por J.R. Guzzo
"Com a Lava Jato, pela primeira vez na história, a Justiça e o Estado consideraram que roubar dinheiro público era ilegal"
Durante sete anos, o Brasil não foi o Brasil. Esteve em operação, ao longo desse tempo, a Lava Jato — e a Operação Lava Jato era exatamente o contrário da política brasileira como ela sempre foi.
No Brasil da Lava Jato, os políticos e os demais corruptos, de todo porte e espécie, se arriscavam a ir para a cadeia.
Foram presos um ex-presidente da República, o dono da maior empresa de obras públicas do país, governadores de Estado, um ex-presidente da Câmara dos Deputados e por aí afora.
Os próprios ladrões se comprometeram a devolver aos cofres públicos R$ 15 bilhões da montanha de dinheiro que tinham roubado.
Em qualquer país sério é precisamente assim que as coisas se passam; lei é lei, e tem de ser aplicada para todos.
Só que o Brasil não é assim.
A vida pública, na verdade, é o contrário disso.
A Lava Jato, enquanto durou, refletiu um país que não existe.
Nada mais natural, assim, que ele voltasse à sua verdadeira natureza.
É o que acaba de acontecer, oficialmente, com a dissolução formal da operação toda, por ordem de ninguém menos que o próprio procurador-geral da República.
Aí sim.
Eis, enfim, o Brasil de novo sendo como o Brasil realmente é: o chefe dos investigadores decide que é proibido investigar.
A Lava Jato sempre foi a principal inimiga dos que mandam no Brasil: gente da política e do governo, seus parentes e amigos, empreiteiros de obras, fornecedores do Estado, donos de empresas estatais, altos barões do Judiciário e empresários que vivem do Tesouro Nacional.
Seu grande objetivo na vida, nesses sete anos, foi acabar com a Lava Jato; todos, nesse bonde, têm um sistema natural de rejeição à honestidade.
No começo, com medo do imenso apoio popular às novas regras, o mundo oficial fingiu que apoiava a operação.
Depois, com o tempo, passaram a aparecer queixas de que estaria havendo “exageros” nas investigações e sentenças contra os corruptos.
Mais um pouco, as reclamações viraram uma guerra aberta e sem quartel; a Lava Jato, no fim, estava sendo acusada em pleno Supremo Tribunal Federal de criar “um regime de exceção” no país, a “República de Curitiba”.
Foi um momento de exceção, de fato: pela primeira vez em sua história, possivelmente, a Justiça e o aparelho de Estado brasileiros consideraram que roubar dinheiro público era ilegal.
Assim que foi possível voltar à vida de sempre, naturalmente, eles voltaram: enterrar a Lava Jato sempre foi o objetivo número 1 das elites brasileiras, seja no governo Lula-Dilma, seja no governo Temer, seja no governo Bolsonaro — a cujo procurador-geral, no fim, coube a grande honra de dar o tiro de misericórdia.
Do jeito que vão as coisas, o ex-juiz e ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, será um homem de sorte se não acabar preso.
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