Jornalista Andrade Junior

sexta-feira, 10 de maio de 2024

Conversa reservada sobre sigilo

  Percival Puggina


 Escrevo baixinho, quase sussurrando as letras no papel, com todo cuidado para que nada escape pelas margens. Preciso falar muito reservadamente sobre o sigilo que, ele sim, ostensivo e ruidoso, bateu portas e cerrou janelas em nossa vida republicana.

Eu tinha uma ideia diferente sobre como deveria ser a vida numa democracia representativa, de modo especial num período privilegiado em que os meios de comunicação e informação estão na palma da mão dos cidadãos.

A alegada e justa preocupação com o direito dos eleitores à livre opção política e eleitoral tem levado a um impertinente e antinatural controle das opiniões que, por todas as razões, parece descrer das capacidades do eleitor e ser alérgica à liberdade de expressão.

Por exemplo. Foram inseridos no TSE, sem aprovação legal, mecanismos estranhos ao Poder Judiciário e à Justiça Eleitoral. Um deles investiga o que está sendo dito nas redes sociais e o outro delibera sobre o que pode e o que não pode nelas ser publicado. Tudo muito estranho numa época em que, loquazes, ministros do STF replicam com desenvoltura, o vocabulário empregado pelo governo para atacar a oposição.

Ao mesmo tempo em que convivemos com a censura por aleatórios discursos de ódio, desordem informacional, desinformação, desestabilização das instituições e sei lá mais quê, convivemos com sigilos impostos sobre tudo que possa gerar desconforto à oligarquia: agendas, pautas de reuniões entre personalidades dos poderes, viagens, estranhos eventos, jatinhos, inquéritos e processos de cunho político.

Nossa “democracia” está cada dia mais circunspecta e ensimesmada. Calado, o povo observa.
















PUBLICADAEMhttps://puggina.org/artigo/conversa-reservada-sobre-sigilo__18000

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