă© um idiota”. Outra jornalista, tambĂ©m da Globo News, afirmou que ministros do STF disseram que “acabou a lua de mel entre Supremo e o Planalto”. Mais uma jornalista, tambĂ©m da Globo News, publicou que ministros do Supremo relembraram ao governo que Lula sĂł voltou ao poder apĂłs decisĂ”es do STF.

As supostas falas dos ministros do Supremo reproduzidas pela imprensa, se verdadeiras, deveriam causar um escĂąndalo em qualquer paĂ­s democrĂĄtico e civilizado, por trĂȘs razĂ”es. Primeiro, indicam que ministros do Supremo perderam qualquer vergonha de serem expostos por jornalistas fazendo algo que jamais deveriam fazer: polĂ­tica partidĂĄria, elegendo um presidente. É difĂ­cil entender diferente, porque se as decisĂ”es que favoreceram Lula tivessem sido emitidas por questĂŁo de justiça, de cumprimento puro e simples do papel do tribunal, nĂŁo faria sentido a Corte estar “cobrando a conta” como fez.

Em segundo lugar, o fato de ministros do STF classificarem o voto de Wagner pela aprovação da PEC como “traição rasteira” Ă© extremamente preocupante. Para que haja uma traição, Ă© necessĂĄrio primeiro existir algum tipo de compromisso, acordo ou promessa de fidelidade entre as partes. Havia entĂŁo algum tipo de acordo ou compromisso entre o STF e o Planalto? Se sim, qual Ă© esse compromisso e quais os seus termos? Quem o fez? O acordo tem direcionado julgamentos do tribunal? Um acordo como esse certamente nĂŁo Ă© republicano, jĂĄ que foi feito Ă s escuras, nos porĂ”es dos palĂĄcios de BrasĂ­lia e sem nenhuma transparĂȘncia.


... indicam que ministros do Supremo perderam qualquer vergonha de serem expostos por jornalistas fazendo algo que jamais deveriam fazer: polĂ­tica partidĂĄria.


Em terceiro lugar, se havia um acordo e ele foi quebrado por meio de uma traição, isso quer dizer que o STF, que antes estaria decidindo de maneira favorĂĄvel ao governo, agora vai começar a decidir de modo contrĂĄrio, como forma de retaliação e vingança pela quebra dos compromissos assumidos? Se a informação for verdadeira, isso coloca em xeque todas as decisĂ”es tomadas pelo Supremo nos Ășltimos anos, porque restaria demonstrado que o STF decide nĂŁo com base em fatos, provas ou na Constituição e nas leis, mas com base em acordos de bastidores com polĂ­ticos, em que sĂŁo trocadas vantagens e favores, numa subversĂŁo total do papel institucional da mais alta corte do paĂ­s.

Mas os problemas nĂŁo ficaram apenas nas falas das jornalistas, que serviram de garotas de recado para certos ministros do Supremo. Os prĂłprios ministros, com destaque para Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, colocaram a boca no trombone na quinta-feira e se manifestaram de maneira histĂ©rica, soberba e desequilibrada sobre a aprovação da PEC, desnudando um tribunal totalmente descontrolado e fora de sintonia com suas atribuiçÔes constitucionais. Gilmar Mendes, num surto de clareza e compreensĂŁo, tentou ironizar: “Agora se descobre que o grande problema do Brasil Ă© o Supremo Tribunal Federal. Que a grande ameaça Ă  democracia Ă© o Supremo Tribunal Federal.”

Bingo, ministro Gilmar! Como Ă© que o ministro que declarou que os polĂ­ticos corruptos seguem no poder graças ao STF nĂŁo percebeu antes a ameaça que o tribunal se tornou para a democracia? Os alvos do STF foram se expandindo dos agentes da Lava Jato para a direita e os conservadores, perseguidos em discursos, decisĂ”es e investigaçÔes. E sĂŁo justamente falas absurdas como as de Gilmar e de seus colegas, ditas pela boca de jornalistas ou pela boca dos prĂłprios ministros, que colocam em risco o Estado DemocrĂĄtico de Direito. 

Como esquecer a notĂ­cia, dada apenas alguns dias atrĂĄs tambĂ©m por jornalista da Globo News, de que ministros do Supremo ameaçaram processar a PGR por prevaricação se os procuradores nĂŁo denunciarem o ex-presidente Jair Bolsonaro por crimes que ainda nem foram comprovados? Como ignorar a ameaça de “fim de lua de mel” com o governo caso Jaques Wagner nĂŁo fosse destituĂ­do da liderança do governo no Senado? Esse tem sido, recentemente, o modus operandi dos ministros do Supremo que se comportam como verdadeiros donos do poder: ou as instituiçÔes fazem o que os ministros querem ou sofrem as consequĂȘncias. 

A confissĂŁo de que o Supremo elegeu Lula por si sĂł deveria gerar uma investigação, mas nada acontece. Enquanto Gilmar fala de “bons serviços prestados por esta Suprema Corte”, o que constatamos na verdade foi a anulação das condenaçÔes e processos de Lula, o fim da prisĂŁo em segunda instĂąncia, maior trunfo de todos os corruptos do Brasil, os inquĂ©ritos ilegais das fake news e dos atos antidemocrĂĄticos e o linchamento dos rĂ©us do 8 de janeiro, que estĂŁo sendo esmagados feito insetos pelo STF. JĂĄ temos atĂ© mortes na conta dos abusos do Supremo, como aconteceu no caso do ClezĂŁo. Ah, tem tambĂ©m, Ă© claro, a manutenção do poder dos polĂ­ticos cuja corrupção foi revelada pela Lava Jato.

Se os ministros aplicassem a lei pura e simplesmente, doesse a quem doesse, nĂŁo haveria acordos, traiçÔes, lua de mel e nem chantagens e ameaças pĂșblicas dos ministros Ă s instituiçÔes. Eles nem teriam poder para isso, porque seguiriam apenas a lei. O poder estaria na lei, nĂŁo neles. Os ministros que mais tĂȘm poder sĂŁo aqueles que mais se dispĂ”e a ultrapassar as linhas da lei para favorecer amigos e perseguir inimigos. Assim, os discursos dos ministros, em relação ao Senado, sĂł tem relevĂąncia porque o STF, em vez de ser um tribunal de juristas que fazem justiça com base na Constituição e nas leis, se tornou um conselho de polĂ­ticos com poder judicial. 

Uma pesquisa Genial/Quaest da semana passada mostrou que quase 70% dos brasileiros apoiam a PEC que limita as decisĂ”es monocrĂĄticas do STF. AlĂ©m disso, no momento em que escrevo esse artigo, a pressĂŁo popular nas redes sociais e nas ruas alcançou um feito inĂ©dito: jĂĄ foram alcançadas as 171 necessĂĄrias para dar inĂ­cio Ă  CPI do abuso de autoridade do STF e do TSE, que quer colocar um freio no autoritarismo, nos abusos e nas ilegalidades praticados por nossos juĂ­zes supremos. Ao mesmo tempo, mais de 345 mil pessoas jĂĄ assinaram o abaixo-assinado contra a indicação de FlĂĄvio Dino para o STF. 

Ainda que involuntariamente, o ministro Gilmar Mendes acertou nisto: o Supremo se tornou um problema no Brasil. Ao contrĂĄrio do que disse o ministro, porĂ©m, nĂŁo Ă© o Brasil que deve muito ao Supremo. É o Supremo e seus ministros que devem tudo ao Brasil, inclusive o seu poder e legitimidade. Como ministros nĂŁo sĂŁo eleitos, seu poder e legitimidade decorrem da obediĂȘncia Ă  Constituição e Ă s leis. Ao agir politicamente, ao ultrapassar todas as linhas e limites, os ministros usurpam poderes que exercitam de fato, mas nĂŁo tĂȘm por direito. E agora o povo, de quem emana todo o poder, quer seu poder de volta.


Deltan Dallagnol, Gazeta do Povo

















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