Há momentos na história em que o espírito de uma nação – mais
especificamente de sua classe letrada – se revela por inteiro.
É o que ocorre no episódio do Mensalão. Inicialmente, não se
esperava que dele nada resultasse, o que, por si só, já revela algo de
substantivo a respeito de nossa cultura.
Dentro dela, não é comum – para não dizer que é inédito - que
pessoas influentes paguem por seus crimes. A maioria da opinião pública, pois,
estava cética em relação ao destino dos mensaleiros. Seriam inocentados e, em
breve, estariam de volta.
Deu-se, porém, o contrário: foram presos. Na reação à prisão,
sustentada por amplos setores da intelectualidade e do meio artístico, tem-se
um retrato da moralidade do país.
A hostilidade nas redes sociais e nos jornais a Joaquim Barbosa
deixa claro que, acima da moral, está a ideologia. Ou por outra, sem ideologia
- de esquerda, claro - não há moral.
“Aos amigos, tudo; aos inimigos, os rigores da lei”, sustentava
Getúlio Vargas. A solidariedade a José Genoíno, em face de sua enfermidade, não
se estendeu a outro condenado, mais enfermo que ele, Roberto Jefferson, que
padece de um câncer irreversível.
Está mais enfermo, mas não é da turma. Não merece compaixão.
Criou-se, no Mensalão, a figura esdrúxula do delito ideológico. O roubo de
esquerda é legítimo; o de direita, não.
Tal distorção já vigora há tempos em relação aos direitos
humanos: um preso político em Cuba merece o que recebe; num regime militar de
direita, não.
Um torturado sob Pinochet mobiliza inúmeras comissões de direitos
humanos; um sob Fidel Castro provoca silêncio e compreensão.
A Comissão da Verdade investiga crimes de meio século atrás, mas
só os cometidos contra a esquerda. Só eles merecem o rótulo de abomináveis. Os
que ela cometeu – e cometeu diversos, devidamente comprovados – passam como
fatalidades.
E é esse mesmo pessoal – que conta a História pelo viés
ideológico - que acusa o Supremo Tribunal Federal de ter feito julgamento
político no Mensalão.
O processo levou sete anos para chegar ao plenário. Os autos
formavam montanhas de papel, mais de 50 mil páginas. Só a leitura do relatório
consumiu dois dias.
Cada acusado teve sua devida defesa - e até embargos
infringentes, não previstos na lei, foram aceitos. Não houve qualquer
cerceamento ao devido processo legal.
Mais da metade dos ministros, inclusive o relator, foi nomeada
na gestão do PT. Se tentativa houve de politizar o julgamento, foi da parte
favorável aos mensaleiros, com manobras protelatórias, que resultaram inúteis.
Na execução da pena, os sentenciados exibiram de público o seu
injustificado protesto, brandindo punhos cerrados, com críticas ferozes ao
Judiciário. Reclamaram das condições carcerárias, mesmo já tendo o governador
de Brasília, Agnelo Queiroz, providenciado com antecedência a construção de
anexos mais confortáveis para receber os companheiros.
O governador, num gesto inédito – já que é um agente do Estado e
os sentenciados delinquiram contra o Estado -, deu-se ao desplante de
visitá-los na prisão, ao lado de parlamentares, furando a fila de familiares de
outros presos, que aguardavam desde a madrugada autorização para ingressar no
presídio.
A OAB, ausente durante todo o julgamento, só se manifestou para
endossar as críticas dos mensaleiros e reclamar da suposta severidade do
presidente do STF. Presos comuns – como os de Pedrinha, no Maranhão – não
causam qualquer consternação, nem à OAB, nem aos grupos de direitos humanos.
Não têm grife ideológica. São vítimas contemporâneas, que vivem
em regime de terror. Podem ter suas aflições interrompidas já, mediante
intervenção desses grupos que se proclamam humanitários, mas, à exceção de
vozes isoladas e impotentes, não sensibilizam os ativistas dos direitos humanos
ideológicos.
Não faltam vozes, à esquerda, reclamando do moralismo que
condenou os mensaleiros. Mas essas mesmas vozes fizeram carreira política com
discursos moralistas, frequentemente falsos.
O já falecido senador Humberto Lucena foi cassado por imprimir
um calendário na gráfica do Senado. O deputado Ibsen Pinheiro foi cassado
graças a um falso extrato bancário, que o mostrava milionário. O extrato foi
entregue por José Dirceu à redação de uma revista semanal, que o publicou como
verdadeiro. Dez anos depois, desfez-se a farsa, mas já era tarde.
O ex-ministro Eduardo Jorge, do PSDB, foi execrado publicamente
como corrupto numa manobra do PT com um procurador da República, Luiz Francisco
de Souza, que saiu de cena depois que o partido assumiu a Presidência da
República.
O PT hoje prova do veneno que serviu à política brasileira. Nos
23 anos que precederam sua chegada ao poder, pôs em cena a famosa recomendação
de Lênin aos militantes comunistas: “Acuse-os do que você faz”.
O tiro um dia sairia pela culatra. Saiu.





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