Que bom te ver por aqui, seja bem vindo. Neste espaço busco repassar a informação séria, sem censura. Publico artigos e notícias que estão na internet e que acredito serem de interesse geral. Também publico textos, vídeos e fotos de minha autoria. Nos textos há sempre uma foto ou um gif, sempre ilustrativa, muitas vezes, nada tem a ver com o texto em questão. Para entrar em contato comigo pode ser em comentários nos artigos ou, então, pelo e mail andradejrjor@gmail.com.
O prefeito contava uma
piada — velha, diga-se de passagem — para fazer média com um mafioso
dono de uma empresa de ônibus da Zona Oeste quando Jorge, o esbaforido
assessor, abriu de repente a porta do gabinete para espanto geral.
— Prefeito, com licença...
— Que foi, Jorge? Que cara é essa?
— Desculpe interromper, mas é que... aconteceu uma emergência.
— Putz grila, Jorge. O que desabou agora?
— Não caiu nada, senhor prefeito. Graças a Deus!
— Ufa! Então fala logo de uma vez, que eu vou pra Angra com as crianças ainda hoje.
— Não vai, não.
— Como é que é?
— É que acabaram de invadir a casa do senhor lá, prefeito.
— Quem invadiu?
— Os sem-terra.
— Peraí, Jorge. Os sem-terra invadiram uma casa num condomínio em Angra? O MST não faz isso!
— É que esses não são do MST, prefeito.
— E são de onde?
— Esses são o MSTCT.
— MSTCT?!? Que que é isso?
— Movimento dos Sem Terra Com Terra. É um braço deles, mas menos à esquerda da esquerda. Eles têm mais recursos, senhor.
— Sem Terra Com Terra?!? Pede meu helicóptero que eu vou lá agora acabar com essa palhaçada pessoalmente.
— Não vai, não.
— Como não?
— Bloquearam o heliponto e a saída aqui fora.
— Quem bloqueou?
— Os estudantes.
— Que estudantes?
— Que não estudam. Os estudantes profissionais!
— E desde quando existe esse troço de estudante profissional?
— Desde que enchemos as universidades públicas com essa molecadinha de escola particular.
— Então expulsa todo mundo.
— Não adianta. Tá cheio de imprensa lá fora apoiando o movimento.
— A mídia tá do lado deles?
— Só a independente
mesmo. Aquela que dependia de propaganda do governo. Esses jornalistas
que não estão em nenhum jornal estão putos. E os intelectuais também.
— Que intelectuais?
— Os que não estão pensando direito, prefeito.
— Cansei. Sabe o que eu vou fazer? Vou ligar pro Major Gouveia tirar geral na marra.
— Não vai, não.
— Ai, minha caceta! Que foi agora?
— A Polícia entrou em greve.
— E quem convocou?
— Os sindicalistas que não trabalham.
— E isso é legal?
— Os legalistas que defendem ilegalidades disseram que é.
— Mas o que aconteceu pra essa gente se mobilizar? O que eles querem?
— Estão pedindo justamente o fim da Polícia Militar. Vê se pode!
— Por que estão pedindo isso?
— Porque um soldado prendeu num ecopacifista que estava atirando rojões na PM e queimando pneus.
— Mas PM nem é assunto do município, pô! Eu sou prefeito. Quem pode fazer alguma coisa é o governador.
O impeachment da
presidente Dilma Rousseff, economista oriunda do brizolismo gaúcho, é o
segundo, na vigência do estado democrático de direito, em 24 anos. O
primeiro, de Fernando Collor de Mello, senador por Alagoas, e um dos 61
que votaram pela saída de Dilma, foi importante demonstração de vigor
das instituições da democracia representativa, dada havia apenas quatro
anos da promulgação da Constituição de 1988, marco do retorno ao estado
democrático, após duas décadas de ditadura militar. Mudou o status do
Brasil no mundo civilizado. O fato de o afastamento de Dilma ter obtido
sete votos a mais que o mínimo exigido de dois terços dos senadores não
pode ser ofuscado pelo desencontro entre PSDB e PMDB na aprovação,
contra a posição dos tucanos, da liberação para que Dilma ocupe cargos
públicos.
São um feito os dois impeachments, sem rupturas, num
continente cuja trajetória é pontilhada de acidentes institucionais e
autoritários, à direita e à esquerda, tendo como ligação, entre esses
dois campos que se opõem, o nacionalismo, muitas vezes turbinado pelo
populismo, como tem sido na tragédia do chavismo e foi na debacle do
lulopetismo, com a mais grave desestabilização da economia brasileira na
República.
É de notável ineditismo, na América Latina, o fato de
esses incidentes institucionais no país serem contornados sem as
rupturas clássicas na região. É tema de debates e estudos de cientistas
políticos a incapacidade de o Brasil, no arranjo inaugurado na Nova
República, não permitir maiorias estáveis no Congresso, para dar
governabilidade aos inquilinos do Planalto. A discussão continuará.
O
PT resolveu literalmente comprar a base parlamentar, para viabilizar um
projeto de eternização no poder. Para isso, assaltou a Petrobras,
outras empresas públicas e se enredou em um novelo do qual está longe de
se livrar nos tribunais. Sempre guiado pelo máxima dos “fins que
justificam os meios”.
A razão do impeachment de Dilma é de outra
natureza. Restou provado na acusação encaminhada à Câmara por Hélio
Bicudo, procurador que combateu o Esquadrão da Morte em São Paulo,
fundador dissidente do PT; os advogados Miguel Reali Jr., ex-ministro da
Justiça, na gestão FH, e Janaína Paschoal, professora do Largo de São
Francisco, simbólica Faculdade de Direito da USP, que Dilma cometeu
crimes de responsabilidade de ordem fiscal e orçamentária.
Foi
diferente do que aconteceu com Collor, condenado no Senado por quebra de
decoro, devido a denúncias de corrupção, mas inocentado no Supremo.
Tudo também dentro das regras legais. Pois o julgamento no Congresso é
de cunho político. No processo contra Dilma, não há acusações de
corrupção, mas crimes que têm a ver com a visão ideológica lulopetista,
com o tempero brizolista da ex-presidente. Não passou despercebido que,
ao se defender no Senado, Dilma Rousseff usou tática do guia Leonel
Brizola: nunca responder as perguntas e falar o que quiser.
Dilma
se converteu à responsabilidade fiscal muito tarde, ao vir a dizer, só
nesta semana, no Senado, ante o cadafalso, que lamentava o PT não haver
votado para aprovar a LRF. No poder, atropelou-a sem piedade. Dilma não
fez qualquer menção, por óbvio, mas o partido pelo qual se elegeu, o PT,
também não assinou a Constituição de 1988. Louve-se a coerência: a
legenda sempre avança contra a Carta e a LRF. Ao propor “Constituintes
exclusivas”, por exemplo.
Dilma e os “desenvolvimentistas” não
gostam da responsabilidade fiscal. Consideram-na “neoliberal”, um
obstáculo conservador ao ativismo fiscal do Estado, esta uma obsessão da
esquerda latino-americana do pós-Guerra. Mas todos precisam cumpri-las,
a Carta e a LRF, com as respectivas normas decorrentes
Dilma
perdeu o cargo por sectarismo ideológico e voluntarismo, por achar que
“vontade política” é o que resolve problemas no governo. Algo de sabor
stalinista. Ao ir contra leis, a Carta e princípios técnico inamovíveis,
cometeu suicídio. Collor sofreu impeachment devido à ética; Dilma, por
investir contra pilares institucionais que o Brasil começou a construir
no Plano Real, a partir de 1994, com Itamar e Fernando Henrique Cardoso.
Eduardo
Cunha é, na “narrativa” lulopetista, peça central de um onírico complô
em que se misturam corruptos temerosos da Lava-Jato, defensores do
ex-presidente da Câmara e “inimigos das conquistas sociais”. E, claro, a
“mídia”.
Mas foram a obsessão com o ativismo estatal e gastos
sem medidas, maquiados por técnicas da “contabilidade criativa”, que
construíram a enorme crise fiscal, visível a todos a partir de 2015,
quando afloraram os números reais. Ou próximos deles. Assim, edificou as
bases do seu enforcamento legal. Mas nem tudo é pura ideologia. Houve
também forte dose de esperteza, a fim de esconder o lixo debaixo do
tapete, marquetear um país inexistente na propaganda política de 2014, e
ganhar a reeleição em rotundo estelionato. Depois, veio o tarifaço,
porque o governo congelou combustíveis, energia elétrica etc., para
represar de maneira artificial a inflação, a fim de faturar a reeleição.
Lulopetistas
devem ter aprendido com Ulysses Guimarães e José Sarney quando, em
1986, fizeram o mesmo para o seu PMDB ganhar as eleições no fim daquele
ano, nos estertores do Cruzado. Elegeram 22 governadores. Dias depois,
executaram os ajustes necessários, com liberação de preços e tarifas. O
filme passou mais uma vez em 2015, com Dilma. Mas não chegou ao fim,
porque as instituições republicanas estão solidificadas.
A edição
de decretos de gastos sem aprovação do Congresso e as “pedaladas” —
deixar instituições financeiras pagar despesas do Tesouro, numa operação
ilegal de crédito à União — demoliram Dilma. O conjunto da obra de
malfeitos fiscais é de enormes proporções. Eles vêm desde o final do
segundo governo Lula, mas bastaram os crimes cometidos em 2015, conforme
limitação imposta pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, ao aceitar o
pedido de impeachment, para derrotar Dilma e o lulopetismo de pedigree
brizolista.
O saldo desses empréstimos ilegais concedidos à
União, por decisão do Planalto, pelo Banco do Brasil, Caixa Econômica,
BNDES e até o FGTS chegou em 2015 a pouco mais de R$ 50 bilhões, cifra
gigantesca. O Brasil havia voltado ao passado, à antessala da
pré-hiperinflação, quando o BB se financiava diretamente no Tesouro e
governadores ordenhavam seus bancos estaduais como casas da moeda
privadas. Costuma-se dizer que a estabilização econômica permitida pelo
Plano Real se tornou patrimônio da sociedade. O impeachment de Dilma é
prova cabal de que isso é verdade. A partir de agora, qualquer
governante que pense em atalhos à margem da lei, no manejo orçamentário,
precisará refletir sobre as implicações de seus atos. O mesmo vale para
delírios no campo político-institucional. O fortalecimento não é apenas
das cláusulas da responsabilidade fiscal, mas da Constituição como um
todo, para desaconselhar de vez projetos bolivarianos como o do
lulopetismo. Serve de aviso geral à nação.
Michel Temer assume
definitivamente a Presidência da República em condições análogas às de
Itamar Franco: após o impeachment de um presidente eleito diretamente.
Seu maior desafio a partir de agora, no entanto, será não repetir a
trajetória de José Sarney, que também chegou ao poder pela via indireta,
mas perdeu condições políticas de governar ao longo dos anos e entregou
o País mergulhado em uma crise econômica profunda.
Seus
principais obstáculos já estão postos, e o próprio rito acidentado e
lento que levou ao impedimento de Dilma Rousseff e o alçou
definitivamente ao poder mostraram que Temer ainda não deu mostras de
que está pronto a enfrentá-los com êxito.
No primeiro discurso
que fez diante de seus ministros, em tom de desabafo, o presidente
elegeu o combate ao desemprego como prioridade. Fala para 11,8 milhões
de desempregados, um contingente enorme depois de um período recente em
que o País experimentou uma condição de praticamente pleno emprego –
ainda que graças a heterodoxias fiscais e econômicas que agora cobram
seu preço.
Para reverter o desemprego, o governo terá, antes, de
equilibrar as contas públicas, aprovar o teto dos gastos, encaminhar uma
reforma da Previdência tão urgente quanto difícil de aprovar e levar o
País a voltar a crescer. Uma tarefa hercúlea para um mandato de quatro
anos, quase uma missão impossível para um governo que terá apenas dois
anos e quatro meses pela frente.
É aí que entra na equação o
segundo fator, crucial para que Temer não repita o fracasso de Sarney: a
necessidade de ter uma maioria ampla, clara e sem as ambiguidades que a
base aliada tem demonstrado – e que voltou a expressar até mesmo ontem,
na votação do impeachment.
Se Sarney teve sempre o presidente da
Câmara, do PMDB e da Constituinte, Ulysses Guimarães, a lhe fazer
sombra e a disputar com ele o comando político do País durante seu
governo, Temer terá em seus calcanhares o presidente do Senado, Renan
Calheiros. Novamente a disputa pelo comando político se dá dentro do
mesmo partido do presidente. E de novo esse partido é o PMDB.
Ao
urdir, à revelia do Planalto, a saída que fez com que Dilma não ficasse
inabilitada a exercer funções públicas, mesmo sofrendo impeachment,
Renan deu uma demonstração clara de que comanda uma parcela expressiva
do partido e que Temer terá de lhe consultar a cada votação importante
no Congresso Nacional.
Que ninguém se engane com o significado do
#tamojunto que Renan “sem querer” deixou “vazar” ao dar posse a Temer
ontem. Não se trata de uma declaração de apoio, e sim de um alerta: seu
destino depende de mim. Isso ganha outros significados quando se sabe
que o presidente do Senado terá de enfrentar uma batalha judicial no
âmbito da Operação Lava Jato e espera receber a benevolência do Planalto
para ajudá-lo.
Assim, não é de se estranhar o tom algo sombrio
da primeira fala de Temer. Ele sabe que não haverá lua de mel com a
opinião pública, com as ruas que estão em ebulição permanente desde 2013
e com o mercado, que foi fundamental para criar as condições políticas
para o impeachment de Dilma.
Também não há no horizonte mágicas
como o Plano Cruzado ou saídas mais elaboradas, como o Plano Real, para
garantir esse rumo na economia e amalgamar a maioria no Congresso
Nacional.
O governo Michel Temer terá de mostrar que sabe se
guiar sem improviso, que não é mais interino e que tem legitimidade para
fazer as reformas que o País espera. E isso em tempo recorde e sem
ficar refém do Congresso. Itamar, talvez com um pouco de sorte e graças
ao Plano Real, conseguiu. Sarney fracassou completamente.
Michel Temer, agora presidente efetivo, é uma caixa-preta. Pouco, quase nada, se sabe sobre qual é o seu projeto de país.
Não
se sabe por vários motivos. Primeiro, o PMDB, seu partido, não
apresenta candidato presidencial desde que Orestes Quércia foi
estraçalhado nas urnas em 1994.
Logo, o partido (e Temer, por
extensão) não precisou nesses 22 anos transcorridos desde então
apresentar um programa de governo. Nem mesmo aqueles programas de
fantasia que são elaborados e divulgados a cada eleição, para serem
esquecidos ou descumpridos depois da vitória.
Em segundo lugar,
Temer sempre foi um político discreto, para não dizer medíocre. Se fosse
mais relevante, teria sido lembrado, em algum momento de sua longa vida
pública, para a cabeça de chapa em eleição presidencial ou, pelo menos,
na estadual de São Paulo, sua base.
Ao ser discreto, o hoje
presidente nunca foi solicitado a apresentar seus pontos de vista sobre
os grandes problemas nacionais. Conhecem-se dele, é verdade, alguns
trabalhos sobre temas jurídicos, mas, de um presidente da República,
espera-se muito mais do que isso.
Temer nem poderia ser explícito
sobre o conjunto de questões que inquietam o país porque o PMDB não é
um partido e, sim, uma confederação de caciques regionais, um "partido
ônibus", como dizia Fernando Henrique Cardoso, que se divide até em
votações como a do impeachment/inabilitação de Dilma.
Completa o
cenário o fato de que, na sua interinidade, Temer não chegou a
apresentar uma plataforma mínima. A única prioridade anunciada –o
saneamento das contas públicas– não é uma agenda própria mas imposição
da realidade.
Mesmo que Dilma Rousseff tivesse sido mantida na
Presidência, teria forçosamente que enfrentar essa questão tal a
deterioração ocorrida nos últimos anos nesse quesito essencial. Tanto
que ela ameaçou fazê-lo ao assumir o segundo mandato, mas foi tão
hesitante e tão canhestra que acabou fracassando.
Do meu ponto de vista, mais que a questão fiscal o que definirá o sucesso ou o fracasso de Temer será sair ou não da recessão.
Feita essa ressalva, cabe perguntar se o impeachment por si só conseguirá resolver o imbróglio em que o país está metido.
Responde, em artigo para a "Forbes", João Augusto de Castro Neves, diretor para a América Latina do Eurasia Group:
"Contra
o pano de fundo de uma economia global menos favorável, uma combinação
de profunda recessão, desequilíbrio fiscal, escândalo de corrupção em
andamento e a habitual contenda política, constitui o que muitos têm
chamado de tempestade perfeita. Embora o fim de um longo processo de
impeachment traga algum respiro, o novo governo continuará a enfrentar
um batalha morro acima para pôr o país nos trilhos de novo".
Batalha
que se dará em terreno pantanoso: um mundo político apodrecido, no qual
Michel Temer se moveu sem maiores constrangimentos. Resta saber se,
agora que é obrigado a abrir a sua própria caixa-preta, o novo
presidente tem um projeto de país capaz de subir o morro.
Com a conclusão do
processo de impeachment de Dilma Rousseff, pondo fim a uma hegemonia de
mais de 13 anos do PT no poder, o Senado cumpre seu papel dentro de uma
visão jurídica, legal e democrática. A surpresa com a manutenção dos
direitos políticos da dirigente cassada e os inevitáveis questionamentos
a serem suscitados a partir da decisão são questões secundárias diante
de um aspecto essencial: o de que o presidente Michel Temer tem um
desafio considerável ao assumir o comando do país no auge de uma crise
política e econômica de proporções inéditas na história recente.
Na
condição de titular do cargo, e mesmo registrando baixos índices de
popularidade nas pesquisas de opinião pública e nas ruas, o presidente
não tem mais como adiar as mudanças necessárias para definir um rumo
imediato para o país, assegurando perspectivas para a redução do
desemprego e da taxa de juros. É promissor que, já em sua primeira
reunião ministerial, o presidente tenha se comprometido ontem com
algumas das reformas emergenciais para "colocar o Brasil nos trilhos".
Sob
o ponto de vista econômico, o presidente conta com um trunfo
considerável para transmitir confiança na retomada da estabilidade: uma
equipe reconhecidamente qualificada, que deixou evidente, desde o
início, seu compromisso com o rigor fiscal. Por isso, a prioridade
imediata, num período eleitoral e de tensões acirradas pelo impeachment,
é garantir um mínimo de diálogo com o Congresso, que assegure a
aprovação de uma proposta de contenção dos gastos oficiais,
condicionando sua expansão à inflação do ano anterior. Não é missão
fácil num setor público habituado a dispêndios sem limite — e há ainda
questões mais complexas. Entre elas, estão a reforma da Previdência, que
mobiliza sempre corporações influentes, e a política, diante das quais
os parlamentares costumam se mostrar reticentes.
Não basta ao
governo do PMDB manter uma equipe econômica renomada para transmitir
segurança aos brasileiros em geral e ao mercado em particular. É
importante que, a partir de agora, não venha a repetir equívocos da
interinidade, como a nomeação de ministros que precisaram ser
substituídos ante denúncias de envolvimento com corrupção. Daqui para a
frente, é preciso também evitar idas e vindas como as que, no início,
transmitiram incômodos sinais de hesitação. Entre as contradições, estão
a volta atrás na redução do número de ministérios e o aval manifestado a
reajustes salariais de elites de servidores que, na prática, impactam
ainda mais as já deterioradas contas públicas.
Os brasileiros
anseiam por estabilidade política e econômica, mas esperam também que o
necessário ajuste nas contas acabe acenando com melhorias em serviços
essenciais como saúde e educação. O presidente Michel Temer, que assume
em condições econômicas adversas, devido à crise, e criticado por
opositores, aos quais transmitiu ontem um recado duro, precisa agir
rápido para recuperar o tempo perdido e pacificar o país.
Viramos uma triste
página. Melhor teria sido que o governo Dilma Rousseff tivesse
competência política e administrativa para chegar ao final. O que
sobrou? Ilusões perdidas de quem acreditou no modo PT de governar,
economia em recessão, desemprego em massa, escândalos, uma onda de
desencanto.
Será a ex-presidente a única responsável? Não. Mas
ela foi incapaz de manter as rédeas do governo e deixou evaporar as
condições de governabilidade. Juntou-se a isso o crime de
responsabilidade.
Uma pessoa eleita por 54 milhões de votos é
derrubada, sendo inocente, como repisou a defesa petista? Houve um
“golpe congressual” pela perda da maioria, como nos sistemas
parlamentaristas? Tampouco. Em sua emotiva, mas racional argumentação, a
doutora Janaína Paschoal sumarizou com pertinência o desrespeito às
normas constitucionais. O impeachment requer fundamento jurídico (um
desrespeito continuado à Constituição), mas é também um processo
político (a falta de sustentação congressual e popular) e não tem
necessariamente consequências capituladas no Código Penal. Foi jogando
com este último aspecto que a presidente Dilma apelou retoricamente para
sua “inocência” (não roubei, não tenho conta no exterior, etc.).
Diga-se
em sua homenagem que, na parte lida do discurso perante o Senado e em
boa parte da arguição, ela se mostrou “uma guerreira”. Se a guerrilheira
do passado não era tão democrática como afirma, isso não apaga a
nobreza de sua resistência ao arbítrio e à tortura. Tampouco,
entretanto, sua combatividade justifica as “pedaladas fiscais”, os
gastos não autorizados pelo Congresso, as centenas de bilhões de reais
destinados à maciça transferência de renda em benefício de empresas
nacionais e estrangeiras, via BNDES e subsídios fiscais, para não
mencionar o fato de que presidia o Conselho de Administração da
Petrobrás quando a empresa era assaltada em benefício de seu partido e
da “base aliada”.
A presidente Dilma Rousseff pagou com o
impeachment o preço de sua teimosia e da visão voluntarista que se
consubstanciou na “nova matriz econômica”. E pagou também pela má
companhia. Se a presidente não foi autora dos malfeitos, foi
beneficiária política deles. Foram tantos os implicados nessa rede que,
aos olhos do povo, ficou condenada toda a “classe política”. A ruína do
governo petista provoca o desabamento do atual sistema político. Os
erros vêm desde quando os partidos social-democratas (grosso modo, PSDB,
PT, PSB e PPS) foram incapazes de inibir suas idiossincrasias e de
conviver, divergindo quando fosse o caso.
O PT, herdeiro da visão
de um mundo dividido em classes e organizado em torno do eixo
direita-esquerda, encarou os liberal-conservadores, especialmente o PFL,
como se fossem uma direita reacionária. Ao PSDB quis pintar como um
partido da elite conservadora. A fatal decisão do primeiro governo Lula
de se aliar aos “pequenos partidos”, e não ao PMDB – que representava o
“centro” –, e transformar o PSDB em “partido inimigo” deu origem ao
mensalão, que posteriormente encontrou réplica mais ampla no petrolão.
O
PT de Lula abriu assim espaço para o oportunismo, o corporativismo dos
vários “centrões”. O atual amálgama dos ultraconservadores em matéria
comportamental com os oportunistas, clientelistas etc., forma o que eu
denomino de “o atraso”. Meu governo e o de Lula, no início, ainda foram
capazes de dar rumo ao País, o que forçou o atraso a jogar como
coadjuvante. Mais recentemente, entretanto, houve uma inversão: o atraso
passou a comandar as ações políticas, tendo Eduardo Cunha como figura
exponencial. O mal-estar na sociedade, somado às informações sobre
desmandos e corrupções que circulam numa sociedade livre e ao
desenvolvimento de instituições estatais de controle externo, pôs em
xeque o arranjo político institucional: o povo e as instituições
reagiram e abriram espaço para a mudança de práticas.
Estamos
assistindo, e não só no Brasil, aos efeitos das grandes transformações
econômicas e tecnológicas. Sociedades estruturalmente fragmentadas por
uma nova divisão do trabalho, culturalmente heterogêneas, com muitas
dificuldades para manter a coesão social, com ampliação gigantesca da
acumulação de capitais e interrogações sobre como oferecer empregos e
reduzir a desigualdade.
Nesse tipo de sociedade as distinções de
classe se mesclam com outras formas de identificação social. Nelas,
paradoxalmente, os partidos perdem espaço e as narrativas capazes de
juntar massas dispersas suprem o vazio criado na trama política. Por
isso, o slogan: “É golpe”. O resto, as ligações efetivas dos petistas
com interesses vários, os resultados de suas políticas e a identificação
dos grupos que delas se beneficiaram, fica obscurecido pela força
eventual da narrativa.
O desafio das lideranças renovadoras será
criar, mais do que uma “narrativa”, propostas que desenhem caminhos para
a Nação. Teremos capacidade, coragem e iniciativa para rever posturas,
caminhos e alianças? Terá o PT disposição para uma verdadeira
reconstrução e para o diálogo não hegemônico? E os demais partidos,
inclusive e principalmente o PSDB, serão capazes de aglutinar a maioria,
apesar de inevitáveis divergências?
O que vimos nas semanas
passadas foi o rufar de tambores para a construção de um discurso: uma
presidente inocente sendo destronada por golpistas ansiosos pelo poder.
Mau começo para quem precisa se reinventar. A despeito disso, temos
desafios comuns. Ou bem seremos capazes de reinventar o rumo da política
ou novamente a insatisfação popular se manifestará nas ruas, sabe-se lá
contra quem e a favor do quê. E não basta circus, belas palavras,
também é preciso oferecer panis, um rumo concreto para o País e sua
gente.
Se os problemas do Brasil se resumissem ao PT, seria mesmo um ponto de inflexão e tanto. Mas o buraco é mais embaixo
Um
dia histórico, sem dúvida. E muito importante para o Brasil. Após a
mobilização de milhões de brasileiros nas ruas e a pressão sobre a
classe política, o país conseguiu se livrar de Dilma, a presidente mais
incompetente de nossa história, e do PT, o partido mais golpista e
cínico de todos. O povo pode respirar um pouco aliviado: não viramos a
Venezuela.
Mas... Detesto ser o estraga-prazeres tão cedo, em
momento de comemoração legítima, mas preciso tocar a real aqui: isso foi
apenas a ponta do iceberg em que nosso Titanic bateu. Se os problemas
do Brasil se resumissem ao PT, seria mesmo um ponto de inflexão e tanto.
Mas o buraco é mais embaixo.
Para começo de conversa, há a
herança maldita deixada pelo PT. Nesta quarta-feira mesmo tivemos o
resultado do PIB no trimestre: mais uma queda, a sexta consecutiva, de
0,6%, o que leva a um declínio de quase 5% no acumulado de 12 meses. É
uma depressão!
Como reverter esse quadro sombrio? O Estado
quebrou, o rombo fiscal assusta, e as reformas estruturais necessárias
parecem distantes da realidade. O atual governo fala em medidas
paliativas e em aumento de impostos, o que não suportamos mais.
Do
ponto de vista econômico, portanto, há sinais de mudanças relevantes;
paramos de cavar no buraco, mas parece muito pouco, muito tarde. O PT
faliu nosso país, e sua reconstrução vai demorar bastante. Não há
garantias de que as reformas de que precisamos serão de fato aprovadas.
Tem muito chão pela frente ainda.
E a economia não é tudo. É o
mais urgente, e Temer tem consciência disso, o que é alvissareiro. Mas
existem diversos outros problemas, igualmente graves, de longo prazo. A
começar pela degradação de valores morais em nosso país.
Claro
que o PT não criou a malandragem, o jeitinho, a Lei de Gérson de se dar
bem a qualquer custo. Mas incorporou como poucos esse ideal e, como o
péssimo exemplo veio de cima, de seu líder máximo, o estrago produzido
foi enorme. Temos um país dilacerado pela ética da malandragem, e
resgatar – ou construir – valores morais sólidos será obra de mais de
uma geração.
O que nos leva a outro problema correlato: a
doutrinação esquerdista em nossas escolas e universidades. Esse talvez
seja o mais grave de todos os males que nos assolam. Nossos jovens são
metralhados com slogans marxistas e distorções históricas desde cedo, e
muitos não resistem: saem do ensino como autômatos que repetem as mesmas
ladainhas enquanto mal sabem ler, escrever e fazer contas.
A
hegemonia de esquerda em nossa “educação”, que tem o comunista Paulo
Freire como “patrono”, precisa ser revertida o quanto antes. Há indícios
de que um movimento de reação começou, mas ainda é incipiente demais. A
batalha cultural é a mais importante de todas em um horizonte mais
longo, e será decisiva para sabermos se há ou não esperanças quanto ao
nosso futuro.
Diante desse quadro, fica claro por que podemos
festejar uma vitória nada trivial como a do impeachment de Dilma, mas
sem relaxar muito, sem achar que isso é o ponto de chegada, e não o de
partida para um país melhor. Temos, ainda, de desarmar a bomba-relógio
deixada pelo PT na economia, recuperar valores morais em nossa cultura e
desinfetar nossas escolas e universidades do retrógrado socialismo que
ainda encanta militantes disfarçados de professores e jovens ingênuos.
A
guerra está apenas começando. E a esquerda não se resume ao PT. É muito
mais, está espalhada por todo canto, e sabe se adaptar, trocar de
embalagem, ressurgir das cinzas como uma fênix. O impeachment foi
fundamental para impedir o naufrágio do Brasil. Mas o PT era apenas a
ponta do iceberg. O verdadeiro inimigo é o esquerdismo. E ele continua
bem vivo e atuante, criando obstáculos ao nosso progresso rumo à
civilização.
Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.
MIRANDA SÁ “Vivemos um et cetera” (Guimarães Rosa)
Pronto,
acabou-se. Depois das chicanas, esperneio e gritaria, o Senado
curvou-se à voz do povo e obedeceu à Constituição: Dilma foi impichada
por crime de responsabilidade e et cetera…
No
caso em pauta, o etecetera é o conjunto da obra. A partir de uma
eleição e reeleição tramadas diabolicamente por Lula, aquela apoiada na
popularidade de então e essa usando um torpe esquema de corrupção, Lula
pensou apenas em continuar governando através de um fantoche.
Et
cetera, (Et cetera e também et cætera) vem do latim, significando
“outras coisas”. Na escrita aparece com a abreviatura “etc.”, sempre com
um ponto final. O seu uso é múltiplo, seja como “e outras coisas mais”
ou “e assim por diante”.
Essa
expressão, comumente usada na linguagem escrita ou falada nunca teve
tanta aplicação como agora. Dilma apenas deu pedaladas fiscais? Somente
atropelou o Congresso legislando para maquiar as contas públicas? Que
nada, bota etc. nisso!
A
presidente defenestrada pela vontade popular foi, em primeiro lugar, um
estelionato na primeira eleição, vendida ao eleitorado como uma
gerentona quando na verdade exerceu com demérito os cargos anteriormente
ocupados na administração federal.
Disseram
que Dilma entendia de eletricidade, mas destruiu a Eletrobrás por
incompetência e permissividade com as empreiteiras corruptas. À frente
do conselho da Petrobras, foi responsável pela imoral e criminosa compra
de Pasadena, além de negócios escusos no Japão. Em Angola e na
Argentina. Levou a Petrobras a situação falimentar.
A
“honestíssima” pôs no seu governo pessoas ainda sob suspeição de
avanços no patrimônio público, Edinho, Erenice, Guido Mantega,
Mercadante, a dupla assaltante do empréstimo consignado Gleise e
Bernardo e o infalível Palloci.
Os
governos de Dilma, além dos inúmeros casos de corrupção investigados
pela Lava Jato, foram pautados pelo marketing e uma desenfreada
propaganda; as suas relações com o povo limitaram-se aos discursos
contrários à verdade e, com o Congresso, por uma atitude de sobeja
arrogância e autoritarismo.
Ensimesmada,
a “gerentona” isolou-se da cidadania, dos aliados políticos e até do
próprio partido. Ao assumir a mentira como modo de governar, terminou
incorporando-a ao seu comportamento. Obcecada pelas palavras-de-ordem
extemporâneas e uma visão distorcida da realidade, contribuiu para o
degenerado “socialismo bolivariano”, transferindo a riqueza nacional
para os populistas e ditadores latino-americanos e africanos.
Realizando
uma transferência de renda para outros países privou o Brasil de
hospitais, escolas, transporte e segurança pública. Se teve retorno, não
foi para o BNDES, mas para o bolso de Lula, dos consultores petistas e
das empreiteiras corruptas.
Os
programas ditos sociais foram escamoteados pela roubalheira
desenfreada: O Bolsa Família, além de servir a interesses eleitorais,
alcançou milhares de beneficiários fraudulentos indicados pelo PT; o
Minha Casa engordou o caixa 2 do PCdoB, e o empréstimo consignado para o
funcionalismo reservava 2% para a quadrilha de Paulo Bernardo.
Alguém
se lembra dos PACs – a publicidade demagógica que deixou centenas de
obras inacabadas? Na verdade, esses programas não passaram de
caça-níqueis para o lulo-petismo.
Enfim,
faltou ao julgamento do impeachment um “eteceterão”, porque o lado
positivo do governo Dilma não passou de uma gota no meio de uma torrente
amazônica de inconsequências e mal feitos. Pena que Dilma tenha
enganado muitos por muito tempo na nossa Pátria Mãe tão distraída que
foi envolvida nas suas tenebrosas transações…
O que a Constituição une, o Senado não pode separar. Mas separou pena
e sentença: é o saco de gatunos do PMDB em ação. Contudo, o que fica de
essencial é que Dilma Rousseff vai, que o Brasil falará de si,
mudaremos de assunto finalmente. Há menos de dois anos, Dilma se
reelegia como poste que seria ponte para o Lula de 2018 e a resistência
se abatia com a derrota de Aécio Neves por tão poucos votos e por tanta
roubalheira. A Lava Jato, a pressão das ruas e a crise econômica
frustraram o pesadelo hegemônico. Me parece que a soma das crises –
política, econômica e ética – revelou um país novo que esboça a urgente
mudança de crenças e valores dos brasileiros quanto ao papel do Estado e
da sociedade, provou o quão nefasta pode ser a tutela e a intermediação
do Estado em relações privadas e confirmou a vocação totalitária do PT e
adjacências.
Petistas, congêneres e defensores insistem na mentira de que o
governo Temer é ilegítimo, mas não disseram o mesmo sobre Itamar Franco,
que assumiu depois da destituição de Collor. Sentiram-se vingados
porque haviam perdido a eleição para o marajá caçador de marajás. O
esquerdismo, na sua versão ressentida, expõe uma especialidade da
idiotia latino-americana que culminou no bolivarianismo: o personalismo
na política. Então, tudo é transformado em questões pessoais; é assim,
por exemplo, que Lula toma como ofensa pessoal a dupla vitória de FHC
sobre ele nas eleições presidenciais de 1990 e 1994. No Brasil, esse
personalismo apresentou outra degeneração no oportunista populismo de
gênero, com a ascensão de Dilma Rousseff. Com um carisma artificial, a
ex-presidente forjou certo dilmismo e grassaram entre nós o getulismo, o
lulismo, o malufismo e até o marinismo.
Publicidade
Não gosto de governantes carismáticos e não gosto de nenhuma dessas
figuras que batizam ismos. Desconfio quando o carisma parece ser sua
única ou a mais alta qualidade, quando tudo o mais que possam fazer ou
dizer se sustenta neste tal appeal. Gosto de Serra, Merkel, Anastasia,
Uribe e FHC. Evidentemente, a inteligência e os bons modos democráticos
do sedutor FHC o tornam um político carismático, mas o sóbrio carisma
dele só é uma qualidade porque há as demais que a ele se somam e até o
suplantam. Nos demais políticos carismáticos, como também na
espertalhona Marina Silva, por exemplo – que se pronunciou a favor do
impeachment ao mesmo tempo em que o senador Randolfe Rodrigues, o único
que representa a Rede, votou contra, – com ares de mandona, a
prolixidade de quem não tem o que dizer e o despiste sempre que
interpelada com firmeza, o carisma é o diluidor da figura institucional
do governante para robustecer a persona dele.
O nefando personalismo na recente política brasileira pariu um jeca
que precisou de quase 40 anos de vigarice para instaurar o lulismo; uma
parvoíce que em apenas 6 anos nomeia como dilmismo uma vertente da
escória; e uma Marina que só precisou de duas campanhas para fazer
florescer o marinismo. Sempre usando os pobres como álibi moral, escudo
contra a lei e anteparo de críticas, é somente no culto secular a
figuras antidemocráticas e medíocres, que os esquerzoides podem ainda
defender o capitalismo estatista, o coitadismo, os fins justificando
quaisquer meios, a vigarice intelectual para fraudar a história e
convencer quem pensa pouco de que nos salvarão da direita má que quer
exterminar direitos, do imperialismo americano que espreita nossas
riquezas e da elite perversa que só quer, bem, continuar sendo elite
perversa.
Me parece que esse personalismo, à parte demais deformações, nutre a
permanente atitude belicosa de Dilma Rousseff que se vai prometendo
guerra. Sabemos que para essa gente qualquer arma vale, mas não seria
hora finalmente de pensar no país? De se dar conta de que o combate não
prejudica Temer – que, de resto, nada fez contra ela –, mas o país? Não,
a coisa é pessoal. Para escapar da merecida cadeia, talvez a
mulherzinha se homizie em algum cargo de administrações petistas que lhe
garanta foro especial, já que nesse “impeachment de coalização”,
segundo uma definição perfeita que li em algum lugar, ela contou com a
manobra espúria que lhe garantiu o direito de exercer cargos públicos.
Dilma deixa algumas lembrancinhas como as contas arruinadas, um país a
ser reconstruído, o futuro adiado e a mais importante de todas: PT e
congêneres nunca mais. Finalmente, passaremos a falar do futuro que
temos para hoje: reforma, reforma e reforma – é isso o que nos colocará
no século 21. Reforma, sobretudo, de mentalidade. Parabéns, ao Brasil
que foi às ruas (nos domingos, sem depredar nada nem atrapalhar o
cotidiano) esfregar na cara dos caras que essa primeira mudança já raiou
no horizonte. O impeachment, esse lindo, é só o começo, mas o começo é
por onde as coisas começam mesmo.
Em meio às
discussões envolvendo o Projeto Escola Sem Partido (PLS 193/2016, PL
1411/2015 e PL 867/2015), que promete combater o que os seus autores
entendem como manipulação ideológica em sala de aula, não são raros os
casos de obras didáticas de história e geografia, disponibilizadas a
milhões de estudantes do ensino médio e fundamental da rede pública de
ensino, prestando homenagens a um super-herói da vida
pública brasileira: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Há inúmeros casos estapafúrdios, como no livro “História para o Ensino Médio”, da
Editora Saraiva, adotado em todo país. Nele, entre outras peças de
propaganda, os escândalos dos governos petistas são encarados como meros
conchavos de oposição.
“O caso
conhecido como ‘mensalão’, amplamente explorado pela imprensa liberal de
oposição ao petismo, foi a denúncia mais grave do período. O PT foi
acusado de organizar um esquema de compra de parlamentares para apoiar
os projetos do governo, e a denúncia tomou a proporção de um escândalo
sem precedentes. Os setores conservadores da sociedade e da imprensa
passaram a atacar o governo diuturnamente”.
A história se repete outras tantas vezes. Para os autores do livro “Caminhos do Homem”,
da editora Base Editorial, por exemplo, o governo Lula foi um tremendo
sucesso. Para eles, “os grandes avanços obtidos em várias áreas” e a
“ampliação de programas sociais que favorecem os mais pobres” são
“indicadores amplamente positivos do governo Lula” – por isso, suas duas
vitórias eleitorais “simbolizaram a vitória de um projeto social
alternativo para a consolidação da cidadania plena no país”.
Nem o
Plano Real, capitalizado politicamente pelo maior adversário político de
Lula, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, escapa. No livro “Novo Olhar História”,
da editora FTD, por exemplo, o trecho que fala sobre o plano econômico
já traz no título um olhar tendencioso: “Plano Real e seus custos sociais”.
Os
exemplos são inúmeros. Abaixo, separamos outras 7 vezes em que Lula
entrou para os livros didáticos brasileiros como um super-herói (e como
seus adversários são os arqui-inimigos do país).
1. “História e Vida Integrada”
O livro “História e Vida Integrada” é um best seller
do mercado de livros didáticos do país. Publicado pela Editora Ática,
com autoria dos irmãos Nelson Piletti e Claudino Piletti, é destinado
ao alunos do 9º ano do ensino fundamental (a antiga 8º série).
Livros didáticos aprovados pelo
Ministério da Educação para alunos do ensino fundamental trazem críticas
ao governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e elogios à gestão de Luiz
Inácio Lula da Silva (PT). Uma das exigências do MEC para aprovar os
livros é que não haja doutrinação política nas obras utilizadas.
Em seu
capítulo 19, o livro enumera problemas do governo FHC, como crise
cambial e o apagão, e traz críticas às privatizações. No item “Tudo pela
reeleição”, os autores citam denúncias de compra de votos no Congresso
para a aprovação da emenda que permitiu a permanência do tucano no posto
mais alto do país. O fim da gestão FHC aparece no tópico “Um projeto
não concluído”, que lista dados negativos do governo.
A análise
sobre Lula é completamente diferente. O livro cita a “festa popular” da
posse e diz que o petista “inovou no estilo de governar” ao criar o
Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. O escândalo do mensalão é
citado ao lado de uma série de dados positivos.
O
professor Claudino Piletti, coautor do livro, concorda que sua obra é
mais favorável ao governo Lula. “Não tem o que contestar”, afirmou à Folha.
Claudino
se desculpou dizendo que é responsável pela parte de história geral da
obra e que a história do Brasil ficou a cargo de seu irmão,
Nelson. Claudino assumiu que critica o irmão pela tendência pró-Lula e
vai tentar convencê-lo a mudar a obra.
“Não dá
para ser objetivo. O professor de história tem suas preferências, coloca
sua maneira de pensar. Realmente ele [Nelson] tem esse aspecto,
tradicionalmente foi ligado à esquerda e ao PT”, disse Claudino.
Nelson Piletti já foi candidato a deputado federal pelo PT.
2. “História em Documento”
O livro “História em Documento”,
da historiadora Joelza Ester Domingues, foi publicado em 2007,
pela Editora FTD. Na obra, que também é destinada aos alunos do 9º ano
do ensino fundamental, ao analisar a eleição de FHC, a autora afirma que
foi resultado do sucesso do Plano Real e acrescenta:
“Mas decorreu também da aliança do presidente com políticos conservadores das elites”.
Um quadro
explica o papel dos aliados do tucano na sustentação da ditadura
militar. Quando o assunto é o governo Lula, a autora – quediz
ter sido imparcial – inicia com a luta do PT contra a ditadura
(sustentada pelos aliados de FHC) e apenas cita que o partido fez
“concessões” ao fazer “alianças com partidos adversários”.
Assim como “História e Vida Integrada”, o livro “História em Documento” foi aprovado pelo MEC em 2009. À época, o ministro da Educação, Fernando Haddad,disseque os livros eram imparciais e que tinham passado por seleção rigorosa.
3. “Estudos de Geografia”
O livro “Estudos de Geografia”,
dos professores James Onnig e Ivan Lazzari Mendes, editado pela
Saraiva, chamou a atenção do deputado federal, e delegado da
PF, Fernando Francischini. Segundo ele noticiou em suas redes sociais no
ano passado, ao estudar com seu filho o conteúdo do livro, teve uma
surpresa: o livro era uma propaganda escancarada de Lula (e um manifesto
de oposição aos seus adversários políticos).
O deputado postou as imagens acima, com algumas páginas do livro, em seu perfil no Facebook.
4. “História Geral e do Brasil”
Publicado pela Editora Spicione, o livro “História Geral e do Brasil”, dos historiadores Gianpaolo Dorigo e Cláudio Vicentino, pinta os mesmos quados comparativos. Nele,
o PSDB é um partido “supostamente ético e ideológico” e os anos de
Fernando Henrique foram tempos de desemprego, de “compromissos com as
finanças internacionais”, em que “o crime organizado expandiu-se em
torno do tráfico de drogas, convertendo-se em verdadeiro poder paralelo
nas favelas”. E mesmo “dentro das prisões”, transformadas em “centros de
gerenciamento do tráfico e do crime organizado”, acrescentam os
autores.
O livro
critica a prioridade “da poupança externa”, em detrimento da interna,
durante o governo FHC. Para fundamentar sua postura, os autores citam o
historiador americano marxista Perry Anderson, que teria qualificado a
medida de “ingênua e provinciana”.
FHC fez
alianças com “um partido supostamente ético e ideológico, o PSDB, e
outros partidos supostamente fisiológicos, PFL, PMDB e PTB”.
A
abordagem em torno do governo Lula, no entanto, é bem diferente. Os
autores destacam a ascensão do PT ao governo, “um partido considerado de
esquerda”. Para eles, a “observação de sua prática administrativa”
constituíram “importante aprendizado político”.
O livro termina
apresentando a tensão entre o Brasil “pessimista”, dos anos FHC, com os
anos “otimistas” de Lula, e conclui com um prognóstico:
“As boas
notícias nos últimos anos indicavam que talvez os anos do pessimismo a
toda prova já tenham passado e, nesse caso, pode ser o momento do não
negativo como um novo paradigma para o Brasil”.
5. “Projeto Coopera História”
O “Projeto Coopera História”, do PNLD 2016,
é direcionado aos alunos do 5º ano do ensino fundamental e também não
escapa da análise maniqueísta em torno dos recentes governos
presidenciais. Sobre o primeiro mandato de FHC os autores dizem que:
“O programa de privatizações continuou de forma acelerada; entre as
estatais vendidas incluíram-se empresas de telecomunicações, energia
elétrica, mineração e setor financeiro.”
No livro do professor há a seguinte recomendação de acréscimo:
“Como
exemplo de privatização, é possível citar a venda da Companhia Vale do
Rio Doce (CVRD), da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer) e a
divisão do sistema Telebrás.”
O
livro elege e enumera outros pontos negativos do governo além da venda
de estatais: apagão de energia, aumento das dívidas interna e externa,
crescimento do desemprego, desigualdade na distribuição de renda,
corrupção no processo da reeleição e favorecimento aos grupos
financeiros.
Ao falar dos governos Lula, no entanto, a abordagem é bem diferente:
“Ele foi o primeiro presidente originário das camadas mais pobres da população.”
Em
seguida, diz que o maior desafio dele foi combater a miséria e o
desemprego. Para tanto, “buscou garantir à população mais carente
direitos essenciais.”
Além
de oferecer “bolsas de estudo para jovens pobres em universidades
particulares”, o presidente Lula combateu a seca na região Nordeste e
promoveu a integração nacional.
E
no último parágrafo, afirma que “o governo Lula teve como principais
marcas a retomada do crescimento do país, a redução da pobreza e da
desigualdade social, a estabilidade econômica, o fortalecimento do país
nas relações internacionais.”
O
livro do professor, como subsídio argumentativo sugere ao professor
“comentar com os alunos que o Bolsa Família ajudou, de certa forma, na
educação e na saúde das crianças, pois as famílias beneficiadas pelo
programa eram obrigadas a manter os filhos na escola e levá-los aos
postos de vacinação.”
Sobre os escândalos de corrupção, o livro desdenha:
“Alguns
escândalos políticos prejudicaram a imagem do governo, no entanto os
bons resultados obtidos possibilitaram que, em 2006, Lula fosse reeleito
para seu segundo mandato.”
Dilma, por sua vez, é apresentada como “a primeira mulher presidente do país”
(o negrito é do próprio livro, para marcar a importância do
acontecimento). Na comparação com o governo Lula, seu governo
possibilita a continuidade dos programas sociais como o Bolsa Família e
ainda acrescenta outros. Ela também é retratada como alguém que
aumentou o nível de emprego e o valor do salário mínimo; diminuiu o
desmatamento da Amazônia; reduziu a pobreza, as desigualdades sociais e a
mortalidade infantil.
Os
autores também procuram isentar a presidente Dilma dos pontos negativos
de seu governo, creditando-os às circunstâncias de percurso. A queda no
crescimento do país, por exemplo, é em virtude da crise mundial – e não
por políticas econômicas equivocadas – e pela demissão de ministros
envolvidos em corrupção.
No livro do professor, há uma orientação para o professor:
“Comentar
com os alunos que, o Plano Nacional de Segurança Alimentar e
Nutricional, em 2014 se conseguiu no Brasil a primeira geração de
crianças sem fome, quebrando o ciclo de pobreza que há séculos domina a
história do país.”
O livro é direcionado para crianças na faixa dos dez anos de idade.
6. Vestibular da Universidade Federal do ABC
Em 2013, Lula recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade Federal do ABC.
A
Universidade Federal do ABC foi escolhida para ser o carro-chefe da
propaganda em torno dos projetos de expansão das universidades federais
durante os governos Lula e Dilma. Criada por Lula, em 2005, no seu berço
político, a região do ABC, a instituição virou uma espécie de “queridinha” do ex-presidente.
Desde seu
nascimento, no entanto, a instituição não escapa do proselitismo
político. Logo em seu primeiro vestibular, em 2006, a UFABC apresentou
textos com apoio ao presidente Lula.
“A prova é uma propaganda para o governo Lula”, afirmou
na época o professor de história da UFSCar, Marco Antonio Villa. “No
que diz respeito ao país, foram escolhidas apenas notícias positivas.”
Em
discussão no vestibular, a auto-suficiência do país em petróleo,
a diminuição das queimadas no interior paulista e o aumento da
expectativa de vida dos brasileiros. A prova usou como base notícias
publicadas pela imprensa.
Numa
questão, o candidato deveria “analisar” o convite das centrais sindicais
CUT e Força Sindical para a comemoração do Dia do Trabalho.
O selo da
CUT dizia: “Valorize o emprego e a ampliação dos direitos”. Segundo o
gabarito oficial, a resposta era a que afirmava que “a CUT defende o
emprego e a reeleição de Lula à Presidência da República”.
“A
resposta faz uma defesa da CUT e uma ligação subliminar entre a
reeleição do presidente e a luta pelo emprego”, afirmou o professor de
história Ciro de Moura Ramos. “É uma questão ideológica, imperdoável”.
O vestibular foi feito pela Vunesp, que negou que a prova tivesse qualquer apoio à gestão Lula.
Em 2013, Lula recebeu o título de doutor honoriscausa da Universidade Federal do ABC.
7. “Estudos de História”
Outra obra que possui viés maniqueísta da história é o livro “Estudos da História”, da editora FTD. Como conta Fernando Schüler cientista político, professor e doutor em filosofia:
“No livro Estudos de História,
da Editora FTD, por exemplo, nossos alunos adolescentes aprenderão o
seguinte sobre o governo de Fernando Henrique: era neoliberal (apesar de
“tentar negar”) e seguiu a cartilha de Collor de Melo; os “resultados
dessas políticas foram desastrosos”. Na sua época, havia “denúncias de
escândalos, subornos, favorecimentos e corrupção” por todos os lados,
mas “pouca coisa se investigou”.
Nossos
alunos saberão que “as privatizações produziram desemprego”, e que o
país assistia, naqueles tempos, ao aumento da violência urbana e da
concentração de renda e à “diminuição dos investimentos”. E que, de
quebra, o MST pressionava pela reforma agrária, “sem sucesso”.
Na página
seguinte, vem a luz. Ilustrado com o decalco vermelho da campanha “Lula
Rede Brasil Popular”, o texto ensina que, em 2002, “pela primeira vez”
na história brasileira, alguém que “não era da elite” é eleito
presidente. E que, graças à “política social do governo Lula”, 20
milhões de pessoas saíram da miséria. Isso tudo faz a economia crescer
e, como resultado: “telefones celulares, eletrodomésticos sofisticados e
computadores passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de pessoas,
que antes estavam à margem desse perfil de consumo”.
Lendo
isto, me perguntei se João Santana, o marqueteiro do PT, por ora preso
em Curitiba, escreveria coisa melhor, caso decidisse publicar um livro
didático.”
Não resta
dúvida: ainda há muita coisa que os nossos marqueteiros políticos
precisam aprender com os autores dos livros didáticos tupiniquins.
Neles, um super-herói com o poder de discursar em palanques eleitorais
reina absoluto. Como se tudo não passasse de uma saga em quadrinhos.
O
impeachment da presidente Dilma Rousseff será visto como o ponto final
de um período iniciado com a chegada ao poder de Luiz Inácio Lula da
Silva, em 2003, em que a consciência crítica da Nação ficou anestesiada.
A partir de agora, será preciso entender como foi possível que tantos
tenham se deixado enganar por um político que jamais se preocupou senão
consigo mesmo, com sua imagem e com seu projeto de poder; por um
demagogo que explorou de forma inescrupulosa a imensa pobreza nacional
para se colocar moralmente acima das instituições republicanas; por um
líder cuja aversão à democracia implodiu seu próprio partido,
transformando-o em sinônimo de corrupção e de inépcia. De alguém, enfim,
cuja arrogância chegou a ponto de humilhar os brasileiros honestos,
elegendo o que ele mesmo chamava de “postes” – nulidades políticas e
administrativas que ele alçava aos mais altos cargos eletivos apenas
para demonstrar o tamanho, e a estupidez, de seu carisma.
Muito
antes de Dilma ser apeada da Presidência já estava claro o mal que o
lulopetismo causou ao País. Com exceção dos que ou perderam a capacidade
de pensar ou tinham alguma boquinha estatal, os cidadãos reservaram ao
PT e a Lula o mais profundo desprezo e indignação. Mas o fato é que a
maioria dos brasileiros passou uma década a acreditar nas lorotas que o
ex-metalúrgico contou para os eleitores daqui. Fomos acompanhados por
incautos no exterior.
Raros foram os que se deram conta de seus
planos para sequestrar a democracia e desmoralizar o debate político,
bem ao estilo do gangsterismo sindical que ele tão bem representa. Lula
construiu meticulosamente a fraude segundo a qual seu partido tinha
vindo à luz para moralizar os costumes políticos e liderar uma revolução
social contra a miséria no País.
Quando o ex-retirante
nordestino chegou ao poder, criou-se uma atmosfera de otimismo no País.
Lá estava um autêntico representante da classe trabalhadora, um político
capaz de falar e entender a linguagem popular e, portanto, de
interpretar as verdadeiras aspirações da gente simples. Lula alimentava a
fábula de que era a encarnação do próprio povo, e sua vontade seria a
vontade das massas. O mundo
estendeu um tapete vermelho para Lula. Era o homem que garantia ter
encontrado a fórmula mágica para acabar com a fome no Brasil e, por que
não?, no mundo: bastava, como ele mesmo dizia, ter “vontade política”.
Simples assim. Nem o fracasso de seu programa Fome Zero nem as óbvias
limitações do Bolsa Família arranharam o mito. Em cada viagem ao
exterior, o chefão petista foi recebido como grande líder do mundo
emergente, mesmo que seus grandiosos projetos fossem apenas expressão de
megalomania, mesmo que os sintomas da corrupção endêmica de seu governo
já estivessem suficientemente claros, mesmo diante da retórica
debochada que menosprezava qualquer manifestação de oposição. Embalados
pela onda de simpatia internacional, seus acólitos chegaram a lançar seu
nome para o Nobel da Paz e para a Secretaria-Geral da ONU.
Nunca
antes na história deste país um charlatão foi tão longe. Quando tinha
influência real e podia liderar a tão desejada mudança de paradigma na
política e na administração pública, preferiu os truques populistas.
Enquanto isso, seus comparsas tentavam reduzir o Congresso a um mero
puxadinho do gabinete presidencial, por meio da cooptação de
parlamentares, convidados a participar do assalto aos cofres de
estatais. A intenção era óbvia: deixar o caminho livre para a
perpetuação do PT no poder.
O processo de destruição da
democracia foi interrompido por um erro de Lula: julgando-se
umkingmaker, escolheu a desconhecida Dilma Rousseff para suceder-lhe na
Presidência e esquentar o lugar para sua volta triunfal quatro anos
depois. Pois Dilma não apenas contrariou seu criador, ao insistir em
concorrer à reeleição, como o enterrou de vez, ao provar-se a maior
incompetente que já passou pelo Palácio do Planalto.
Assim,
embora a história já tenha reservado a Dilma um lugar de destaque por
ser a responsável pela mais profunda crise econômica que este país já
enfrentou, será justo lembrar dela no futuro porque, com seu fracasso
retumbante, ajudou a desmascarar Lula e o PT. Eis seu grande legado,
pelo qual todo brasileiro de bem será eternamente grato.
O cérebro é
um órgão esquisito. Ele opera por contiguidade. Se eu o submeto a um
estímulo negativo e, ao mesmo tempo, apresento-o a uma ideia ou objeto
novos, ocorre uma espécie de contaminação e a nova representação fica
marcada como algo ruim, ainda que nem saibamos explicar por quê.
Dilma
Rousseff e os petistas buscam valer-se desse mecanismo ao descrever
reiteradamente o impeachment como golpe. Dilma teve a cautela de
distinguir o que ela chama de golpe parlamentar do golpe militar
clássico. No primeiro, ela mesma admitiu, não ocorre a violências física
e institucional associada ao segundo.
De fato, mesmo entre os
que consideram o impeachment golpe, poucos hão de julgar crível um
cenário em que o governo Temer revogue garantias fundamentais, censure a
imprensa ou suspenda eleições. Assim, pelo próprio raciocínio dilmista,
o golpe que estaria em curso não teria nenhuma das principais
características negativas que atribuímos aos golpes. Acho importante
destacar essa diferença, que tende a ser escamoteada pelos mecanismos de
contaminação semântica com que o cérebro opera, para que nenhum
neurônio desavisado pense que Temer está em vias de torturar pessoas.
Mas
Dilma e os petistas estão certos ao chamar o impeachment de golpe? Eu
diria que eles têm todo o direito de considerar o processo forçado, até o
limite da farsa, mas me parece formalmente errado tachá-lo de golpe. É
que, para fazê-lo, é preciso formar um juízo de valor sobre o mérito das
acusações —o que é perfeitamente legítimo— e, simultaneamente, tirar do
juiz natural a possibilidade de emitir um veredicto diferente deste –o
que já não funciona tão bem.
O que caracteriza a democracia é
justamente a utilização de processos formais para a solução de
conflitos, e a regra do impeachment estabeleceu, já desde 1891, que cabe
exclusivamente ao Senado julgar o presidente nesse tipo e acusação.
Percival Puggina
A nação, aos poucos, foi identificando a distância que se estabeleceu
entre o discurso que levou o PT ao poder e a posterior prática na
gestão dos negócios públicos. Alguns, entre os quais me incluo,
predisseram, bem antes, os riscos aos quais se expunha uma sociedade que
confiasse poderes de governo e de Estado a uma organização que fazia
uso das práticas que caracterizavam a ação petista. Refiro-me,
especificamente, aos seguintes meios:
a) organização e manipulação de movimentos sociais para atos que
atentavam à ordem pública, à lei, ao direito de propriedade e às
determinações judiciais;
b) desrespeito pela honra alheia e o
assassinato das reputações de quaisquer adversários que se colocassem no
caminho traçado pelo partido;
c) articulação partidária
internacional com governos totalitários, com organizações terroristas e
com movimentos revolucionários de esquerda, dos quais o Foro de São
Paulo é apenas um exemplo regional em meio a inúmeros outros mundo
afora;
d) transformação de instituições do Estado, de setores
importantes da administração pública, bem como de conselhos
profissionais, órgãos de cultura, instituições de ensino e organismos
religiosos como a CNBB, em aparelhos do partido.
Os milhões de
brasileiros que saíram às ruas, bem como os autores das cinco dezenas de
requerimentos de impeachment formulados por juristas munidos de
exaustiva coletânea de fundamentos, respeitaram a legitimidade de três
sucessivos mandatos presidenciais do PT. Três mandatos cuja lisura,
aliás, com as revelações da força-tarefa da Lava Jato, ingressam na mais
nebulosa suspeita. Bastaria isso para descredenciar a veemência da
tropa de choque do governo extinto. Do início ao fim desse exaustivo
processo conviveram, braços dados, a obra e o conjunto da obra de uma
específica mandatária. Na gênese deste impeachment, conviveram o crime
de responsabilidade e uma vultosa mistura de ingredientes. Eles vão da
incompetência, passam pelo conhecimento de que uma organização criminosa
causou um dos maiores casos de corrupção da história e deságuam na mais
tormentosa crise econômica e social da vida republicana.
Como
reage o petismo diante desse quadro? Com arrogância, virulência e
irresponsabilidade. Em momento algum, desde março do ano passado, o
partido, seus agentes e a própria presidente demonstraram qualquer
preocupação com a situação nacional. Nada! Brandiam os números dos
tempos de bonança, da China compradora e do petróleo em alta, como se
fossem méritos, e méritos permanentes, do governo. Nunca dedicaram uma
palavra sequer aos 14 milhões de desempregados de agora, nem às famílias
cuja renda despenca, nem às vítimas da criminalidade que se abastece do
ódio de classes, raça e "gênero" semeado, nem às empresas que fecham as
portas. Só os mobiliza a construção de discursos que possam pavimentar
uma viela de retorno ao poder.
Não lembro de outra circunstância
em nossa história na qual os ditames constitucionais tenham sido tão
minuciosa e longamente observados. Para o petismo, porém, tratava-se de
uma nova queda de Jango, de um novo suicídio de Vargas. Impossível não
ver em tudo isso o mesmo petismo de sempre, dedicado à dissimulação da
realidade, às mentiras, ao espargimento de ódios e à construção de
versões como genéricos da verdade incômoda. Portanto, onde alguns veem
combatividade e dedicação à causa eu identifico contumácia, vícios
empedernidos, incorrigibilidade. Já não queimam pneus, os artífices do
caos?
A baderna
travestida de protesto contra o impeachment – promovida em São Paulo e outras capitais – resume bem aquilo a que se
reduziu o que seus organizadores chamam pomposamente de apoio popular à
presidente afastada Dilma Rousseff em sua tentativa desesperada de
evitar a perda do cargo. Foi muito barulho, muita violência, um enorme
transtorno para milhares de pessoas, mas tudo isso produzido por
pequenos grupos ligados aos chamados movimentos sociais, ao PT e ao
PSOL. O povo mesmo não deu o ar de sua graça.
A capital paulista
foi a principal vítima da violência. Na segunda-feira – entre as 17
horas, quando os baderneiros partiram da Praça do Ciclista em direção ao
Masp, até as 20h30, quando a via foi desbloqueada –, a Avenida Paulista
foi dominada naquele trecho pelo vandalismo. Os poucos mas furiosos
baderneiros – em número que ficou muito longe dos fantasiosos 3 mil por
eles divulgado – semearam o pânico na Paulista, justamente no horário em
que é maior ali a concentração de pessoas, saindo dos escritórios em
busca de condução para voltar para suas casas.
Os baderneiros
montaram barricadas e colocaram fogo em sacos de lixo para bloquear a
Paulista. A Polícia Militar (PM) só agiu com rigor a partir das 19h30,
quando a Tropa de Choque decidiu detê-los na altura do Masp, para
impedir que tomassem a Avenida Brigadeiro Luís Antônio em direção ao
Parque do Ibirapuera. Para dispersá-los, usou bombas de gás
lacrimogêneo, balas de borracha e jatos d’água. A maioria pegou então a
Rua da Consolação causando distúrbios até a Praça Roosevelt.
Na
terça-feira, a baderna continuou com igual violência, no começo da
manhã, por volta das 6h30, em pontos também fundamentais do sistema
viário – Marginais do Tietê e do Pinheiros, Rodovias Raposo Tavares e
Régis Bittencourt, Ponte Eusébio Matoso e Radial Leste –, com o objetivo
de tumultuar o trânsito em vastas áreas da cidade. Essas vias foram
bloqueadas por pneus incendiados.
Roteiro semelhante foi seguido
em Brasília, Rio, Porto Alegre e Fortaleza. E sempre com a mesma tática:
poucos manifestantes, mas violentos e bem organizados, capazes por isso
de assustar a população e dar a impressão de que uma multidão indignada
tomou as ruas. A tropa de choque das Frentes Brasil Popular e Povo Sem
Medo, integrada por militantes dos chamados “movimentos sociais”, como o
Movimento dos Sem-Terra (MST) e Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto
(MTST), da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do PT e do PSOL, tem
larga experiência nisso.
O MTST, por
exemplo – que se preocupa muito mais com delirantes projetos
revolucionários do que com os sem-teto, estes apenas massa de manobra –,
se tornou um reconhecido especialista em bloquear importantes vias,
para tumultuar a vida da cidade, semear o pânico na população com atos
de vandalismo, ou cercar prédios públicos, como fez com a Câmara
Municipal para constranger os vereadores a aceitar suas demandas. Isso
durou e vai durar enquanto as autoridades, amedrontadas por seus
arreganhos, impedirem que as forças de segurança, sempre dentro da lei,
mas com o máximo rigor que ela permite, imponham a ordem ao primeiro
sinal de baderna.
Esses movimentos nunca tiveram a força que
insinuam e suas violentas manifestações, como as de agora contra o
impeachment, estão a léguas de distância de representar, como proclamam,
o sentimento da maioria da população. O que lhes sobra em atrevimento,
audácia e irresponsabilidade falta em apoio popular.
Para usar
uma antiga expressão dos comunistas chineses, não passam de um “tigre de
papel”. Isso não os impedirá de redobrar sua violência. Ao contrário,
com o fim da era do lulopetismo, que alimentou com dinheiro público os
“movimentos sociais”, o caminho da baderna continuará a seduzi-los, mais
ainda do que antes. Já é mais do que tempo de detê-los.
No momento
em que o país chega finalmente a uma fase de definição política, com a
conclusão do processo de impeachment, o desemprego consolida-se como
questão central, desafiando o governo federal a encontrar soluções
efetivas e imediatas. Dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram que, no trimestre encerrado
em julho, o desemprego já se constituía em um drama para 11,8 milhões
de brasileiros, um recorde da série histórica. O enfrentamento desse
drama por um número crescente de famílias torna-se cada vez mais
inadiável, exigindo também mais pressa nas mudanças em estudo na área
trabalhista.
Quando a atividade econômica recua em níveis como os
registrados no país, os prejuízos vão muito além dos financeiros,
revelando-se particularmente cruéis na área social. No caso do mercado
de trabalho, além de a taxa de desocupação ter se elevado a um
percentual recorde de 11,6%, caiu também o rendimento médio dos
assalariados.
Em consequência, cria-se um círculo vicioso cada
vez mais difícil de ser rompido. A própria Previdência é afetada, pela
redução das contribuições, e a possibilidade de reativação da atividade
econômica por meio do consumo torna-se remota.
O país precisa demonstrar-se capaz de enfrentar uma chaga como o desemprego, que aflige um número cada vez maior de brasileiros.
DEMÉTRIO MAGNOLI FOLHA DE SP Depois da cisão, a
conciliação. Concluída a votação do impeachment, o PT tirou seus cães
furiosos da cena e, no lugar deles, escalou vozes moderadas. Kátia
Abreu, uma liberal de estimação, apelou ao sentimento de seus pares; um
sereno Jorge Viana invocou a necessidade de preservar "o dia de amanhã
aqui no Senado". No fim, graças à notável criatividade jurídica de
Ricardo Lewandowski, que propiciou a mudança do artigo 52 da
Constituição pela vontade minoritária de um terço dos senadores,
obtiveram a manutenção dos direitos políticos de Dilma Rousseff. Ali,
plantou-se a mudinha de uma espécie singular de "união nacional".
"A
política da conciliação é um antídoto contra o levante, um relaxamento
da tensão entre a vida como ela é e a vida como deve ser", escreveu
James David Barber. A "vida como deve ser": o retorno à velha ordem,
abalada nessa quadra de crise pelo impeachment e pelos processos contra
políticos e empresários. A política da conciliação, explicou Barber, "é
um romance de restauração": no caso do Brasil, a recuperação do
privilégio da elite política de submeter a coisa pública às redes de
interesses partidários e privados. A absolvição parcial de Dilma
descortina um caminho promissor: perdão e redenção.
"Não
poderíamos fazer um acordo com os nossos algozes", disfarçou Humberto
Costa, como se pudesse permanecer em segredo o pacto costurado na
residência de Renan Calheiros e avalizado por Lewandowski. Do ponto de
vista do PT, cisão e conciliação funcionam como polos complementares de
uma mesma estratégia. A página do golpe não foi virada, mas passa a
conviver com um novo texto. Quem liga para a coerência? A denúncia do
"golpe parlamentar", cantada por Dilma, ecoada por "intelectuais
orgânicos" e artistas, continuará a desempenhar as funções subsidiárias
de reunir a base militante e oferecer um discurso eleitoral. Mas será
devidamente subordinada ao imperativo da conciliação, que promete
reerguer uma ponte bombardeada. Lula precisa de perdão e de redenção.
O
senador Álvaro Dias enxergou na manobra um "jeitinho brasileiro"
destinado a "proteger a poderosa Dilma". Mas Dilma funciona no episódio
como mero precedente: a chance de fraudar as leis à sombra do STF. Se um
"jeitinho" vale em benefício dela, por que expedientes similares não
valeriam para Eduardo Cunha e muitos outros, presos na teia das
investigações judiciais? Daqui em diante, ao menos em tese, a perda do
mandato seria apenas um ponto de partida rumo à redenção eleitoral. Os
senadores da maioria governista que votaram com o PT não protegiam
Dilma, mas compravam um seguro contra acidentes. O bravo Calheiros, em
particular, um personagem arqueado sob o peso de tantos processos,
operou em defesa própria, enviando uma mensagem ao governo Temer. Ele
está dizendo que a desordem foi longe demais: é tempo de construir uma
ampla coalizão política contra a Lava Jato.
No Brasil oficial,
esse mundo assolado pelo medo, angustiado pelas incertezas, avança a
"pacificação" invocada por Temer em seu discurso de posse. Se a
impunidade absoluta está morta, que tal inventar o perdão? A
reunificação, ainda uma planta tenra, já parece capaz de dar frutos. O
PSDB e o DEM rejeitaram o santo pacto em plenário para, na sequência,
recuarem da efêmera intenção de contestá-lo no STF. "A questão essencial
está resolvida", decretou Aécio Neves, como quem desenha um ponto final
–apenas para, sob pressão da opinião pública, recuar do recuo no dia
seguinte, apresentando o recurso judicial.
O impeachment de Dilma
e a patética posse de Temer assinalam uma crise maior. Estilhaça-se a
"Nova República" proclamada no discurso de posse de Tancredo Neves, lido
por José Sarney há 31 anos. O ensaio de conciliação é uma tentativa de
colar seus cacos, salvando "o dia de amanhã" de uma elite política
acossada.
Como profissional, trabalhei como apresentador, repórter, redator, produtor, diretor de jornalismo em várias emissoras de rádio - Rádio Difusora de Pirassununga, Rádio Cultura de Santos e São Vicente, Rádio Capital de Brasília, Rádio Alvorada de Brasília, Sistema Globo de Rádio/DF, Rádio Manchete FM/DF, Rádio Planalto de Brasília e 105 FM DF e Rádio Cultura de Brasília. Fui Professor de Radiojornalismo no CEUB. Funcionário concursado da Secretaria de Saúde do Distrito Federal requisitado pelo TCDF até me aposentar em fevereiro ultimo. Também trabalhei, nos anos 70 no jornal O Movimento de Pirassununga.