Jornalista Andrade Junior

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

"Nunca haverá uma primavera como aquela",

 segundo Augusto Nunes

Assim era a vida no Brasil que sabia praticar o convívio dos contrários


Os assombros daquela primavera começaram com a chuva de rã que teve como epicentro o jardim na frente da casa de Eulália Menon Montenegro. De pé na soleira da porta de entrada, com o semblante sereno de quem já não se surpreende com nada, ela olhava alternadamente para os pequenos objetos voadores que continuavam desabando na grama ou nas roseiras e para o sobrinho encolhido na cadeira de balanço austríaca, pálido de susto, com um gibi do Flash Gordon na mão direita, a esquerda agarrada ao braço de madeira e tentando decifrar o que estava acontecendo naquele fim de tarde de 27 de setembro de 1957. “Essa é a maior que já vi”, murmurou Eulália. Fez uma pausa e completou: “Quando chove rã, coisas estranhas acontecem em seguida”. Assim ela avisou que nunca haveria uma primavera como a de 1957, que começou com a tempestade de batráquios e prosseguiu com uma sequência de esquisitices, sempre envolvendo o céu, e acabou engolindo todas as estações seguintes até cessar, tão misteriosamente quanto chegou, no início da primavera de 1958.

Duas semanas depois da chuva de rã, soube pela minha mãe que a estrelinha que piscava no céu desde 4 de outubro era a primeira nave espacial lançada pelos comunistas russos. Não entendi direito por que a invenção do Sputnik 1 representava uma humilhação para os norte-americanos e uma ameaça à liberdade, mas alistei-me na guerra contra a Rússia e o restante da União Soviética ao descobrir que o Sputnik 2, com decolagem marcada para 4 de novembro, seria tripulado pela cadela Laika numa viagem só de ida. Vi nos jornais o olhar tristíssimo da cachorra condenada sumariamente à morte sem culpa e estava pronto para esquentar a Guerra Fria quando o povo do lugar quase caiu de costas com a cena de cinema: pendurada num paraquedas, uma cadela que só podia ser Laika saiu do meio das nuvens, aproximou-se sem pressa da superfície da terra, pousou na estradinha que começava onde as casas acabavam e foi recolhida por dois homens a bordo de um jipe que acelerou rumo a um destino ignorado. Os 10 mil moradores curaram a frustração com a certeza de que Laika não morreu. Voltou à Terra e aterrissou na cidade em que nasci.

Os meses seguintes produziram assombros sempre vindos lá do alto. Miniaturas de paraquedas desceram do céu com a regularidade de um voo comercial, para presentear meus conterrâneos com abridores de garrafas da Antártica; um paraquedista contratado pela prefeitura para abrilhantar a festa do aniversário da  cidade saltando de um teco-teco e descendo bem no centro do campo de futebol foi traído pelos ventos e se enroscou de tal forma na mangueira do colégio das madres salesianas que só conseguiu chegar ao solo depois de socorrido por bombeiros de Araraquara; a imagem de Nossa Senhora refletida numa castigada lata de banha juntou no local do milagre uma multidão de devotos dispersada aos berros pelo padre Lourenço Cavallini; uma cratera de bom tamanho surgiu de manhã num trecho de terra que era plano até a noite anterior, provando que um disco voador visitara sem aviso prévio a Fazenda Paraguaçu; em setembro de 1958, enfim, um pequeno avião pousou na pista de terra da Fazenda Contendas — e Jânio Quadros apareceu em Taquaritinga. Entre tantas aparições estranhíssimas, nenhuma pareceu-me tão inverossímil. Ainda convalescendo do choque, ouvi meu pai comunicar que nós éramos janistas. Os outros, os adversários, esses eram ademaristas, pois o chefe da seita a que pertenciam se chamava Ademar de Barros.


Ninguém prometia, como agora é moda, “unificar” as tropas que regressavam do front


A polarização, como se vê, nada tem de nova. A diferença é que nos anos 50, sobretudo nas pequenas cidades do Brasil, a temperatura política só rondava o ponto de combustão nas campanhas eleitorais. Antes e depois do tiroteio retórico nos comícios, os antagonistas praticavam com adorável naturalidade o convívio dos contrários. Mais: filhos de janistas e ademaristas dividiam todos os quintais — muitos se tornariam amigos de uma vida inteira — e mulheres dos candidatos rivais trocavam receitas enquanto os maridos trocavam chumbo verbal nos palanques. Se os líderes janistas e ademaristas fossem devidamente interrogados a respeito, talvez não conseguissem identificar as razões das desavenças. Em ambos os lados faltava um conjunto de ideias e princípios a defender ou a atacar. Havia apenas dois líderes populistas a venerar. “Confesso que tenho saudade do Ademar”, disse-me Jânio Quadros em 1980. Faz sentido: nenhum teria existido politicamente sem o outro. E nenhuma das seitas sobreviveu à morte física do sumo sacerdote. Quem vencia a eleição municipal, claro, garantia que governaria para toda a cidade, mas as coisas paravam por aí. Ninguém prometia, como agora é moda, “unificar” as tropas que regressavam do front.

Cabe a um candidato vitorioso pôr em prática o programa que defendeu, alcançar as metas que fixou e compreender que não se deve perder tempo com vinganças e desforras. A convivência civilizada depende dos eleitores: só existirá se ficar estabelecido que a democracia genuína é inseparável do convívio dos contrários. Os que sonham com a inexistência de gente que pensa diferente são órfãos de ditaduras à caça do regime de partido único. Todos os países livres (e mesmo os partidos) vivem divididos. Isso é da vida. O problema é enxergar em quem discorda um inimigo a exterminar. Mao Tsé-Tung, por exemplo, acreditava que “a política é a guerra sem mortos, e a guerra é a política com mortos”. Mais uma evidência de que o fundador da ditadura chinesa foi uma perfeita besta quadrada.

Revista Oeste





















publicadaemhttp://rota2014.blogspot.com/2020/11/nunca-havera-uma-primavera-como-aquela.html

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