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06:56
ANDRADEJRJOR
Os interesses que mantêm o fornecimento de comida aos presos como uma fonte de corrupção e sangria dos cofres públicos
Grades de ferro, muros de cimento e cercas de arame farpado mantêm longe
da visão dos brasileiros um negócio da China para políticos e
empresários: o fornecimento de marmitas para a maioria dos 550 mil
presos no País, que possui hoje a quarta maior população carcerária do
mundo. Uma parte das empresas contratadas nem sequer paga funcionários,
pois os presos trabalham na cozinha dos presídios, mas cobra do poder
público pelas refeições fornecidas preços até duas vezes superiores aos
praticados do lado de fora. Para quem simpatiza com a tese de que os
detentos não merecem ser bem tratados, há outro dado: esse sistema
ineficiente e corrupto consome, no mínimo, 2 bilhões de reais por ano em
impostos.
Entregues, com transporte pago pelo Estado, em delegacias, cadeias e
presídios, as tradicionais “quentinhas” em embalagens de alumínio são
alvo constante de queixas ao Ministério Público Federal (MPF) pelo mau
cheiro, aparência, presença de insetos e alimentos fora do prazo de
validade. Como se não bastasse, os contratos são renovados sem nenhum
governante, independentemente do partido, parecer interessado em
rompê-los. Um provável motivo: empresas de marmitas são importantes
doadoras de campanhas eleitorais. ...
Não à toa, a alimentação é, ao lado da tortura e do direito à visita de
familiares, uma das três principais causas de rebelião nas
penitenciárias brasileiras. Há uma quarta razão, mais perversa e
responsável pelo fortalecimento das facções que dominam os presídios.
Embora previsto na Lei de Execução Penal e recomendado pelo Ministério
da Justiça, a imensa maioria das unidades prisionais simplesmente não
fornece itens de higiene pessoal aos detentos, obrigados a negociar
sabonete, pasta de dentes e até papel higiênico com as organizações
criminosas. Isso gera dívidas que continuam a ser cobradas inclusive
após os presos serem libertados. E tornar-se a mais rápida estrada para a
reincidência.
Denúncias de superfaturamento e falta de higiene no preparo dos
alimentos pipocam em quase todos os estados. “O modelo adotado favorece a
fraude”, afirma Eduardo Nepomuceno, da Promotoria de Defesa do
Patrimônio Público de Minas Gerais. “As empresas superestimam a
quantidade de presos, vendem um cardápio e entregam outro, e a
fiscalização não existe. Como é possível medir mil refeições para ver
quais pesam a mais ou a menos?”
Nepomuceno foi, em atuação conjunta com a Polícia Federal, um dos
responsáveis pelas investigações da Operação Laranja com Pequi, que
desbaratou um esquema responsável pelo desvio de ao menos um terço dos
166 milhões de reais pagos pelo governo de Minas Gerais aos fornecedores
de alimentação aos presos entre 2009 e 2011. Sete empresas estão
envolvidas, lideradas pela Stillus Alimentação, de propriedade de
Alvimar de Oliveira Costa, irmão do senador Zezé Perrella (PDT-MG), que
chegou à política depois de presidir o Cruzeiro, time de maior torcida
no estado. Em setembro de 2012, o Tribunal de Justiça (TJ) mineiro
chegou a invalidar as provas obtidas pelos promotores, mas o Ministério
Público estadual recorreu e, há um mês, o Superior Tribunal de Justiça
(STJ) anulou a decisão do TJ.
À época da anulação, os promotores criticaram o fato de Doorgal
Andrada, um dos desembargadores que tomaram a decisão, ser irmão do
deputado estadual Lafayette Andrada (PSDB), secretário estadual de
Defesa Social quando teriam ocorrido as fraudes. “Na esfera das relações
políticas, contam com eficiente ‘blindagem’ que lhes é proporcionada
pelos agentes políticos aos quais estão intimamente relacionados, seja
em razão do grau de parentesco, seja em razão dos abundantes recursos de
origem ilícita que lhes são destinados”, escrevem os promotores na
ação. Com a validação pelo STJ, a investigação será retomada, assim como
os pedidos de prisão dos envolvidos.
Segundo o advogado da Stillus, Antonio Velloso Neto, as denúncias são
infundadas e o STJ ainda não julgou um segundo habeas corpus impetrado
por seus clientes. O senador Perrella, afirma Velloso Neto, não possui
vínculo com a empresa do irmão. O advogado classifica de “absurda” a
queixa em relação ao parentesco entre o desembargador e o ex-secretário
estadual. “Não tem nada a ver. A Stillus fornece alimentação para os
presídios desde o governo Newton Cardoso, há mais de 20 anos. Por que só
agora apareceriam irregularidades?”
Outra investigação, desta vez do Conselho Administrativo de Defesa
Econômica, órgão federal antitruste, apura a denúncia de formação de
cartel por mais uma gigante do fornecimento de marmitas a presídios. O
nome da Cial Indústria e Comércio de Alimentos, responsável pela
alimentação de detentos em Goiás, Distrito Federal, Rio de Janeiro e
Pará, chegou a aparecer durante as investigações da Operação Monte
Carlo, vinculado ao bicheiro Carlinhos Cachoeira. Segundo a PF,
Cachoeira teria usado de sua influência no poder público para a empresa
vencer uma concorrência de fornecimento de marmitas no maior presídio de
Goiás, estado administrado pelo tucano Marconi Perillo.
Neste mês, uma concorrente da empresa em Brasília entrou com um pedido
de liminar na Justiça para anular uma licitação do governo do Distrito
Federal, administrado pelo PT. Motivo? A Cial teria solicitado mudanças
na redação do edital, inclusive a exigência de cozinha própria
instalada. Como a empresa já possui contato com a administração
distrital, isso a teria colocado em vantagem em relação às demais. No
Pará, em março deste ano, o contrato da empresa com o governo estadual,
atualmente administrado pelo PSDB, no valor de 100 milhões de reais foi
suspenso por suspeita de contaminação na licitação. Quem se queixou na
Justiça e havia perdido o contrato por uma diferença de 1 centavo no
preço de cada refeição é a mesma concorrente da Cial em Brasília.
A Cial se defende. Para a empresa, a investigação do Cade baseia-se em
denúncia anônima “com toda a certeza patrocinada por uma empresa que não
conseguiu sucesso na concorrência”. A fornecedora também negou entregar
comida de baixa qualidade e disse que a insatisfação dos presos decorre
do fato de “estarem segregados da vida social e sujeitos a rebeliões”.
Sobre as liminares em Brasília e no Pará, os advogados da Cial atribuem
ao descontentamento de concorrentes.
No Acre, desde a chegada do PT à administração estadual, em 1999, uma
mesma empresa fornece alimentação aos presídios, a Tapiri Indústria de
Alimentos, de propriedade da família de Pascal Khalil, ex-vereador pelo
PCdoB de Rio Branco, ex-secretário municipal de Saúde e atual
procurador-geral do município. No ano passado, após inspeção, o
Departamento Penitenciário Nacional orientou o estado a rever o contrato
por superfaturamento nos valores e pela utilização de produtos com
validade vencida. Na eleição passada, a Tapiri doou 257 mil reais ao
candidato petista em Rio Branco e atual prefeito, Marcus Alexandre.
“As doações foram feitas de acordo com o que a legislação permite. No
passado, também doamos a outros candidatos, não foi só para o PT. A
empresa existe desde 1972”, diz o gerente-geral da Tapiri, Lourival
Camilo. Segundo ele, são inverídicas as acusações de superfaturamento. A
última licitação vencida pela empresa há dois anos, afirma, foi
acompanhada por representantes do Ministério Público. O uso de produtos
fora do prazo de validade teria sido “um caso isolado”. Quanto ao
parentesco com Khalil, Camilo atribuiu às coincidências de “cidade
pequena”. “Não tem nada a ver uma coisa com a outra.”
Em março, uma equipe da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos
Advogados do Brasil do Espírito Santo fazia uma vistoria no Centro de
Detenção Provisória do Complexo Penitenciário de Viana quando a direção
mandou devolver as “quentinhas” a serem servidas na ala feminina por
elas estarem “estragadas e fedendo”. Segundo relatos das presas, já
foram encontrados pedaços de plástico, vidro, madeira, sacolas e insetos
misturados à comida. Por não conseguirem identificar o tipo de carne
servido, as detentas criaram um apelido: “carne de monstro”. Muitas
disseram passar mal com frequência, com vômitos, dores estomacais e
diarreias.
A OAB e o Ministério Público prometem ingressar com uma ação civil
pública contra a empresa Viesa, fornecedora de alimentação aos presídios
capixabas. Mesmo antes dessa inspeção, as denúncias sobre as marmitas
eram frequentes entre os presos, mas só em setembro de 2012 o governo
estadual, sob comando do PSB, começou a aplicar multas. “Não consigo
explicar a contratação dessa empresa e também não sei por que não se
rompe esse contrato”, critica o presidente da OAB-ES, Homero Mafra.
Notícias semelhantes se repetem em várias unidades da Federação. Em São
Paulo, entidades de defesa dos direitos humanos nas cadeias da capital
avistaram a mesma “carne de monstro”, na forma de hambúrgueres tão
brancos que era impossível dizer se eram de boi, porco ou frango. Em
2009, a CPI do Sistema Carcerário encontrou, Brasil afora, refeições em
sacos plásticos, denúncias de insetos e objetos estranhos na comida e
“quentinhas” rejeitadas amontoadas fora das celas. “A pouca quantidade e
a má qualidade da comida servida não condizem com os preços
exorbitantes que o contribuinte paga, em média 10 reais por preso”,
resume o relatório da CPI. De lá para cá, quase nada mudou.
“Aalimentação é ruim no País inteiro”, afirma o juiz Douglas de Melo
Martins, coordenador do Departamento de Monitoramento e Fiscalização do
Sistema Carcerário do Conselho Nacional de Justiça. “Os lugares com
alimentação boa são exceção e não há dúvida de que este é um fator de
desestabilização do sistema. Não se trata somente de direitos humanos: o
custo das rebeliões é muito alto, causa insegurança na sociedade e
dificulta a reinserção social.”
No livro sobre os mutirões realizados pelo CNJ, a comida é descrita
como precária e motivadora da corrupção nos presídios. Em muitas
unidades se institucionalizou a prática conhecida como “Cobal”, quando
alimentos e outros itens levados por familiares são revendidos em
mercados clandestinos. No Rio Grande do Sul, existem cantinas
terceirizadas no interior dos presídios, mas os itens são disputados
entre as facções criminosas, que os revendem aos presos comuns. Esse
tipo de comércio favorece a criação de um elo: fora da cadeia, o preso
continua em dívida com a organização criminosa.
O mesmo acontece em relação aos itens de higiene pessoal. Se a família
não leva, o detento acaba dependente do comércio clandestino dominado
pelas facções. Em janeiro deste ano, a Defensoria Pública de São Paulo
denunciou: as presas da cadeia feminina de Colina, em Ribeirão Preto,
usavam miolo de pão para substituir os absorventes íntimos.
“Lamentavelmente, o Estado omite-se e isso fomenta o crime organizado.
Deixa o preso endividado e com obrigações com essas facções, que cobram
mensalidade de quem saiu. Como vai pagar? Cometendo novos crimes”, diz
Douglas Martins.
Até o fim da década de 1980, o Estado era o responsável pela
alimentação dos detentos nos presídios do País. A partir daí iniciou-se
um movimento pela terceirização do fornecimento de comida, inspirado no
modelo prisional dos Estados Unidos. No início dos anos 2000, o
empresário Jair Coelho, apelidado de “Rei das Quentinhas”, foi
investigado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro por
superfaturamento na alimentação fornecida aos presídios. Entre 1988 e
2000, suas empresas detiveram o monopólio das marmitas destinadas aos
presos cariocas, com um faturamento de 80 milhões de reais por ano. A
mulher dele, Ariadne, viraria personagem da crônica social carioca,
símbolo da nova classe “emergente” da Barra da Tijuca.
Passados 13 anos, em um único ponto a situação mudou. Hoje não existe
um, mas vários “reis das quentinhas” (quadro ao lado). Ao mesmo tempo,
aumenta o lobby para expandir a terceirização no País até a
administração das próprias cadeias. O Brasil tem atualmente 21 presídios
com gestão privatizada. Há quem considere o modelo, à moda
norte-americana, uma benesse, mas o fato é que ele não reduz os gastos
públicos. Ao contrário. Cada detento no sistema privado, calcula-se,
custa perto de 3 mil reais por mês, ante 1,3 mil em cadeias públicas.
Além disso, comprova a experiência nos EUA, o sistema leva a uma
mercantilização das prisões. Com 2,3 milhões de encarcerados, as cadeias
americanas viraram um grande negócio e dão enorme lucro a empresas dos
ramos de telefonia e saúde privada. A revista The Nation publicou
recentemente um levantamento do lucro fácil nos presídios de Tio Sam.
Uma ligação telefônica de uma cadeia custa 1,13 dólar por minuto, até 30
vezes mais do lado de fora. Apenas uma operadora, a GTL, fatura 500
milhões de dólares anuais com a exploração das chamadas feitas por
presidiários.
A privatização das prisões nos EUA não
eliminou as denúncias de maus-tratos e torturas. Segundo os defensores
de direitos humanos, a fórmula adotada (o governo paga por vaga
existente em cada cadeia, esteja ela ocupada ou não) teria levado ao
aumento galopante no número de encarcerados e à aplicação de penas mais
duras. Dessa forma, o poder público justificaria o modelo de pagamento
adotado. “A prisão tornou-se um depósito de pobres”, afirmou ao The New
York Times o sociólogo Bruce Western, da Universidade Harvard.
Em São Paulo, que abriga um terço do total de presos brasileiros, o
governo aguarda a definição dos terrenos para lançar o edital da
Parceria Público-Privada (PPP) para a construção de três complexos
penitenciários que abrigarão mais de 10 mil detentos e serão
administrados pela iniciativa privada. “As prisões privadas estão
entrando como um tsunami no Brasil, infelizmente”, critica a socióloga
Julita Lemgruber, ex-diretora do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro
e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da
Universidade Candido Mendes. “Espanta-me que o governo federal, do PT,
esteja comprando a ilusão de que privatizar uma prisão resolve.” Segundo
o Ministério da Justiça, o governo ainda estuda o tema.
Para Julita, o Estado deveria investir na libertação dos presos
provisórios (mais de 40% dos detidos no País não foram submetidos a
julgamento). “Uma quantidade enorme de presos só está lá por não ter
dinheiro para pagar um advogado. Tem de cumprir a lei e dar liberdade
condicional a quem tem direito”, defende a socióloga. Muitos adversários
das prisões privadas, lembra a estudiosa, argumentam que a medida seria
inconstitucional, mas prefere situar sua crítica no campo ético e
moral. “Licitar prisões é o mesmo que oferecer o controle da vida de
homens e mulheres para quem der o menor preço, como se o Estado tivesse o
direito de dispor dessas vidas como bem lhe aprouvesse.”
À parte a imoralidade, sobram denúncias contra as empresas privadas que
administram prisões. Considerado modelo, o Presídio Industrial de
Joinville, em Santa Catarina, foi alvo de sindicância em junho deste ano
por causa da fuga de dois presos. A investigação recomendou a demissão
de um funcionário contratado pela empresa responsável, que teria
facilitado a fuga. Em setembro, a Polícia Civil do Tocantins afastou
funcionários da empresa Umanizzare, que administra dois presídios no
estado, por suspeita de participação nas constantes tentativas de fuga
no Presídio Barra da Grota, em Araguaína.
Segundo o Sindi- cato dos Policiais Civis do Tocantins, o fato de serem
contratados e não concursados deixaria os funcionários mais vulneráveis
à corrupção. O presídio privatizado de Serrinha, interior da Bahia,
também foi alvo de denúncias da Pastoral Carcerária neste ano por
tortura e maus-tratos aos detentos. Em Rondônia, funcionários da empresa
Bandolin, outra fornecedora de marmitas aos presídios públicos, foram
demitidos ao se comprovar seu auxílio na infiltração de celulares na
cadeia de Vilhena dentro de garrafas térmicas.
Os especialistas ouvidos por CartaCapital são unânimes: não se trata de
privatizar ou abrir novas vagas, mas de reduzir a superlotação e cobrar
eficiência da direção dos presídios. Em termos alimentares, está
comprovado, como sugeriu a CPI do Sistema Carcerário, que a comida
melhora quando os presos participam de sua preparação, além de garantir
ocupação, remuneração e redução da pena. Também influencia no cardápio a
parceria com agricultores das regiões próximas aos presídios, como
ocorre nas 11 unidades prisionais da Região Metropolitana do Vale do
Paraíba, no interior de São Paulo.
“Quando preparada pelos presos, a qualidade da comida é muito superior
àquela da terceirizada e custa menos”, diz Camila Dias, socióloga e
pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, para quem as
marmitas e seus “reis” são um indício de que a privatização do sistema
não é a saída. “Existe hoje um lobby fortíssimo pelo repasse da
administração à iniciativa privada, mas as refeições demonstram que esse
modelo não é sustentável.”
Fonte: Cynara Menezes - Carta Capital -
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