por FlĂĄvio Gordon
“Este nĂŁo Ă© um tribunal, Ă© uma farsa.” (Antonio Canova, advogado venezuelano autor de El TSJ al Servicio de la RevoluciĂłn)
Em entrevista a um dos jornais integrantes do consĂłrcio da imprensa oficial do regime lulopetista, um intelectual orgĂąnico desse mesmo regime, com o ar mais sonso do mundo, diz que o mandatĂĄrio brasileiro “desenha um novo modelo de governabilidade”, que inclui o Supremo Tribunal Federal (STF) no presidencialismo de coalizĂŁo. Em suas palavras:
“Pela impossibilidade de um presidencialismo de coalizĂŁo como funcionava no passado e que permitiu em seus mandatos anteriores implementar em grande medida o seu programa de governo, Lula percebeu que tem de incluir o Supremo. ApĂłs a tentativa de golpe (no 8 de janeiro), ele faz uma aliança estratĂ©gica. Ă um presidencialismo de coalizĂŁo que agora vai ter de incorporar o JudiciĂĄrio. Ele chama o Supremo para conversar, faz churrasco. Sinaliza ao Congresso que o que eles nĂŁo dĂŁo o Supremo pode dar depois. E facilita a governança, porque consegue boa vontade em julgamentos estratĂ©gicos. Lula estĂĄ tratando o Supremo como a terceira cĂąmara do Congresso. O que Ă© o Gilmar Mendes se nĂŁo um senador? Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e agora Dino tĂȘm um peso polĂtico. Agora serĂĄ preciso nomear polĂticos para o Supremo como se nomeia para o TCU.”
Chega a ser cĂąndida a forma como o intelectual orgĂąnico do regime e os assessores de imprensa que o convocaram para dar ares de ciĂȘncia polĂtica ao que nĂŁo passa de propaganda das açÔes do governo tentam naturalizar o ato de emparedar o Congresso mediante a cooptação do JudiciĂĄrio, sempre com o pretexto da reação Ă pretensa tentativa de golpe em 8 de janeiro, o incĂȘndio do Reichstag que continua justificando indefinidamente medidas excepcionais de democracia defensiva. “Lula se aproxima do STF para compensar dificuldades no Congresso”, diz a chamada da matĂ©ria. Por “dificuldades no Congresso”, leia-se, por Ăłbvio, o exercĂcio regular da oposição parlamentar eleita, que essa imprensa amestrada vĂȘ como uma espĂ©cie de escĂąndalo.
NĂŁo hĂĄ nada de novo no conluio entre Executivo e JudiciĂĄrio. Esse modelo ditatorial socialista clĂĄssico foi utilizado paradigmaticamente por Hugo ChĂĄvez e NicolĂĄs Maduro na Venezuela
Como remĂ©dio a essas “dificuldades no Congresso”, os apparatchiks sugerem sem corar, como se fosse a coisa mais normal e republicana do mundo, a aliança do governo com magistrados nĂŁo eleitos, cuja atuação polĂtico-partidĂĄria Ă©, ademais, expressamente proibida por lei. “Em aceno ao STF, Lula reunirĂĄ ministros em jantar na casa de Barroso (...) AlĂ©m da confraternização, devem pautar o encontro assuntos como a relação com o Congresso” – lĂȘ-se em outra reportagem concebida para rotinizar e normalizar aquilo que, em qualquer democracia representativa digna desse nome, seria visto como uma excrescĂȘncia totalitĂĄria: o compartilhamento de uma mesma agenda polĂtica por parte do Executivo e da suprema corte do paĂs, agora oficialmente transformada (e, a depender dos assessores de imprensa, consagrada) em partido. Ă o que, em novilĂngua midiĂĄtica chapa-branca, se chama de Estado DemocrĂĄtico de Direito.
Mas o elemento mais orwelliano na fala do agente normalizador do regime Ă© a expressĂŁo “novo modelo de governabilidade”. Ora, o que hĂĄ de novo nesse modelo ditatorial socialista clĂĄssico, utilizado paradigmaticamente por Hugo ChĂĄvez e NicolĂĄs Maduro na Venezuela, paĂs cujo regime “excessivamente democrĂĄtico”, segundo o juĂzo do nosso mandatĂĄrio, sempre serviu de modelo e referĂȘncia aos nossos comunistas? O que fizeram ChĂĄvez e Maduro – com apoio polĂtico e financeiro do lulopetismo – a nĂŁo ser rechear de camaradas polĂticos e agentes bolivarianos o seu Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), que acabou na prĂĄtica dissolvendo o Congresso e inviabilizando toda oposição?
Hugo ChĂĄvez foi eleito presidente da Venezuela em 1999, e levou coisa de cinco anos para aparelhar inteiramente o tribunal mais alto de sua nação, o TSJ, enfiando na corte juĂzes alinhados para realizar sua agenda polĂtica. Em 2004, os aliados de ChĂĄvez detinham a maioria na Assembleia Nacional da Venezuela, aprovando uma lei que aumentava o nĂșmero de juĂzes na suprema corte venezuelana de 20 para 32 integrantes. Obviamente, essas vagas foram rapidamente preenchidas por magistrados (ou pseudomagistrados) leais a ChĂĄvez, que nĂŁo faziam questĂŁo de esconder a sua adesĂŁo ao projeto do “socialismo do sĂ©culo 21”.
Mas nĂŁo seria a Ășltima vez que os detentores do poder na Venezuela bolivariana manipulariam a corte em busca de ganho polĂtico. Em 2015, opositores do ditador NicolĂĄs Maduro conquistaram a maioria dos assentos no Congresso. No entanto, parlamentares prĂł-Maduro em final de mandato aprovaram 13 novos juĂzes da suprema corte que favoreciam o regime, que se somaram aos 16 “juĂzes” chavistas nomeados no ano anterior. Essa promiscuidade entre Executivo e JudiciĂĄrio devastou rapidamente a estrutura constitucional da Venezuela.
Em 2017, por exemplo, o TSJ tomou uma decisĂŁo chocante e distĂłpica, retirando os poderes da Assembleia Nacional, e permitindo que os magistrados assumissem funçÔes legislativas. No Brasil, a imprensa tratou a coisa como era – um evidente golpe de Estado Executivo-JudiciĂĄrio, a institucionalização de uma ditadura; a mesma imprensa agora trata a aliança entre PT e STF com absoluta normalidade, e acha que o mandatĂĄrio brasileiro, parceiro histĂłrico de ChĂĄvez e Maduro, estĂĄ apenas brincando ao celebrar a chegada de (mais) um “comunista” na corte.
Por Ăłbvio, a bolivarianização do TSJ – e, por efeito cascata, de todos os tribunais – aniquilou quaisquer resquĂcios de independĂȘncia judicial. Como mostram o advogado Antonio Canova e outros autores em El TSJ al Servicio de la RevoluciĂłn, ao longo das mais de 45 mil decisĂ”es tomadas pelo tribunal superior da Venezuela desde 2004, os pseudomagistrados cuja função nominal era controlar os atos do Executivo jamais se posicionaram contra o governo. Nem uma Ășnica vez.
Assim como no Brasil de hoje – o paĂs de falas como “derrotamos o bolsonarismo”, “perdeu, manĂ©”, ou “missĂŁo dada, missĂŁo cumprida” –, juĂzes da suprema corte venezuelana perderam qualquer pudor em exibir as suas credenciais polĂtico-ideolĂłgicas
Um dos principais especialistas constitucionais da Venezuela, Carlos Ayala, afirmou certa vez que “na Venezuela, os juĂzes tĂȘm medo de decidir de forma independente” – pois quem o fez nĂŁo ficou no cargo, ou mesmo em liberdade, para contar a histĂłria. “Na Venezuela, hĂĄ uma desigualdade grotesca perante a lei”, disse tambĂ©m o ex-juiz Juan Carlos Apitz, demitido por proferir uma decisĂŁo que ChĂĄvez condenou publicamente em rede nacional. “Aqueles que se opĂ”em Ă polĂtica do governo na Venezuela nĂŁo podem esperar por um julgamento justo” –declarou ainda Apitz, quase como se descrevesse o que tem acontecido no Brasil desde, ao menos, o pleito de 2022 em relação aos adversĂĄrios do lulopetismo.
Assim tambĂ©m como no Brasil de hoje – o paĂs de falas como “derrotamos o bolsonarismo”, “perdeu, manĂ©”, ou “missĂŁo dada, missĂŁo cumprida” –, juĂzes da suprema corte venezuelana perderam qualquer pudor em exibir as suas credenciais polĂtico-ideolĂłgicas, entoando slogans chavistas e elogiando o ditador abertamente. Houve uma ocasiĂŁo em que a presidente do TSJ, Luisa Estela Morales, chegou a chamar a separação de poderes de “odiosa” e “divisiva”. Em suma: tambĂ©m na Venezuela, a corte estĂĄ sempre a postos para ajudar o regime a vencer as “dificuldades no Congresso”. Ă muita democracia. Ă democracia atĂ© demais.
FlĂĄvio Gordon, Gazeta do Povo
PUBLICADAEMhttps://rota2014.blogspot.com/2023/12/o-velho-novo-modelo-de-governabilidade.html





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