Jornalista Andrade Junior

sexta-feira, 28 de abril de 2023

'Censura a caminho',

 por SĂ­lvio Navarro


Congresso decide votar às pressas projeto sobre censura na internet, espinha dorsal da construção da ditadura de esquerda no país


No meio da tarde de terça-feira 25, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, irrompeu no tapete azul do Senado, cercado por seguranças e assessores. Desviou dos flashes e microfones e seguiu para uma reuniĂŁo a portas fechadas com o presidente do Congresso Nacional, Rodrigo Pacheco, e o da CĂąmara, Arthur Lira. Moraes carregava uma pasta com um documento intitulado “Propostas do TSE ao Projeto de Lei 2630”. Minutos depois da visita, a CĂąmara deu o primeiro passo para transformar a censura em lei no Brasil. 

O texto final do monstrengo legislativo ainda Ă© desconhecido. Vai se chamar Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e TransparĂȘncia na Internet. Começou com uma proposta do senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), votada hĂĄ trĂȘs anos numa daquelas sessĂ”es virtuais bizarras da pandemia — em lockdown, os senadores realizavam votaçÔes pela internet de suas casas, sem debates nas tribunas. Desde entĂŁo, estava empilhado na CĂąmara, ao lado de mais de 50 projetos similares, atĂ© ser despachado de repente por Arthur Lira para o gabinete do comunista Orlando Silva (SP). É isso mesmo: a redação final da lei que trata da liberdade de expressĂŁo nas redes sociais serĂĄ feita pelo Partido Comunista do Brasil. 



A votação do projeto estĂĄ marcada para terça-feira 2. Se houver mudança abrupta no chamado “mĂ©rito” — a espinha dorsal do texto —, o projeto voltarĂĄ para o Senado. No caso de pequenos ajustes ou provĂĄveis penduricalhos, basta o aval da CĂąmara para a posterior sanção de Lula. 

Na terça-feira, o pedido de urgĂȘncia para aprovar a mordaça nas redes sociais teve 238 votos a favor e 192 contra. Havia 431 deputados no plenĂĄrio — Arthur Lira nĂŁo Ă© obrigado a votar. NĂŁo se sabe, portanto, como pensam os outros 82, o que torna o resultado imprevisĂ­vel. As bancadas de esquerda votaram unidas a favor da nova lei. Orlando Silva, um suplente que sĂł exerce o mandato porque deputados do PT eleitos estĂŁo no ministĂ©rio de Lula, disse que ainda Ă© possĂ­vel negociar alguns pontos. 

Se a CĂąmara confirmar a votação, o paĂ­s continuarĂĄ vivendo dias como o perĂ­odo eleitoral, em que o TSE baniu a participação de polĂ­ticos das redes sociais, removeu conteĂșdos e impĂŽs multas pesadas

Politicamente, o resultado de terça-feira foi o prenĂșncio de vitĂłria do governo Lula, que, alĂ©m de chancelar o texto como parte do seu projeto totalitĂĄrio, tambĂ©m investe em outras frentes no Poder Executivo, como gabinetes de checagem das notĂ­cias — para deliberar sobre o que pode ou nĂŁo pode ser publicado — e denunciar ou pedir a prisĂŁo dos seus opositores Ă s Cortes Superiores. A Advocacia-Geral da UniĂŁo tem sido usada para prestar esse tipo de serviço. 

Por que Lira decidiu ajudar Lula nessa empreitada? A resposta mais provĂĄvel Ă© que o deputado optou por ficar do lado de Alexandre de Moraes e do Supremo. A aprovação serĂĄ, sobretudo, mais um passo do JudiciĂĄrio para validar toda a cruzada do inquĂ©rito perpĂ©tuo das fake news ou dos atos antidemocrĂĄticos no Supremo. A lei serĂĄ exibida como um trofĂ©u para coroar a prisĂŁo de 1,5 mil pessoas nos atos de 8 de janeiro, que se degeneraram em vandalismo e ainda estĂŁo muito longe de ser completamente elucidados, depois da divulgação de imagens do circuito interno do PalĂĄcio do Planalto. 

TambĂ©m Ă© parte da construção do que, em 2021, o ministro Dias Toffoli, colega de Moraes no Supremo Tribunal Federal (STF), chamou de um “Poder Moderador” no Brasil — algo que nĂŁo existe no paĂ­s desde a Constituição Imperial de 1824, elaborada em benefĂ­cio de Dom Pedro II. Isso porque, a esse texto do Congresso, serĂŁo incorporadas emendas entregues em mĂŁos por Alexandre de Moraes a Arthur Lira e Rodrigo Pacheco (leia abaixo)

Na prĂĄtica, se a CĂąmara confirmar a votação, o paĂ­s continuarĂĄ vivendo dias como o perĂ­odo eleitoral, em que o TSE baniu a participação de polĂ­ticos das redes sociais, removeu conteĂșdos e impĂŽs multas pesadas. O tribunal rasgou o artigo 53 da Carta Magna, que diz: “Os deputados e os senadores sĂŁo inviolĂĄveis, civil e penalmente, por quaisquer de suas opiniĂ”es, palavras e votos”. Esse trecho, sobre a inviolabilidade do mandato, nĂŁo Ă© mais vĂĄlido no Brasil desde fevereiro de 2021, quando Alexandre de Moraes mandou prender o deputado Daniel Silveira (RJ), em pleno exercĂ­cio do mandato, e a CĂąmara consentiu. 

A despeito de a lei sair do Legislativo, o JudiciĂĄrio vai seguir dando a palavra final sobre qualquer assunto, mesmo que isso contrarie o artigo 2Âș da Constituição: “SĂŁo Poderes da UniĂŁo, independentes e harmĂŽnicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o JudiciĂĄrio”. 

Nas eleiçÔes, a Corte chegou a quebrar os sigilos de aplicativos de mensagens e bloquear contas bancĂĄrias em lotes, como no caso que ficou conhecido como “crime do emoji”, envolvendo um grupo de empresĂĄrios apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro que publicaram “carinhas” e “joinhas” em um grupo de WhatsApp. Ou ainda na censura prĂ©via, algo que nĂŁo se aplicava no paĂ­s desde o Ato Institucional NĂșmero 5, de 1968, revigorado em outubro do ano passado para impedir um documentĂĄrio da produtora Brasil Paralelo sobre o atentado Ă  faca contra Bolsonaro. Na ocasiĂŁo, o julgamento no TSE ficou marcado pelas palavras envergonhadas da ministra CĂĄrmen LĂșcia de que se tratava de uma censura cirĂșrgica — o famoso “vai ser sĂł desta vez”. 

conhecido, Ă© possĂ­vel analisar o que diz o projeto do Senado e o que foi proposto por Alexandre de Moraes nesta semana — em suma, ele quer endurecer ainda mais as puniçÔes aos usuĂĄrios e Ă s chamadas big techs

Por exemplo: Moraes apresentou uma emenda cobrando os provedores de internet, sob pena de responsabilidade civil e administrativa, de “indisponibilizar imediatamente conteĂșdos e contas, com dispensa de notificação aos usuĂĄrios, se verificarem ou existir dĂșvida fundada de risco”. Leia-se: o conteĂșdo serĂĄ retirado do ar e o perfil do autor pode ser banido sem aviso prĂ©vio, e ponto final.  

Quais seriam os parĂąmetros para punir alguĂ©m nas redes sociais? A resposta Ă©: “divulgação ou compartilhamento de fatos sabidamente inverĂ­dicos ou gravemente descontextualizados, que atinjam a integridade do processo eleitoral, inclusive os processos de votação, apuração e totalização de votos”. Mais: condutas ou informaçÔes que impliquem em “atos antidemocrĂĄticos” ou “discurso de Ăłdio”. 

AlĂ©m do banimento das contas e do conteĂșdo, Moraes afirma que as plataformas — como Twitter, Instagram, WhatsApp, Facebook, entre outros — serĂŁo multadas em R$ 100 mil a R$ 150 mil por hora, a contar da segunda hora depois do recebimento da notificação. HĂĄ previsĂŁo de multas tambĂ©m para monetização de propaganda no perĂ­odo eleitoral. 

“NĂłs queremos equiparar as responsabilidades”, afirmou Moraes. “Eu acrescento ao texto aprovado pelo Senado Federal a responsabilidade de todos os provedores — sejam de redes sociais sejam de mensagens — por conteĂșdos em que eles ganham. NĂłs nĂŁo podemos permitir que, nas EleiçÔes 2024, e, depois, em 2026, continue havendo ataques de desinformação. Isso vai contra a democracia, vai contra a liberdade dos eleitores”  

O texto do Senado 

O ponto mais polĂȘmico do Projeto da Censura Ă© a criação de uma autarquia federal para fiscalizar e aplicar essa lei. Seria a polĂ­cia brasileira de controle da informação. Algo semelhante Ă  DGI (Direção-Geral de InteligĂȘncia) da ditadura cubana, formatada nos moldes da KGB, a polĂ­cia secreta soviĂ©tica, ou da Stasi, da Alemanha Oriental. SerĂŁo fiscalizadas todas as plataformas com mais de 2 milhĂ”es de usuĂĄrios, mesmo se forem estrangeiras. 

A principal resistĂȘncia a esse gabinete de censores Ă© da frente parlamentar evangĂ©lica na CĂąmara. Os evangĂ©licos argumentam que a autarquia vai perseguir e punir conservadores que nĂŁo aceitem a cartilha “progressista” da esquerda e combatam ideologias de gĂȘnero e pautas identitĂĄrias. Por exemplo: discussĂ”es sobre banheiros multigĂȘnero, homens biolĂłgicos disputando categorias femininas no esporte e o tal “racismo estrutural”.  

NĂŁo para por aĂ­. A bancada da agropecuĂĄria tambĂ©m vĂȘ riscos de patrulha ao setor por causa da militĂąncia ambientalista. O deputado gaĂșcho Marcel van Hatten (Novo) resumiu em discurso na tribuna: “O objetivo Ă© criar limites que nos calem, nos silenciem e que podem nos levar Ă  cadeia por manifestar opiniĂŁo polĂ­tica, religiosa ou defender algum setor econĂŽmico, como a agro”. 

HĂĄ ainda trechos no texto que ninguĂ©m sabe ao certo como serĂŁo aplicados nem qual a verdadeira finalidade. Alguns, pode-se presumir, como: determinar as regras de publicidade nas redes sociais, remunerar conteĂșdo jornalĂ­stico — o tal “jornalismo profissional do consĂłrcio da velha imprensa” serĂĄ privilegiado — e direitos autorais de artistas, o que explica a comitiva de cantores e atores da Rede Globo no Congresso nesta semana. Quem vai definir tudo isso, ou seja, boa parte do que envolve ganhar dinheiro na internet? A autarquia federal de controle da informação. 

O ĂłrgĂŁo censor deve ser batizado de Conselho de TransparĂȘncia e Responsabilidade na Internet, com a participação de 21 membros — do poder pĂșblico, da sociedade civil, da academia e do setor privado, com mandato de dois anos e permissĂŁo para recondução. Resta saber se o Congresso exigirĂĄ que esses nomes sejam aprovados em plenĂĄrio, como ocorre em outras autarquias, ou se Lula serĂĄ o Ășnico responsĂĄvel pela escolha. Seja qual for o modelo, jĂĄ Ă© possĂ­vel entender o que estĂĄ em curso no paĂ­s neste momento: a instauração da censura, pilar histĂłrico de qualquer ditadura. NĂŁo tem outro nome. 

Charge da semana | Ilustração: Schmock


Revista Oeste















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