Jornalista Andrade Junior

FLOR “A MAIS BONITA”

NOS JARDINS DA CIDADE.

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CATEDRAL METROPOLITANA DE BRASILIA

CATEDRAL METROPOLITANA NAS CORES VERDE E AMARELO.

NA HORA DO ALMOÇO VALE TUDO

FOTO QUE CAPTUREI DO SABIÁ QUASE PEGANDO UMA ABELHA.

PALÁCIO DO ITAMARATY

FOTO NOTURNA FEITA COM AUXILIO DE UM FILTRO ESTRELA PARA O EFEITO.

POR DO SOL JUNTO AO LAGO SUL

É SEMPRE UM SHOW O POR DO SOL ÀS MARGENS DO LAGO SUL EM BRASÍLIA.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

À beira do abismo - LUIS FERNANDO VERISSIMO


O GLOBO -

Pensei: só falta o freio falhar para isto se transformar num filme de suspense. Um filme que eu decididamente não queria ver



Até hoje penso naquela viagem como uma experiência surreal. Talvez, com o tempo, eu tenha exagerado seus perigos e seus mistérios, mas na minha memória ela ficou como uma passagem estreita entre tragédia e encanto, que tanto poderia terminar em reminiscências indolores como esta, muitos anos depois, quanto no fundo de um abismo.

Tínhamos alugado um carro em Los Angeles para irmos a San Francisco pela estrada da costa. Depois de passar pela praia de Malibu, rumo ao Norte, a estrada começa a subir e em pouco tempo nos vimos numa via de apenas duas pistas, contornando as montanhas, com uma magnifica vista do pôr do sol no Pacifico à nossa esquerda. Até aí, tudo ótimo. Curvas sinuosas atrás de curvas sinuosas, mas nada que um motorista experiente, de vida limpa e confiante no seu braço, não pudesse enfrentar. Mas com a noite veio a cerração, e dentro da cerração a chuva. E eu passei a não ver nada, a só enxergar a curva sinuosa seguinte quando já estava em cima dela, obrigado a frear, com o risco de levar uma bangornada (termo de origem obscura, não encontrado em dicionários, o mesmo que chapuletada, só mais forte) de algum carro que viesse de trás, às cegas como eu, e ser atirado para a pista da esquerda, onde um caminhão gigantesco nos pegaria e nos lançaria no Pacifico, em chamas. Pensei: só falta o freio falhar para isto se transformar num filme de suspense. Um filme que eu decididamente não queria ver.

Vislumbrei, no meio da bruma letal, o anúncio de um motel. Salvação! Entramos na recepção do motel — que não era a recepção de um motel, ou pelo menos de um motel convencional. Um enorme salão atapetado e mal iluminado. Um clima fantasmagórico. Parecia que tínhamos interrompido um coquetel. Pessoas jovens e elegantes, segurando drinques coloridos, nos examinaram com divertida curiosidade. O que era aquilo? Cheguei a pensar que o acidente tinha acontecido, que o caminhão tinha mesmo nos jogado no abismo, e que estávamos no céu, ou no mínimo numa antessala. Uma moça nos sorria de trás de uma mesa que, deduzi, era onde deveríamos nos registrar. Recuamos, cautelosamente, e saímos pela porta com alguma pressa. O risco da estrada parecia menor comparado ao que nos esperava naquele saguão lúgubre — que até hoje eu não imagino o que seria.

A poucos quilômetros dali encontramos outro motel, simples e nada ameaçador. Dormimos bem e na manhã seguinte retomamos a estrada, agora sem cerração ou chuva. O Pacífico continuava no lugar, à nossa frente estavam Big Sur, Carmel, Monterrey e a bela San Francisco. A volta de carro para Los Angeles foi pelo interior, longe dos abismos, por uma estrada reconfortadoramente reta.

Segredos de viagens de Dilma - RICARDO NOBLAT


O GLOBO -
No sábado 31 de março de 2012, depois de uma visita à Índia, Dilma Rousseff embarcou de volta sem a imprensa saber que o avião presidencial faria uma escala para reabastecimento no Sul da Itália. Não tem autonomia para voar direto de tão longe.
Durante cinco horas, por decisão de Dilma, somente as cúpulas do governo, das Forças Armadas e dos órgãos de segurança sabiam onde ela estava e o que fazia.

UM MÊS ANTES  o chefe do cerimonial da Presidência da República telefonara para José Viegas, embaixador do Brasil em Roma, pedindo uma sugestão: de volta da Índia, onde o avião deveria pousar? Viegas respondeu na hora: em Palermo, capital da ilha da Sicília, parte da Itália. Ali conhecera um dos bens mais preciosos da humanidade - a Capela Palatina, recoberta de mosaicos do século XII.

VIEGAS FOI  avisado uma semana antes da chegada de Dilma à Índia de que deveria recepcioná-la em Palermo. Os que cuidam da segurança da presidente haviam inspecionado os locais por onde ela passaria - o centro da cidade, a capela e o restaurante reservado para o jantar da comitiva de 18 pessoas, o quatro estrelas Tratoria Piccolo Napoli (telefone: +39 091 320431). Somente o governo da ilha sabia da visita.

"NÃO QUERO  seguranças ao meu lado", ordenara Dilma. Que desembarcou em Palermo reclamando da companhia do fotógrafo da Presidência. A seu lado, Helena Chagas, então ministra da Comunicação Social, nada disse. Ninguém ousaria. Viegas consultou Dilma sobre o jantar. A Tratoria fica em um bairro popular de Palermo. De varais com roupas estendidos entre as casas. O bairro lembra o do Brás, no Centro de São Paulo.

HAVIA OUTRA  opção - um cinco estrelas à beiramar, posto de prontidão pelos agentes de segurança brasileiros. "Vamos para o Brás", respondeu Dilma.

O jantar custou cerca de mil dólares. Dilma gosta de pizza. Em um domingo, há mais de ano, faltou pizza no Palácio da Alvorada. E ela queria uma. Seus assessores entraram em pânico. Foi aberta uma pizzaria para servi-la.

O QUE ELA JANTOU  em Palermo é "segredo de Estado".

Fora os presidentes-generais da ditadura militar de 1964, presidente algum foi tão autoritário quanto Dilma. Nenhum deles - nem mesmo Fernando Collor de Mello, o primeiro a ser eleito pelo voto direto, em 1989. Ministros deixaram o governo Dilma por não suportá-la (atenção: sem desmentidos, prefeito Fernando Haddad). Outros recusaram convites.

O COZINHEIRO  de Palermo foi aplaudido de pé. O encarregado dos bichos que vivem no Palácio da Alvorada, certa vez, foi procurado por Dilma. Jamais esquecerá o que ela lhe disse porque um avestruz bicara um cão. Palermo da Capela Palatina foi a primeira viagem de Dilma mantida em segredo. Salvo em ocasiões especiais, presidentes de países democráticos como o nosso nunca procederam assim.

NA SEMANA PASSADA,  de volta da Suíça, sabia-se que Dilma iria a Cuba. O jornal "O Estado de S. Paulo" descobriu o que fora omitido do público por ordem dela: o avião presidencial faria uma escala em Lisboa. A informação parece irrelevante? De novo: em democracias, não é. O distinto público tem o direito de saber onde seu presidente está. Omissão equivale a uma mentira.

O QUE VOCÊ pensa a respeito? Mensagens para a seção de cartas do jornal. Ou para o site do GLOBO.

A atleta que disse ‘não’ ao sistema - DORRIT HARAZIM


O GLOBO -

A tenista chinesa Li Na sempre foi espirituosa, ao contrário de seus camaradas-atletas menos afeitos a entrevistas coletivas. Mas, depois de vencer o Grand Slam da Austrália no último dia 25 em Melbourne, ela se superou.

“Agradeço a meu agente Max, que me tornou rica”, disse a esportista-ícone do país de regime comunista. Li acabara de embolsar US$ 2,3 milhões pela vitória. E o prêmio vai engordar o cofrinho de US$ 40 milhões que a terceira atleta mais bem paga do mundo vem alimentando com contratos desde 2010.

Agradeceu em seguida ao marido também tenista, que namora desde a adolescência. “Meu saco de pancada, meu faz-tudo. Muito obrigada. Você é um cara muito bacana. Teve muita sorte de me encontrar.”

Agradeceu por fim à legião de fãs, que a idolatram como Grande Irmã Na. Só no Weibo, o Twitter local, Li tem 21 milhões de seguidores. Três anos atrás, quando ela disputou a primeira conquista de Grand Slam, 116 milhões de compatriotas acompanharam o jogo pela televisão — audiência maior do que a do Super Bowl do ano passado.

Mais uma vez, a ausência de qualquer referência à pátria e ao sistema chinês de incentivo ao esporte foi gritante. Já em 2011, ao se tornar a primeira e até hoje única tenista da Ásia a vencer um torneio Grand Slam, Li fizera questão de não se declarar devedora da máquina estatal de produzir atletas.

Para o regime de Beijing o caso Li Na representa um teste delicado numa seara pouco testada da evolução política do país. Há vezes em que a mídia estatal aproveita as frequentes oscilações de desempenho da tenista na quadra para intensificar seus ataques contra o que chama de individualismo nocivo da atleta. Não tem dado certo.

Após o colapso da tenista no Aberto da França no ano passado, por exemplo, um repórter da agência Xinhua instou-a a explicar “aos fãs na pátria mãe” o motivo de resultado tão decepcionante. A resposta veio cortante: “Perdi uma partida, foi isso. Devo ficar de joelhos e me prostrar?”

Em 64 anos de autoridade comunista, a China jamais ouvira um atleta responder de forma tão insolente a um meio de comunicação oficial.

Desta vez, a Xinhua preferiu se fazer de surda e bateu tambor sozinha. Em editorial comemorativo à vitória da coqueluche nacional na Austrália a agência publicou um editorial intitulado “Por que Li teve êxito?”. A resposta: “O país cuidou de Li e a cultivou. O Estado é seu patrocinador.”

Na verdade, a interessante tenista de 31 anos é uma espécie de autoalforriada do sistema que vigora no país.

Fora empurrada a se especializar em badminton aos 5 anos de idade, para compensar a carreira de atleta do pai, abortada pela Revolução Cultural. Mas a precisão dos exames biométricos da escola de esportes local detectou a inadequação dos punhos e ombros da menina para o badminton. Ficou decidido que ela deveria se especializar em tênis, modalidade que poucos chineses praticavam ou sequer conheciam à época.

A partir daí sua rotina seguiu a engrenagem que há gerações testa, treina, forma e submete levas de jovens a duros limites físicos e mentais. Dia sim, outro também. Entra ano, sai ano. Li tinha 11 anos quando se rebelou pela primeira vez. Surtada de exaustão, recusara-se a prosseguir com um treino. Como castigo permaneceu de pé, imóvel, durante três dias de treinamento, ao cabo dos quais pediu desculpas. Só então foi autorizada a se mover.

Prevaleceu o talento. Após conquistar seu primeiro título nacional juvenil, Li passou dez meses imersa num centro de treinamento do Texas a convite da Nike. Ao voltar para casa, parecia destinada a ser a atleta-modelo da máquina chinesa de produzir campeões: aos 20 anos de idade, ela se tornara a nº 1 do país e seu nome já se aproximava da lista das 100 melhores tenistas do mundo.

Segundo um exaustivo perfil da tenista publicado no “New York Times”em agosto passado, foi então que Li Na simplesmente desapareceu.

“Sem avisar nenhum dos técnicos, Li escapuliu do centro de treinamento”, apurou o jornalista Brook Larmer. Para não levantar suspeitas, ela levou consigo apenas um pequeno nécessaire. E deixou na mesa do dormitório uma carta endereçada à diretoria anunciando sua aposentadoria precoce... Poucas horas depois, estava em Wuhan, sua cidade natal, com Jiang (o tenista Jiang Shan, seu namorado desde a adolescência e hoje marido, com quem era obrigada a se encontrar às escondidas). “Recomeçaram a vida como estudantes universitários.”

Um belo dia de 2006, passado mais de um ano desde a estrepitosa fuga, Li recebeu a visita-surpresa da nova responsável pelo programa nacional de tênis. Com a China mobilizada até o pescoço para brilhar nos Jogos Olímpicos de Beijing, a ex-tenista foi convidada a voltar com promessas de um futuro menos sufocante.

Li aceitou, só que o regime mudou menos do que o prometido.

Assim, logo que o país parou de festejar a supremacia de seu sistema esportivo (conquistou 51 medalhas de ouro em 2008 contra 36 dos Estados Unidos), Li Na anunciou que queria a alforria. Já conseguira chegar ao seleto grupo das 20 melhores tenistas do mundo e precisava de maior liberdade.

Para não perder a maior e mais celebrada atleta do país, o regime criou um programa biônico chamado danfei, ou “voo solo”, do qual já fazem parte também duas outras tenistas. Por esse sistema, Li treina como e com quem quer; faz a própria agenda de competições e repassa ao Estado apenas 15% do que ganha, em invés dos 65% que o regime garfa dos demais atletas. Tem por dever cumprir apenas um calendário básico de torneios nacionais e regionais.

Locomotiva de um esporte praticamente inexistente na China uma geração atrás, o fenômeno Li Na já tornou comercialmente viável a programação de oito torneios internacionais em 2014 só na cidade de Wuhan.

Contudo, como polo de um debate mais espinhoso sobre o papel da liberdade e do patriotismo no esporte, a tenista não quer abrir mão do que acredita ser sua maior conquista: “Só consigo representar a mim mesma.”

‘O Quadragésimo Ministério’, nota publicada na coluna de Carlos Brickmann



Publicado na coluna de Carlos Brickmann
Millôr Fernandes criou, em O Cruzeiro, o Ministério de Perguntas Cretinas. Havia perguntas como “xeque-mate pode ser falsificado?” e a resposta: “Com a vantagem de que o sujeito não acaba no xadrez. Já está”. Pois retomemos o Ministério, com perguntas (sem resposta) da jornalista Regina Helena Paiva Ramos:
─ Chanceler brasileiro pode mentir? O nosso disse que a parada em Lisboa foi decidida no sábado e Portugal já estava informado desde quinta-feira.
2 ─ Dilma levou 45 pessoas. O presidente do Uruguai viaja com quantas?

─ De onde saem as ordens para incendiar ônibus em São Paulo? Ainda não deu para a Polícia mais bem equipada do país saber o que ocorre, para agir?
─ As mortes nos presídios do Maranhão continuam. Ninguém vai pedir o impeachment da governadora, que não tem controle da situação ─ ou, pior, tem?
─ Quando a Sabesp, estatal paulista de saneamento, vai parar de botar anúncios na TV de que saneou o Litoral, e vai usar o dinheiro saneando o Litoral?
─ Quando o prefeito paulistano, Fernando Haddad, vai retirar as faixas avisando que certos locais são sujeitos a enchentes, e tocar obras contra enchentes?
─ Por que há dinheiro para construir um porto em Cuba e não há para dragar o porto de Santos? A profundidade de Santos é de 13 metros e deveria ser de 17, mas falta verba. O porto cubano tem verba nossa e nasce com 18 metros.
E as respostas? Não precisamos de um Ministério das Respostas Cretinas. As respostas a gente vive recebendo sem que seja criado o 41º Ministério.
Pergunta e resposta
Por que a presidente Dilma quis fazer uma escala em Portugal? Porque sim: isso não tem a menor importância. Mas a consequência é importante: por causa das fotos, em que a presidente não aparece em seus melhores ângulos, a ministra da Comunicação, Helena Chagas, sempre fiel à presidente, perdeu o posto.
Sem modos 1
O ministro Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, criticou as prisões brasileiras e responsabilizou os políticos que não se preocupam com o tema. A crítica foi feita em palestra no Kings College, Londres. Violou a máxima impecável de Mário Henrique Simonsen: não se fala mal do Brasil em inglês. Tem críticas ao sistema penitenciário? Fale aqui, dentro do país.
Se bem que o desabafo de Barbosa não repercutiu muito. Seu próprio anfitrião, Richard Trainor, reitor do Kings College, dormiu por boa parte do discurso.
Sem modos 2
Vamos combinar que o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, nunca se notabilizou pelo refinamento (os alemães, que já o convidaram para visitar o país, se surpreenderam com sua, digamos, descontração). Nesta semana, festejando a vitória dos caças Grippen na concorrência da FAB, que levou os suecos a instalar uma fábrica em São Bernardo, com investimento de US$ 150 milhões e criação de mil empregos diretos, vangloriou-se, diante dos microfones: “Eu sou bom pra caralho!”
E pensar que Marinho, antes de ser prefeito, já tinha sido ministro.
Governo pra que? 
O Governo paulista acaba de ser surpreendido por um acontecimento extraordinário: o início das aulas (coisa inusitada, que só acontece uma vez por ano). Os alunos da rede estadual não receberam cadernos. E a explicação é fantástica: os cadernos, informam Suas Excelências, são apenas extensão do material escolar.
Claro: se o aluno pode escrever na mão e só lavá-la depois de decorar tudinho, para que caderno? E, melhor ainda, já pensou na economia de água e sabão?
Pra que Governo? 
A surpresa do Governo paulista com o inusitado início das aulas no início do ano trouxe outra consequência: não havia professores suficientes. Segundo o secretário da Educação, Herman Voorwald, faltou contratar a tempo os professores temporários. E por que isso aconteceu?
Porque, para voltar a trabalhar no dia 27 de janeiro, conforme previsto há mais de um ano, deveriam ter entrado em férias até 18 de dezembro. Esqueceram disso. E, lembremos, exatamente para não esquecer essas coisas, há uma Secretaria de Estado da Educação, há Diretorias de Ensino, há diretores nas escolas. Há alunos, também ─ mas quem se preocupa com alunos?
Pelo jeito, em São Paulo, aluno é apenas um detalhe. E incômodo.
Vem, dinheirinho! 
A vaquinha promovida pelo mensaleiro condenado Delúbio Soares para pagar a multa que faz parte de sua pena rendeu mais que o dobro do necessário: a multa é de R$ 466.888 reais e a arrecadação chegou a R$ 1,013 milhão.
Delúbio, que antes do Mensalão cuidava as finanças do PT, continua ótimo para arrecadar.
Os doadores
Mas seria interessante verificar quem foram os doadores, se pagaram os impostos referentes à doação, se seus bens são suficientes para sacrificar-se pelo companheiro necessitado. Delúbio é muito querido no PT: logo depois do Mensalão, foi expulso, mas acabou voltando. Mesmo em desgraça, jamais deixou de andar em bons carros, modernos, amplos, possantes.
E, sabe como é, blindados.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Demagogia inclusiva - ASTOR WARTCHOW


ZERO HORA -

Essa onda do politicamente correto criou algumas preciosidades patéticas



“Boa noite a todos e todas. Quero saudar a presença de todos e todas”. Com certeza, você já ouviu, ultimamente, essas expressões em solenidades político-partidário-governamentais ou acadêmico-universitárias. Se não ouviu, com certeza, ouvirá!
Trata-se de um modismo denominado “linguagem inclusiva”. Sua utilização massiva teria se originado de reivindicação de movimento feminino. No entender das militantes, a gramática nacional torna as mulheres “invisíveis”. Entendem que a denominação genérica “todos” consolida e mantém uma supremacia masculina do cotidiano político, social e familiar.
Essa expressão é apenas mais uma apropriação linguística entre centenas que surfam na onda do politicamente correto, uma praga que multiplicou seus fiéis. E que acreditam que a linguagem pode mudar a realidade.
Ora, ora, no máximo, conseguem influenciar a linguagem, mas não mudam a realidade. Consulte qualquer professor de português. São expressões redundantes. O português é uma língua que não tem o gênero neutro. De modo que o gênero masculino (todos!) ocupa esse papel.
E isso não tem nada a ver com machismo e exclusão social. Se pretendem de fato valorizar as mulheres devem encontrar outras soluções. Na vida real, não no campo da retórica. Aliás, é até um desrespeito tratar as pessoas assim, subestimando sua inteligência e sua percepção da realidade. E, sem dúvida, um desrespeito à gramática.
Essa onda do politicamente correto criou algumas preciosidades patéticas. Um exemplo é o tratamento verbal dispensado aos idosos. Velhice passou a ser chamada de “terceira idade”. Ou como dizem alguns mais exagerados e abusados: “melhor idade”.
Até parece que nunca conversaram com idosos sobre os inúmeros problemas e transtornos que decorrem da chegada ou do avanço da idade. São eufemismos ofensivos à realidade que as pessoas enfrentam na vida cotidiana.
Não vai demorar muito e veremos campanhas para
“abolir” expressões e/ou “domar” palavras tidas como perniciosas (sic) ao convívio social. Como se a língua fosse um “animal domesticável”.
Uma coisa são campanhas de esclarecimento e conscientização educacional e política, ou políticas públicas antidiscriminatórias e de transformação social. Outra coisa é manipular palavras.
“Todos e todas” é apenas mais uma das dezenas (ou serão centenas?) de bobagens com que o populismo e a demagogia nos brindam de tempos em tempos. E continuarão brindando.
Ou já esqueceram aquela ação de um procurador do Ministério Público Federal que tentou tirar de circulação o dicionário Houaiss, ou, a edição de lei que manda nominar bacharel mulher de bacharela e, ou, a recente perseguição judicial às obras de Monteiro Lobato?



Contudo, como polo de um debate mais espinhoso sobre o papel da liberdade e do patriotismo no esporte, a tenista não quer abrir mão do que acredita ser sua maior conquista: “Só consigo representar a mim mesma.”

Sexo sem informação - JAIRO BOUER


O Estado de S.Paulo -

Uma nova pesquisa sobre sexualidade, feita pela Universidade Yale, com mil mulheres entre 18 e 40 anos nos Estados Unidos, e divulgada na semana passada pela agência de notícias AFP, mostra que muitas delas desconhecem informações básicas sobre sua saúde reprodutiva.

O estudo, publicado na revista Fertility and Sterility, do mês passado, aponta que, embora 40% das mulheres tenham preocupações sobre sua capacidade de conceber, 30% delas desconhecem os efeitos que doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), obesidade, ciclos irregulares e idade têm sobre sua possibilidade de engravidar. Metade das mulheres não conversa com seu médico sobre o assunto e 30% delas não fazem prevenção anual (Papanicolau). As mais jovens, de 18 a 24 anos, são as que têm menos informação sobre fertilidade e ovulação.

Outro estudo de grandes proporções (a terceira pesquisa nacional de atitudes sexuais e estilos de vida), realizado no Reino Unido a cada 10 anos e divulgado no fim do ano passado, entrevistou 15 mil adultos de 16 a 74 anos e trouxe conclusões importantes sobre a saúde sexual da população.

Os britânicos começam a fazer sexo mais cedo e mantêm vida sexual mais longa. A média de parceiras sexuais na vida aumentou para os homens de 8,6 (em 1990-1991) para 11,7 em (2010-2012). No mesmo período, as mulheres saltaram de 3,7 para 7,7 parceiros. Elas (e não eles) foram as que sofreram mudanças mais importantes em seu comportamento sexual.

Mesmo assim, só uma em cada quatro mulheres (24%) que disseram que problemas de saúde afetam sua vida sexual buscaram ajuda médica no ano anterior à pesquisa. Entre os homens, esse índice foi ainda menor (18%). Embora 40% de homens e mulheres tenham enfrentado algum problema recente em sua vida sexual, apenas 10% se preocupam com sua saúde sexual. Falta de desejo apareceu como a dificuldade sexual mais frequente na população britânica, afetando 15% dos homens e 30% das mulheres.

Entre as DSTs, a clamídia e o HPV são os agentes mais frequentes na população geral. A introdução da vacina contra HPV já parece diminuir a frequência do vírus na população feminina jovem - bom lembrar que, por aqui, a vacinação no SUS começa para as meninas de 11 a 13 anos em março.

Outra nova pesquisa de comportamento sexual, realizada por um fabricante de preservativos, divulgada há duas semanas, consultou 29 mil adultos, de 18 a 65 anos, em 37 países. No Brasil, foram mil entrevistados. Por aqui, 51% das pessoas disseram estar insatisfeitas com sua vida sexual. Para eles, problemas de ereção são a grande preocupação. Para elas, alcançar o orgasmo. Há uma grande barreira em se admitir uma dificuldade sexual, tanto para os homens quanto para as mulheres.

Na percepção dos brasileiros, a relação entre qualidade do sexo, bem-estar e redução do estresse parece estar clara. Apesar disso, o estudo, realizado anualmente, reforça a tendência da dificuldade de comunicação do casal quando o assunto é sexo.

Os resultados dos recentes trabalhos apontam para algumas tendências comuns, que refletem a realidade da vida sexual na maior parte do mundo ocidental. Embora haja diferenças regionais, a vida sexual hoje é mais precoce, mais variada (com maior número de parceiros) e mais duradoura. Também há uma percepção clara do sexo como um dos elementos fundamentais para uma melhor qualidade de vida.

Mas esse novo "status" da sexualidade ainda não parece ter se seguido de uma melhor comunicação entre os casais ou de uma busca mais frequente e menos envergonhada dos serviços de saúde. Para muita gente, tratar sobre sexo, fazer controles, checar e se informar sobre saúde sexual seguem como grandes tabus. Mas é justamente nessa "desinibição" em falar com médicos e parceiros sobre o corpo e o sexo que pode estar a grande chance para uma vida sexual mais tranquila, mais plena e com menos dificuldades. Escolas e famílias também prestariam um grande serviço se pudessem facilitar o acesso às informações e encurtar a distância entre os jovens e os serviços de saúde.

Contratos secretos com Cuba e Angola transferiram para os ditadores de estimação o dinheiro que falta aos portos do Brasil

AUGUSTO NUNES DIRETO AO PONTO

Em 3 de junho de 2009, já acumulando as atribuições de chefe da Casa Civil com os deveres de candidata de Lula à presidência da República, Dilma Rousseff jurou que o governo não gastaria um só tostão na reforma ou na construção de estádios. Os investimentos públicos seriam reservados a “obras de mobilidade urbana” que transformariam em miniaturas tropicais da Noruega as 12 cidades incluídas no roteiro da Copa do Mundo.
O desfile de tapeações foi encerrado com a louvação do deslumbramento sobre trilhos que desde 2007 só apita na imaginação de Dilma. “Nosso projeto é que o trem-bala esteja integralmente pronto em 2014 ou pelo menos o trecho entre Rio e São Paulo”, reincidiu a babá do Brasil Maravilha que Lula pariu. “Pretendemos ter os trens em funcionamento para a Copa, até porque esta é uma região muito importante em termos de movimentação na Copa”.
Passados quatro anos e meio, os estádios não param de sangrar cofres públicos, o trem-bala segue enfurnado na cabeça dos farsantes e os milagres de mobilidade urbana não desceram do palanque. Os metrôs subterrâneos, de superfície ou elevados, os trens metropolitanos com ar condicionado, o mundaréu de aeroportos, as rodovias de matar gringo de inveja ─ nada disso se tornou visível. A única obra de grande porte inaugurada pela presidente de um país cuja infraestrutura implora por socorros urgentes fica em Cuba.
Construído pela Odebrecht e financiado pelo BNDES, o porto de Mariel já engoliu 682 milhões de dólares subtraídos dos brasileiros que pagam impostos. Como Dilma desembarcou na ilha-presídio dos Irmãos Castro decidida a gastar por lá o dinheiro que falta aqui, os canteiros de obras no Caribe acabam de ser irrigados por mais 290 milhões de dólares. Vai chegando a 1 bilhão de dólares, portanto, a contribuição à modernização logística de Cuba que começou em 2008 (com a celebração do acordo inaugural entre o governo Lula e a ditadura castrista) e não tem prazo para terminar.
Foi doação ou empréstimo?, faz questão de saber o Brasil decente. Na primeira hipótese, como explicar tamanha generosidade com a velharia comunista devastada pela indigência econômica? Quem garante que a dívida não será perdoada pelo pobretão metido a novo-rico? Na segunda hipótese, em que condições foi concedido o empréstimo? Como e quando será quitado? Qual é a taxa de juros? Que precauções adotou o Brasil para zerar o risco do calote e prevenir atrasos no pagamento? Quais são as vantagens e contrapartidas capazes de justificar a gastança de dimensões escandalosas?
Se depender da seita que reza no altar de Fidel Castro e se ajoelha diante do mano Raúl, essas e outras zonas de sombras só serão dissipadas daqui a 13 anos. Isso porque em junho de 2012, um mês depois da entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação, o companheiro Fernando Pimentel, um velho amigo de Dilma disfarçado de ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, decretou que só em 2027 deixarão de ser secretos os contratos que envolvem o porto de Mariel.
O BNDES premiou numerosos países com financiamentos de bom tamanho. Mas apenas o papelório que detalha os negócios fechados com Cuba e Angola, controlada desde 1979 pelo ditador companheiro José Eduardo dos Santos, foi enterrado na tumba dos segredos de Estado. Os adjutórios repassados ao parceiro africano, oficialmente destinados a estimular a “importação de bens e serviços de empresas brasileiras”, já alcançam 5 bilhões de dólares.
O dinheiro desviado para as duas tiranias de estimação se aproxima dos 7 bilhões de dólares necessários para eliminar até 2024 as carências que acossam o porto de Santos, o maior da América Latina, responsável por 1/4 da balança comercial brasileira. A profundidade, por exemplo, precisa passar de 13 para 17 metros (Mariel já nasceu com 18 metros). Os 12 quilômetros de cais são cada vez mais acanhados para um movimento anual que em 2013 atingiu 114 milhões de toneladas. Enquanto filas monstruosas congestionam as imediações do porto de Santos, Mariel já conta com 12 quilômetros de ferrovias e 70 quilômetros de estradas pavimentadas com pista dupla.
A PEC 37, que pretendia reduzir os poderes investigativos do Ministério Público, foi prontamente arquivada pelo Congresso tão logo entrou na mira dos atos de protesto promovidos em junho passado. Vem aí uma segunda onda de protestos contra a gastança e a corrupção escancaradas pela Copa da Roubalheira. Para mostrar que os brasileiros não são um bando de idiotas, é preciso incorporar às palavras de ordem a quebra do sigilo dos contratos com Cuba e Angola.
Duas ou três manifestações de rua serão suficientes que se revogue, em regime de urgência urgentíssima, o segredo mais que suspeito. E então saberemos o que foi tramado pela turma que morre de saudade do Muro de Berlim.

Malfeito vira credencial na Esplanada - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE


CORREIO BRAZILIENSE 
De um lado, a ministra Ideli Salvatti, acusada de falha ética pela própria Presidência da República, permanece no cargo. De outro, Arthur Chioro, investigado pelo Ministério Público de São Paulo por presidir, enquanto secretário de Saúde de São Bernardo do Campo (SP), consultoria que prestava serviços para prefeituras paulistas comandadas pelo PT, soma-se à equipe do primeiro escalão do governo Dilma Rousseff. Sem falar de Alexandre Padilha, que deixa a Esplanada dos Ministérios para disputar o governo do maior estado da Federação anunciando, enfim, o cancelamento de convênio que a pasta mantinha com ONG que tem o pai dele como sócio-fundador.

Se para bom entendedor meia palavra basta, não é preciso dizer mais nada. Está para lá de explícito que a ética não norteia a reforma ministerial ora em andamento. E o caso Chioro é emblemático. Importa que ele seja afilhado político do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, além de protegido do prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho. Bons antecedentes e reputação ilibada não são critérios de escolha para nomeações. Tanto faz se o art. 37 da Constituição estabelece que a administração pública deve obediência aos princípios de legalidade, impessoalidade e moralidade. O fato cristalino é que o malfeito se perpetua impunemente na mais elevada esfera do Estado brasileiro.
A reforma nasce, pois, com pecado original. Nem aos mais otimistas a nódoa deixa espaço para prognósticos positivos. Se a oportunidade de qualificar o quadro é posta de escanteio, quem haverá de sonhar com uma máquina azeitada, de engrenagens deficientes trocadas, pronta para superar os muitos obstáculos, fazer as obras andarem, a infraestrutura nacional realizar-se, o PIB crescer? Tampouco dá para imaginar um enxugamento que restabeleça a decência no tamanho da administração federal, com 39 ministérios. Entra-se num vale-tudo, cujo único objetivo visível no horizonte é a vantagem eleitoral da presidente rumo ao segundo mandato.

Arthur Chioro é só uma pedra nesse xadrez de tabuleiro viciado. Mas tem o peso do rei. Enquanto inquérito civil público corre em segredo de Justiça, informações vazam para a mídia, e a população toma conhecimento das suspeitas, a presidente Dilma Rousseff ignora as apreensões e ocupa-se de tramar a jogada definitiva, o xeque-mate que amanhã será coroado com cerimônia de posse no Palácio do Planalto. Uma vez ministro, o ex-secretário municipal passará a contar com o privilégio constitucional do foro privilegiado. Ou seja, somente poderá ser julgado pelo Supremo tribunal Federal (STF). Bom para ele, ruim para o cidadão cansado da impunidade e ansioso por ver a Saúde deste país curada de tantos males.

Vou de Cadillac, mas meu coração... - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR


GAZETA DO POVO - PR -
As peripécias da caravana de Dona Dilma em Lisboa lembram o ex-governador de São Paulo Adhemar de Barros. Homem rico, ele chegava aos comícios num Cadillac rabo de peixe, o suprassumo da época em matéria de carro chique. Na saída, passando ao lado dos populares aglomerados no ponto de ônibus, ele mandava o motorista parar, abria o vidro e gritava: “Meu povo, eu vou de Cadillac, mas meu coração vai a pé com vocês...” Versão moderna: “Meu povo, eu vou dormir num quarto de R$ 25 mil do Hotel Ritz, mas meu coração passará a noite com vocês no Minha Casa, Minha Vida!” Ou então: “Vou jantar num restaurante estrelado no Michelin, mas meu coração estará comendo um pão com mortadela com vocês no bar da esquina!”

É verdade que a imprensa brasileira está povoada por zelotes que veem dissipação de recursos públicos em tudo ou quase tudo; a última deles foi criticar o governador de Pernambuco porque seu assessor de imprensa e um fotógrafo do palácio foram até um hospital registrar o nascimento do quinto filho do governante, o que deve ser matéria de interesse jornalístico por si própria. Mas, no caso de Lisboa, a imprensa deitou e rolou com as trapalhadas oficiais com toda a razão: para que esconder a tal escala? Qualquer pessoa com um mínimo de tolerância acharia razoável que, em vez de voar à noite passando por uma área de temperaturas extremas e instáveis na costa norte-americana, a viagem fosse feita de dia, o que, aparentemente, reduz os riscos. O errado foi mentir a respeito.

Nada haveria também de errado em tomar essa decisão um ou dois dias antes da viagem e fazer as reservas necessárias em Lisboa. Então, para que mistificar a imprensa fingindo que foi uma decisão emergencial, de última hora? E para que sair pela porta dos fundos do hotel, como alguém pego em flagrante em uma malfeitoria?

Quanto às escolhas hospedeiras e gastronômicas da comitiva, há pelo menos três problemas: um de natureza prática e outros dois de caráter simbólico. No aspecto prático, não consigo entender por que é preciso levar uma comitiva de quase 80 pessoas para participar de um evento ultraprotegido, em que se vai fazer uma palestra de meia hora, uma hora no máximo e participar de alguns encontros. Não sei a resposta, mas sou capaz de adivinhar: pergunte-se quantos assessores Bill Gates levou ao encontro? Ou Warren Buffett, o segundo homem mais rico do mundo? Ou os presidentes das dez maiores empresas do planeta? Essas extravagâncias de gastos em viagens não condizem com o real money, sendo típicos dos deslumbrados. E você, paciente leitor, ficaria pasmo em conhecer o tamanho das comitivas dos presidentes brasileiros em todas as viagens ao exterior, mas vai ter de conter a curiosidade porque isso é considerado segredo de Estado – juntamente com as despesas das comitivas.

No plano simbólico, escolher um hotel caríssimo para passar apenas uma noite sem compromissos oficiais demonstra, no mínimo, pouca preocupação com o dinheiro dos que estão pagando a viagem. E, quanto aos integrantes da comitiva, inclusive a presidente, terem “rachado” a conta do restaurante, vou fingir que acredito e até vou comunicar essa minha crença à Velhinha de Taubaté, parente direta de Luis Fernando Verissimo, que é – como todos devem se lembrar – a alma mais crédula desta peculiar república.

Critério menos 'técnico' - JOÃO BOSCO RABELLO


O ESTADÃO -

A saída da ministra Helena Chagas do comando da comunicação do Planalto poderia constituir uma mudança natural, inserida na dinâmica de governos, não fosse o episódio o desfecho de uma pressão permanente do PT pelo controle da mídia, extensiva ao ministro das Comunicações, Paulo Bernardo.

Ao explicitar na carta de demissão a adoção de “critério técnico” na aplicação do orçamento da Pasta, a ex-ministra expôs como uma das razões de sua saída a resistência a ampliar os recursos dirigidos à mídia alternativa, eufemismo para os produtos de conteúdo governista, também chamados de “blogs sujos”.

Estes, como se sabe, compõem o amplo universo digital de apoio ao PT, financiado pelo governo a título de democratizar a mídia, mas na verdade instrumento para contrapor a leitura ideológica do partido à cobertura jornalística independente. Numa linguagem direta, uma militância paga.

O epíteto “blogs sujos” surgiu dos conteúdos ofensivos, caluniosos e, não raro, apócrifos, que fazem circular, sustentados por dinheiro público, mecanismo estimulado no governo Lula, em contraste com o recente apelo do ex-presidente pelo uso responsável da Internet.

Os opositores internos a esse modelo são alvos permanentes do “fogo amigo” do PT. Não os move na resistência à sua ampliação apenas o aspecto de sua legitimidade, mas de sua legalidade. Trata-se de investimento público que mistura interesses partidários com os de governo, em forma de propaganda remunerada a uma mídia informal não submetida aos critérios de audiência, circulação e distribuição, referências basilares para os valores da publicidade - oficial e privada.

Não por outra razão, os defensores de critério “menos técnico” para o setor, querem também mudar os parâmetros de medição aplicados para constatar o alcance de cada meio, por se constituírem hoje em obstáculo à democratização dos recursos, segundo o conceito do PT. A proposta revogaria a lei de mercado, segundo a qual, custa mais ao anunciante o veículo com maior alcance de leitores.

Já o ministério das Comunicações se opõe à pretensão do PT de aprovar a regulamentação da mídia nos padrões de controle que afetam a liberdade constitucional de expressão.

Ainda no governo, Lula disse ao Estado que os meios de comunicação não deveriam se preocupar com esse tipo de pressão, porque se inseria no contexto do que chamou de “usina de utopias”- alusão às propostas emanadas das conferências do PT.

Evitou assim a prestar contas dos valores e beneficiários dos recursos pagos a essa mídia paralela. Uma caixa preta ainda por ser aberta.

O prazer de matar - FERREIRA GULLAR


FOLHA DE SP -

É a insensatez levada ao último grau, que só se explica pela cegueira a que leva o fanatismo religioso


Não passa uma semana sem que novos atentados matem dezenas de pessoas. Isso ocorre com mais frequência no Iraque, no Egito, no Afeganistão, na Síria, em países da África Central. Matar inocentes indiscriminadamente é difícil de entender. Toda vez que leio uma notícia dessas, surpreendo-me como se a lesse pela primeira vez.

Não há dúvida de que homicídio puro e simples não deixa de me espantar. De fato, tirar deliberadamente a vida de alguém é coisa que não compreendo nem aceito. Mas sei, como todo mundo, que, dependendo de seu temperamento, pode uma pessoa perder a cabeça e matar um suposto inimigo.

Há, porém, pessoas que têm o prazer de matar e, por isso mesmo, fazem isso com certa frequência. Lembro-me de um jovem que foi preso logo depois de liquidar um desafeto. Quando o policial lhe disse que no próximo ano seria maior de idade e, se voltasse a matar alguém, iria para a cadeia, ele respondeu: "Pois é, não posso perder tempo".

No que se refere aos atentados, há os motivados por razões políticas e religiosas e há os que, ao que tudo indica, têm causas psíquicas, ou seja, o cara é pirado. Esses são os atentados tipicamente norte-americanos. Com impressionante frequência, surge um sujeito empunhando um revólver ou um fuzil-metralhadora que começa a disparar a esmo dentro de um shopping ou de uma universidade. Ele sabe que vai morrer e, quase sempre, é abatido por policiais.

A loucura é certamente um componente desse desatino homicida. Não obstante, a gente se pergunta por que só acontece nos Estados Unidos. Será porque todo mundo lá tem armas em casa e aprende a atirar desde criancinha, no quintal de casa ou no porão? Os fabricantes de armas garantem que não, que não é por isso, mas tenho dificuldade de acreditar neles.

Esse tipo de atentado difere daqueles outros, cuja motivação é político-religiosa, e difere também, por seu resultado, não de um surto psicótico e, sim, pelo contrário, fruto de uma decisão tomada objetiva e friamente por um líder.

A afinidade que há entre eles é o propósito de assassinar pessoas inocentes. E é precisamente este ponto que tenho maior dificuldade de aceitar. Por exemplo, um terrorista, com o corpo coberto de bombas, entra num ônibus escolar do país inimigo, explode as bombas e a si mesmo, matando dezenas de crianças. Não vejo nenhum sentido nisso, a não ser mostrar seu ódio ao adversário; e, nesse caso, por se tratar de crianças, mostrar que sua fúria homicida desconhece limites. É outra modalidade de loucura.

Mas há ainda os casos em que a fúria homicida mata indiscriminadamente pessoas de outros países, que nada têm a ver com os propósitos do atentado. Exemplo disso foi o caso das Torres Gêmeas, em Nova York, onde morreram quase 3.000 pessoas. O atentado visava os norte-americanos, mas matou franceses, holandeses e até muçulmanos. Nem mesmo se pode excluir, dentre as vítimas daquele atentado, pessoas que possivelmente apoiavam a causa defendida pelos terroristas. É a insensatez levada ao último grau, que só se explica pela cegueira a que leva o fanatismo religioso.

O que torna mais absurdo tudo isso é o fato de que o atentado terrorista não traz nenhum benefício a quem o projeta e o faz acontecer, a não ser satisfazer seus desejos homicidas. De fato, o terrorismo é a expressão da derrota política de quem o promove, a reação desesperada de quem sabe que não tem qualquer possibilidade de vencer o adversário e chegar ao poder.

Mas, ao fim de tudo, não consigo na verdade entender tal desvario, mesmo porque, além do assassinato em massa de crianças e cidadãos quaisquer, que o terrorista nem sequer conhece ou sabe que matou, há fatos quase inacreditáveis.

Como o que ouvi da boca do chefe supremo do Hezbollah, na televisão. Ele afirmou que o menino-bomba, que praticou o atentado no ônibus escolar, em Israel, era seu filho e tinha 16 anos. E acrescentou: "O mais novo, que tem 12 anos, já está sendo preparado para se sacrificar por Alá". O curioso é que ele manda os filhos morrerem, mas ele, o pai, continua vivo.

A melhor vida possível - MARTHA MEDEIROS


ZERO HORA -

Quanto mais converso por aí, mais percebo que é inútil acreditar em verdades absolutas e fórmulas ideais de convivência. Cada pessoa tem familiares que influenciaram suas escolhas, medos herdados e medos adquiridos, sonhos altos demais ou mesmo nenhum, e um número incalculável de perguntas sem respostas, de desejos embaraçosos, de mágoas vitalícias. Quem vai decretar para mim o que é melhor para mim? E quem vai dizer o que é melhor para você? Com que topete?

A melhor vida não é aquela que atende os mandamentos universais, as ordens celestes e os clichês eternizados, mas a que se tornou possível, a que você vem construindo a despeito de todas as suas dúvidas.

A melhor vida seria a da Gisele Bündchen, pensa a menina feia. A melhor vida seria a da Dilma, pensa a vereadora de uma cidadezinha do interior. Enquanto isso, vivem a vida possível, sem perceber o quanto deveriam ser gratas por não precisarem arcar com consequências que desconhecem.

A melhor vida para mim é bem diferente da melhor vida para você. Reúna o planeta inteiro e não se encontrará duas pessoas que planejem possuir a mesma vida, porque uns não querem ter horário para nada, outros se envaidecem de ter suas atitudes comentadas por estranhos, há os que se paralisam à primeira frustração, os que estão sempre inventando novos desafios, e a vida possível de cada um torna-se impossível para os demais, o que não deixa de ser uma piada termos que conviver intimamente uns com os outros apesar desse tabuleiro inesgotável de escolhas e destinos.

Se eu almejar uma vida ideal, terei que me basear na vida dos outros, pois o ideal é fruto de uma racionalização coletiva e consagrada, enquanto que se eu me contentar com uma vida possível, volto a assumir algum controle sobre os royalties das minhas decisões.

O que não impede que ela seja ótima, a mais adequada para o fôlego que tenho, a mais realizável dentro de minhas ambições, a menos sofrida, já que regulada pelo autoconhecimento que adquiri até aqui. Tenho como manejar uma vida possível de um jeito que jamais teria de manejar uma vida perfeita, até porque vida perfeita não é deste mundo, e o sobrenatural é matéria que não domino.

A melhor vida não é a focada em suposições, fantasias, esperas, surpresas e demais previsões que raramente se confirmam. A melhor vida não é aquela que é cumprida feito um pagamento de dívida, como um acerto de contas com nossos antigos anseios juvenis.

A melhor vida não é a que desenhamos quando criança na folha do caderno, a casinha de venezianas abertas, a fumaça saindo pela chaminé e os girassóis protegidos por uma cerquinha branca, e tudo o que isso sugere de proteção e vizinhança com os desejos comuns a todos. A melhor vida possível é aquela que você ainda vem desenhando, mesmo já com algumas pontas de lápis quebradas.

Falta de educação - PAULO SARDINHA


O GLOBO -

Levantamento indica que 38% dos nossos universitários são analfabetos funcionais



Entre os desafios atuais da gestão com pessoas está o de contribuir para o aumento da produtividade das organizações. Como produzir melhor é uma questão urgente, ainda mais quando pesquisas como a do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) apontam que somente com uma alta média de 3% ao ano na produtividade do trabalho será possível a economia brasileira crescer na casa de 4% ao ano. Para piorar esse cenário, há estudos que colocam o país entre os últimos na América Latina neste quesito.

Para as empresas, o dilema é visto do seguinte ângulo: como implementar uma cultura de alto desempenho? Desafios assim exigem rapidez de resposta das organizações, principalmente para aquelas que querem aproveitar as oportunidades que surgem com a Copa e as Olimpíadas. Entretanto, a mudança cultural passa necessariamente pelo sucesso do engajamento das pessoas.

Não há como negar que o desempenho da empresa está diretamente relacionado ao comprometimento dos funcionários. Fazer com que as pessoas deem o melhor de si — porque são estimuladas pelos objetivos da empresa, facilitando, assim, o trabalho no regime de colaboração e integração — é vital para alcançar os resultados desejados.

Entretanto, a produtividade não depende apenas de engajamento, mas também da capacidade de cada profissional. Por mais que as empresas invistam em ferramentas e programas que valorizem os colaboradores, a falta de mão de obra qualificada tornou-se um dos principais empecilhos para o aumento da produtividade.

Há iniciativas para tentar minimizar esse cenário. As próprias empresas vêm, cada vez mais, investindo em qualificação, seja financiando a graduação ou pós-graduação de funcionários, a concretização de parcerias com faculdades, a criação de suas universidades corporativas, além da realização periódica de cursos de atualização profissional.

Infelizmente, as deficiências são ainda mais básicas em um país que tem, segundo o IBGE, 13,2 milhões de analfabetos. E levantamento do Instituto Paulo Montenegro e da ONG Ação Educativa indica que 38% de nossos estudantes universitários são analfabetos funcionais. São pessoas que entram no mercado de trabalho com dificuldade para realizar tarefas simples como a leitura e compreensão de um texto ou um cálculo matemático.

Por maior que seja o comprometimento dos setores de RH com os resultados que as empresas devem alcançar — e esse será justamente um dos pontos do RH Rio, em maio —, as ações terão resultados limitados enquanto a educação persistir como um dos principais problemas no país. Enquanto nossos índices continuarem próximos dos de países subdesenvolvidos, não haverá engajamento suficiente que impulsione o crescimento das organizações.

As masmorras consentidas - MIGUEL REALE JÚNIOR


O Estado de S.Paulo - 

A pena privativa de liberdade é vivenciada pelo condenado como castigo, e nem poderia ser diferente. A sociedade, por sua vez, também reconhece na pena um gravame ao qual se acrescenta o juízo negativo do preso, etiquetado como "fora da lei".

Esse caráter retributivo inafastável não deve consistir em que à perda da liberdade se venha a acrescer a perda da dignidade, na promiscuidade de celas diminutas ocupadas por vários reclusos, sem trabalho, em nociva e desesperante ociosidade. Destarte, a pena não pode, de modo algum, ser tão só imposição de sofrimento. Deve-se tentar proporcionar que, no retorno à liberdade, possa o condenado superar os fatores que o levaram a delinquir, objetivo a ser alcançado graças ao trabalho, à educação e à assistência social e psicológica. Como disse Mariz de Oliveira nesta página, investir na prisão, e não na liberdade, aumenta a criminalidade. O passo primeiro, todavia, está em eliminar as condições desumanas do encarceramento, sem o que só há embrutecimento.

Há 30 anos entrava em vigor a Lei de Execução Penal, que constituía um ponto de partida, e não um ponto de chegada, ao estabelecer metas a serem alcançadas visando a minimizar os malefícios naturais do cumprimento da pena privativa de liberdade. Essa lei define as características dos estabelecimentos prisionais, dispõe sobre o trabalho prisional, os deveres e direitos dos presos, a disciplina, as diversas assistências a serem prestadas aos encarcerados, inclusive depois de sair da prisão, auxiliando a sua volta à liberdade.

As medidas preconizadas na lei não foram aplicadas. Os órgãos da execução penal deixaram de fiscalizar os estabelecimentos penais e de promover a melhoria das condições do cárcere, até mesmo para atender às necessidades básicas dos presos.

O caos do sistema penitenciário voltou às manchetes graças ao celular irregularmente introduzido no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, trazendo a lume cenas terríveis que perenizam o horror praticado. Ao enviar a filmagem da barbárie ao mundo exterior, denunciaram a realidade tenebrosa em que estão jogados e esquecidos como feras.

Se os governos estaduais criaram masmorras, houve também omissão grave dos órgãos da execução penal, do juiz e do promotor ao Conselho Penitenciário Nacional, enfraquecido pelo governo, que se fizeram de cegos, ignorando o dever legal de visitar os presídios mensalmente, como impõe a lei. Grassou a indiferença ante a situação sub-humana a que estão entregues os reclusos.

Esse descaso das autoridades se percebe também na superpopulação carcerária. Conforme o censo penitenciário de 2012, havia no Brasil 521 mil pessoas encarceradas para 311 mil vagas: 260 mil no regime fechado e 51 mil no semiaberto. Os números revelam a impossibilidade numérica de passagem do regime fechado para o semiaberto, ficando a população carcerária estrangulada no sistema fechado. Se há, portanto, déficit no sistema fechado, a grande falha, todavia, está na falta de presídios semiabertos, de construção mais barata, no formato de institutos agrícolas ou industriais destituídos de muralhas.

De outra parte, a humanização da reclusão exige a existência de trabalho, que salva a higidez mental, reduz a pena e concede pecúlio; a assistência judiciária, que tranquiliza a desesperança do recluso; o auxílio ao egresso para facilitar, no retorno à liberdade, não tomar o caminho de novo delito, como demonstram os elevados índices de reincidência. Essas medidas, infelizmente, são raras nos presídios brasileiros. Quando se viola a dignidade humana de quem quer que seja, somos todos atingidos. Maior se mostra essa afronta, porém, ao se lesionar a dignidade de quem se acha submisso inteiramente à administração estatal por estar sob custódia.

Dessa maneira, o quadro trágico da superpopulação carcerária e da ausência de qualquer tipo de assistência ao preso impôs uma reação do Conselho Federal da OAB, que, com apoio do Instituto dos Advogados de São Paulo, decidiu debruçar-se sobre o sistema prisional e criar a Coordenação de Acompanhamento do Sistema Carcerário. A iniciativa do presidente Marcus Vinicius Furtado Coêlho atende às atribuições da OAB, à qual incumbe a defesa dos direitos humanos e da Constituição consagradora do valor primordial da dignidade humana. Caberá, então, a essa coordenação analisar a situação em cada Estado e ajuizar ações civis públicas cobrando dos governos melhorias nas condições dos presídios, para que haja não só alojamento sem promiscuidade, mas também possibilidade de o preso trabalhar e de ter assistência judiciária.

Ao pugnar pela exata aplicação da Lei de Execução Penal, a OAB pode atuar de imediato em duas frentes: controlar a ida mensal de juízes e promotores aos presídios, fator importante para impedimento dos abusos já habituais, bem como exigir a criação dos Conselhos de Comunidade. Esses conselhos, compostos por representante da OAB e do Conselho dos Assistentes Sociais, são organismos capazes de arejar e controlar a execução penal, como uma janela por via da qual se estabelece o contato do meio prisional e do preso com a sociedade. Tarefa primordial do Conselho de Comunidade é incentivar e organizar a assistência ao egresso.

O condenado, ao retornar à sociedade, não sabe mais andar por suas próprias pernas, esgarçado em sua capacidade de iniciativa e sujeito à rejeição mesmo dos mais próximos, precisando de fisioterapia de alma e de intermediações que ajudem sua reinserção social. Assim, para reduzir a reincidência, superior a 60%, é vital promover, além de educação e de assistência psicológica, a assistência ao egresso, visando a facilitar sua volta à vida livre.

Há imenso caminho pela frente nessa grande cruzada que a OAB se dispõe a realizar em defesa da dignidade humana.

Aquela bola - LUIS FERNANDO VERISSIMO


O Estado de S.Paulo -

Na volta do jogo, o pai dirigindo o carro, a mãe ao seu lado, o garoto no banco de trás, ninguém dizia nada. Finalmente o pai não se aguentou e falou:

- Você não podia ter perdido aquela bola, Rogério.

- Luiz Otávio... - começou a dizer a mãe, mas o pai continuou:

- Foi a bola do jogo. Você não dividiu, perdeu a bola e eles fizeram o gol.

- Deixa o menino, Luiz Otávio.

- Não. Deixa o menino não. Ele tem que aprender que, numa bola dividida como aquela, se entra pra rachar. O outro, o loirinho, que é do mesmo tamanho dele, dividiu, ficou com a bola, fez o passe para o gol e eles ganharam o jogo.

- O loirinho se chama Rubem. É o melhor amigo dele.

- Não interessa, Margarete. Nessas horas não tem amigo. Em bola dividida, não existe amigo.

- E se ele machucasse o Rubem?

- E se machucasse? O Rubem teve medo de machucar ele? Não teve. Entrou mais decidido do que ele na bola, ficou com ela e eles ganharam o jogo.

- Você está dizendo para o seu filho que é mais importante ficar com a bola do que não machucar um amigo?

- Estou dizendo que em bola dividida ganha quem entra com mais decisão. Amigo ou não.

- Vale rachar a canela de um amigo pra ficar com a bola?

- Vale entrar com firmeza, só isso. Pé de ferro. Doa a quem doer.

- É apenas futebol, Luiz Otávio.

- Aí é que você se engana. Não é apenas futebol. É a vida. Ele tem que aprender que na vida dele haverão várias ocasiões em que ele terá que dividir a bola pra rachar e....

- Haverá - disse Rogério, no banco de trás.

- O quê?

- Acho que não é "haverão". É "haverá". O verbo haver não...

- Ah, agora estão corrigindo meu português. Muito bem! Eu não sou apenas o pai insensível, que quer ver o filho quebrando pernas pra vencer na vida. Também não sei gramática.

- Luiz Otávio...

- Pois fiquem sabendo que o que se aprende na vida é muito mais importante do que o que se aprende na escola. Está me ouvindo, Rogério? Um dia você ainda vai agradecer ao seu pai por ter lhe ensinado que na vida vence quem entra nas divididas pra valer.

- Como você, Luiz Otávio?

- O quê?

- Você dividiu muitas bolas pra subir na vida, Luiz Otávio? Não parece, porque não subiu.

- Ora, Margarete...

- Conta pro Rogério em quantas divididas você entrou na sua vida. Conta por que o Simão acabou chefe da sua seção enquanto você continuou onde estava. Conta!

- Margarete...

- Conta!

- Eu estava falando em tese...

Loucuras do verão - ANDRÉ GUSTAVO STUMPF

CORREIO BRAZILIENSE - 

Este verão absurdamente quente revelou mistérios. Os black blocs, por exemplo, ficaram sozinhos quebrando vidraças, agências bancárias e lojas de automóveis. Eles perderam o apoio da população, que se voltou para os rolezinhos dos adolescentes em férias. E rapidamente foram produzidas diversas teorias quase tão profundas quanto as da Escola de Frankfurt para explicar o fenômeno.

O problema de 2014 é o verão. A presidente Dilma fugiu para o frio de Davos, na Suíça, onde tentou explicar os caminhos da economia brasileira. Se foi feliz, não sei. Os jornais ingleses dizem que o Brasil foi o perdedor naquele conclave. O vencedor teria sido o México, que anunciou novos grandes investimentos e inauguração de indústrias. E, claro, a cereja do bolo, que foi a privatização da Pemex, o que abre nova perspectiva para o capital estrangeiro nas generosas jazidas localizadas no Golfo do México.

A canícula está por aí, fazendo vítimas. Nas últimas semanas, Porto Alegre teve temperatura mais elevada que Manaus. Belém está uma beleza, em torno dos 25 graus centígrados, muito diferente do forno carioca, cuja sensação térmica chega a 50 graus, o que faz o preço do coco gelado, à beira da praia, alcançar R$ 6. Era R$ 1 há coisa de um ano. E haja passeata. Contra tudo e contra todos. Todo mundo protesta.

Os políticos estão dispersos pelo planeta. Vão começar a chegar a Brasília na próxima semana. A partir daí, os problemas serão mais objetivos e concretos. É a reforma ministerial que já se iniciou e ainda vai se desdobrar em sofridos capítulos até o fim de fevereiro. Não esquecer que o carnaval, neste ano, cai na primeira semana de março. Depois do tríduo momesco, o país deveria estar pronto para funcionar. Difícil. A presidente estará cercada pelos parlamentares que desejam cargos e verbas e por descontentes que vão pulular em todos os estados.

Sorte que o calor deverá estar mais ameno. Os assuntos serão mais sérios. A composição da aliança PT e PMDB é difícil em toda sua extensão. Nos estados e na União. No Rio, a situação é de conflito aberto. Além deles, os demais partidos políticos que deveriam estar unidos em torno da candidatura Dilma Rousseff manifestam insatisfações de todos os tipos. É impossível contentar a todos. Nem o carisma do ex-presidente Lula consegue acalmar a turma. Haverá dissidências.

O que importa é que o verão está terminando. A presidente parou em Lisboa e mandou uma bacalhoada. Ela diz que cada um pagou a sua comida. Bom argumento. Parece que bastava encher o tanque do avião e seguir viagem. Não era necessário fazer a escala. Mas a caminho de Cuba e do calor de Havana, faz sentido descansar e desfrutar de bom vinho português. Enfrentar os irmãos Castro, que mandam na ilha há 50 anos, não é fácil para ninguém.

E ainda inaugurar um porto como de Mariel, que será o maior do Caribe. Todo construído por empresas brasileiras, fornecedores brasileiros, técnicos brasileiros e dinheiro brasileiro. A questão é qual será a utilização a ser dada pelos cubanos para tamanha instalação. Cuba não produz nada além de açúcar e charutos. O espaço parece ser construído sob medida para utilização dos chineses. Pode vir a ser um grande entreposto da carga que, vindo pelo Canal do Panamá, vá ser armazenada ou beneficiada ali. Destino: América.

A crise da economia argentina é muita séria. Crise cambial, ensinava Mário Henrique Simonsen, derruba governos. E os nossos vizinhos estão com o caixa baixíssimo. O povo lá está batendo panela dia e noite. O calor em Buenos Aires está de rachar catedrais. Se os hermanos falirem, lá se vai um dos principais compradores de produtos industrializados brasileiros. O outro é a Venezuela, que, embora milionária em petróleo, comprometeu sua renda jogando dinheiro pela janela. Falta até papel higiênico. O presidente Maduro reza por Chávez todas as noites, mas o milagre não acontece.

A América Latina é fantástica. O verão de 2014, quentíssimo, ficará na memória como o momento das grandes loucuras - financeiras, econômicas, políticas e futebolísticas. Mas, em Brasília, que também fez calor, as pessoas estão em situação de expectativa. Muita água ainda vai correr debaixo da ponte da política antes das eleições. O resultado da Copa vai interferir na eleição. A cotação do dólar, que não para de subir, também. E a inflação vai incomodar. América Latina é surrealista em qualquer tempo. No verão escaldante é ainda mais imprevisível.

O trem das onze -JOSÉ HORTA MANZANO


CORREIO BRAZILIENSE - 
Desde que Nostradamus escreveu suas centúrias, faz meio milênio, profecias passaram de moda. Técnicas previsionais vêm evoluindo, mas ainda não são infalíveis. A curto prazo, é até fácil prever. A médio prazo, a margem de incerteza se amplia e a coisa se complica. A longo prazo, é missão quase impossível. Mais fácil tirar a sorte grande do que predizer a situação do planeta daqui a 10 anos.

Em outubro de 2006, com a oportuna desistência da Argentina, do Chile e da Colômbia, a candidatura brasileira a sediar a Copa do Mundo de 2014 foi sacramentada pela Fifa. Faz mais de 7 anos. Pareceu a todos - por que negá-lo? - uma excelente perspectiva. O tempo era de vacas gordas, obesas até. Tudo era sorrisos. Nosso povo, embevecido, acreditava que o futuro tinha chegado, que estávamos no Primeiro Mundo, que a pobreza tinha desaparecido. Semicerrando os olhos, dava até para ouvir o silvo de trens-bala cortando montes e cerrados.

A euforia era tamanha que nossos descuidados dirigentes sapecaram seu jamegão numa Lei Geral da Copa, demandada pela Fifa, em que abandonávamos parte de nossa soberania. Afinal, o privilégio de sediar o evento justificava um que outro arranhão em nossa legislação. Nossos mandachuvas já antegozavam a consagração suprema de seu peculiar modo de governar.

No entanto... A vida reserva surpresas. Nenhum guru foi capaz de prever que, um ano antes da Copa, num certo junho, o gigante adormecido estremeceria e daria sinal de vida. Não vale a pena repisar aqui o susto que o Brasil e o mundo levaram. Aconteceu.

De lá para cá, um incômodo concurso de circunstâncias arrefeceu a euforia. Economia em perdição, corrupção às escâncaras, desmandos, volta da inflação trouxeram desalento. Black blocs, rolezinhos, acidentes em estádios, atraso nas construções, gente graúda na cadeia, nós logísticos encruados atiçaram o fogaréu. Parece que as coisas teimam em não dar certo. E essas redes sociais, então! Desprezando soberbamente o empenho do governo em manter discrição sobre fatos desagradáveis, botam a boca no trombone. Todo o mundo fica sabendo de tudo! Um desplante e uma dor de cabeça.

Uma semana atrás, o gigante mostrou que continua a se mexer na cama. Manifestações violentas voltaram. Nossa presidente, em viagem ao exterior na companhia de comitiva pletórica, teve de escafeder-se para evitar cobranças embaraçantes.

Os ventos estão soprando desnorteados. Promessas já não parecem mais surtir efeito. Um clima pré-anárquico se insinua. E pensar que, daqui a pouco mais de quatro meses, um pontapé marcará o início da "Copa das Copas". Que fazer? Como fugir ao vexame que se prenuncia - em transmissão direta a bilhões de telespectadores? Mais que isso: terminada a Copa, como assegurar o apaziguamento dos ânimos?

À primeira vista, parece que não tem mais jeito. Mas sejamos otimistas. O que passou, passou - não dá para voltar atrás. Ainda resta uma esperança de evitar o pior. No apuro, é respirar fundo, arregaçar as mangas, fazer das tripas coração e dar ao povo o que ele reclama. Um Brasil esgarçado por anos de desleixo não se transfigurará em quatro meses. Mas resta um último recurso para acalmar o gigante.

Todos sabem o que transtorna os brasileiros: corrupção, compadrio, malfeitos, promiscuidade entre o público e o privado, permissividade, fiscalidade extorsiva, desleixo no trato da coisa pública, nível de instrução cronicamente baixo. Discursos e palavrório não servem mais. Convocação de plebiscito, tampouco. Mas os mesmos congressistas que foram capazes de costurar, tim-tim por tim-tim, os mais de 100 artigos da Lei Geral da Copa ainda têm tempo hábil para alinhavar uma Lei Geral do Brasil Decente - um elenco de normas apto a repor o país nos trilhos. E dentro do "padrão Fifa", faz favor!

As próximas semanas são cruciais e não podem, sob nenhum pretexto, ser descuradas. Uma legislação nova e rígida tem de ser preparada, discutida, votada, aprovada e sancionada no mais curto prazo possível. Que respeitem a Constituição, mas que não nos venham com promessas. De pactos não cumpridos, estamos até aqui. E que trabalhem a toque de caixa, que faltam cinco para a meia-noite.

O momento é grave. Esta é a chance derradeira, senhoras e senhores do andar de cima! É o trem das onze - e já está apitando a partida. Se bobear, só amanhã de manhã. Se houver amanhã.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

'Lisboa e Tejo e tudo', por Maria Helena RR de Sousa

 Recebi por e-mail de um amigo leitor do blog, aqui, claro, compartilho com os amigos da forma como veio..

Como é possível que uma senhora que já não é mais criança, ocupante do mais alto cargo de uma Nação cheia de problemas, se comporte como uma Maria-Chuteira que não sabe mais nem em quê gastar de tanto que seu marido ganha? À menina que sai da periferia de qualquer de nossas cidades e vai parar em Barcelona ou Madrid e fica extasiada com as purpurinas de sua nova vida, dá-se um desconto: é natural que queira pavonear-se para os da sua turma. Mas dona Dilma ir se exibir em Lisboa e nos fazer passar pelo vexame de mostrar que no fundo ainda somos os mesmos tupinambás boquiabertos com os espelhos e as miçangas? Será que ela porventura acha que os grandes empresários do mundo não vão pôr num prato da balança a estadista e seu discurso em Davos e no outro a deslumbrada sem limites? Será que ela por um átimo de segundo achou que esse piquenique às margens do Tejo ia passar despercebido e que não ia ser comparado com o rastilho de pólvora que começa a unir nossas cidades?
 
Eu mesma respondo. Acho que ela está convencida que nós, os trouxas absolutos, não faremos nada e que ela, retroalimentada pelo PT e seu dono, pode mesmo tudo e que nada de mau lhe acontecerá, a não ser a reeleição e aí...Bem, aí entra a Carta do Leitor de O Globo, que copio: “Estou cansado de ver oportunistas manipularem pessoas, usando a religião e a política para ganhar dinheiro fácil e poder. De ver tantas mortes e acidentes em estradas esburacadas, perigosas e mal conservadas. De ver políticos jogando pretos contra brancos, empregados contra patrões, pobres contra ricos, incentivando o preconceito e botando lenha na fogueira da luta de classes. De ver ministérios inúteis, criados para acomodar companheiros, no esquema do toma lá dá cá. Estou cansado da carga tributária de 37,5% do PIB, uma das mais altas do mundo, com quase nenhum retorno. De ter medo de sair à rua, apavorado com bala perdida, assalto e arrastões. Do trânsito e do transporte público sempre infernais. De ver políticos e governantes zombarem da nossa inteligência. Da educação cada vez mais desvalorizada. Estou cansado de muitas coisas, mas, principalmente, de ver a mediocridade tomando conta do país. Rubem Paes, Niterói, RJ”.
É carta que seria assinada por mim e por muita e muita gente. Perfeita. E com o timbre da Verdade. Eu só acrescentaria uma linha depois de olhar detidamente a foto-testemunha do ‘rolézinho’ às margens do Tejo: precisavam sair carregando a mercadoria?*O título, já se sabe, é do poema Lisbon Revisited (1926), Álvaro de Campos (Fernando Pessoa).
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa, professora e tradutora, escreve semanalmente para o Blog do Noblat desde agosto de 2005.

O Graal de Tarso Genro - DEMÉTRIO MAGNOLI


FOLHA DE SP -

Democracia é o regime no qual governantes não podem tudo --e aí está o problema do Brasil, na opinião dele


O Santo Graal dos comunistas foi a URSS e seu sistema de "repúblicas populares". As insurreições na Hungria (1956), na Tchecoslováquia (1968) e na Polônia (1980) secaram o poço do encantamento. A queda do Muro de Berlim e a implosão da URSS quebraram o cálice sagrado. No último quarto de século, desorientados, os filhos do "socialismo real" empreendem a busca por um novo Graal. Como tantos outros, Tarso Genro encontrou-o na China (em "Uma perspectiva de esquerda para o Quinto Lugar", artigo escrito numa língua estranha, longinquamente aparentada com o português). As suas elucubrações teóricas não têm interesse intelectual, mas merecem um exame político.

O governador do Rio Grande do Sul enxerga na experiência recente da China uma inspiração para a marcha do Brasil rumo ao estatuto de potência mundial. O que a China tem de especial? Um "sujeito político (Partido-Estado)" que "cria o mercado e suas relações", num processo em que "estas relações novas recriam o sujeito (Partido-Estado), que será permanentemente outro". É isso, explica-nos, que falta ao Brasil: um ente de poder capaz de reinventar a sociedade e guiar o povo até o futuro.

Décadas atrás, um tanto tristonhos, incontáveis socialistas deploravam o poder totalitário do Partido Comunista da URSS, mas o justificavam como um mal necessário pois, no fim das contas, aquele era o motor político da economia socialista. Genro, pelo contrário, não apela ao socialismo (uma "fantasia histórica") para justificar o poder absoluto do Partido-Estado: basta-lhe um horizonte "chinês" de crescimento econômico e progresso social. E a democracia? A China triunfa graças a um "regime político não democrático para os nossos olhos", ensina o líder petista, reproduzindo os argumentos oficiais do Partido Comunista Chinês, que justifica a tirania pela invocação ritual da cultura e da tradição.

A democracia é o regime no qual os governantes não podem tudo --e aí está o problema do Brasil, na opinião de Genro. Na sua descrição, o "mercado" malvado sabota a redução dos juros, a abominável "grande imprensa" bloqueia o aumento do IPTU e os demoníacos "cronistas no neoliberalismo abrigados na grande mídia" manipulam a opinião pública. A expressão política de opiniões conflitantes e interesses divergentes que nos acostumamos a chamar de democracia representa, aos olhos de Genro, uma intolerável balbúrdia. É preciso, para libertar a "utopia concreta presa com âncoras pesadas no fundo real da sociedade capitalista", instaurar uma ordem nova na qual o sujeito da História (o "Partido-Estado") possa conduzir a nação até o futuro redentor.

O "levantar âncoras", propõe Genro, encontra-se na convocação de "uma nova Assembleia Nacional Constituinte no bojo de um amplo movimento político inspirado pelas jornadas de junho", mas "com partidos à frente". Esqueça, por um momento, que as "jornadas de junho" não seriam as "jornadas de junho" se tivessem "partidos à frente". Nosso pequeno, mas esperançoso, pretendente a Duce sonha com uma "marcha sobre Brasília" liderada pelo partido que exerce o poder.

"Penso que as esquerdas no país devem abordar programaticamente estas novas exigências para o futuro, já neste processo eleitoral". Genro sabe perfeitamente que sua "utopia concreta" terá impacto nulo sobre a campanha de Dilma, que continuará focada em firmar alianças com o PMDB, o PP e o PSD, renovar os compromissos com as altas finanças e reforçar a parceria com os "movimentos sociais" estatizados. O vinho de seu cálice sagrado destina-se, exclusivamente, ao consumo interno do PT e de sua área de influência militante: é um antídoto ideológico contra as imprecações lançadas por correntes esquerdistas inquietas com o "giro à direita" do lulismo. Mas serve, ainda, para iluminar o lado escuro da alma do partido que nos governa.

Um giro no parafuso - DORA KRAMER


O Estado de S.Paulo -

Leis draconianas não garantem a saúde legal do ambiente. Disso estamos cansados de saber e habituados a ver, principalmente quando negócios privados se misturam com entes públicos.

Decretar que isso ou aquilo é proibido, é ilegal, é inconstitucional tampouco basta para balizar comportamentos. Nem por essa razão se pode deixar de aperfeiçoar os mecanismos de prevenção e repressão à ilegalidade ou de saudar novas ferramentas que permitam dar mais um aperto na rosca do parafuso.

Senso crítico é essencial até para separar atos bem intencionados, mas de pouca eficácia prática, de ações que realmente tenham o poder de atuar no cerne da questão. Aqui falamos de corrupção.

Mais especificamente da lei (12.846) que entrou em vigor nesta semana, cujo objetivo é investigar, processar e punir empresas envolvidas em ilicitudes na prestação de quaisquer serviços ao Estado.

Muito bem, a corrupção já é ilegal e, no entanto, grassa. No que mais uma legislação poderia mudar essa situação? Mudar totalmente e principalmente do dia para a noite é algo que, de fato, não vai acontecer. Mas, como dizia o então ministro da Fazenda Pedro Malan nos primeiros anos do Plano Real, é tudo uma questão de "processo".

A chamada lei da Empresa Limpa (inspiração óbvia) pode ser enquadrada nessa categoria da qual faz parte a lei da Ficha Limpa. Não obstante a evidência de que a correção na vida pregressa fosse um atributo indispensável a candidatos a cargos eletivos, nenhuma importância se dava a isso.

Até o dia em que uma emenda constitucional de iniciativa popular cruzou o caminho de um ano de eleições (2010), entidades civis se mexeram, a oposição saiu da inércia, a situação não teve jeito, foi a reboque e pronto: estavam plantadas as sementes.

A existência da lei não fará desaparecerem do cenário, como que por encanto, os candidatos fichas sujas, mas sem dúvida é um fator importante de inibição para o desfile de folhas corridas que acaba resultando num Parlamento cheio de gente com contas em aberto na Justiça.

Pois com todas as questões que ainda precisam ser resolvidas na nova lei anticorrupção - conforme apontam os especialistas, em relação à delação premiada e à ordenação da competência para instauração dos processos - o ponto essencial é este: ela sem dúvida alguma inibirá os corruptores e, por consequência, dificultará o campo de atuação dos potenciais corrompidos.

A legislação não prevê prisão, mas impõe multas altas levando em conta o faturamento bruto das empresas que podem ter suas atividades suspensas ou que, em último caso, podem até vir a ser dissolvidas. Isso independentemente de os donos serem os responsáveis diretos pelo ilícito. Mal comparando, é a teoria do domínio do fato aplicada no julgamento do processo do mensalão. Estando o negócio todo em jogo é de se acreditar que haverá, sim, muito mais precaução por parte dos empresários.

Quando põe no risco o empreendimento e torna o empreendedor responsável pelos atos do conjunto, a lei busca atingir a parte que sempre ficou fora do alcance dos grandes escândalos de corrupção, cujo fôlego costuma se esgotar quando se chega aos corruptos. Até por serem mais notórios.

Se um elo dessa cadeia de promiscuidade fica solto, o sistema vai se realimentando por si. Repetindo: a lei sozinha acaba com isso? Não, mas dá uma boa ajuda.

Muito maior e mais eficaz, por exemplo, do que se proibirem pura e simplesmente as doações lícitas de empresas para campanhas eleitorais na ilusão de que, assim, estará extinto o uso do caixa dois e, com ele, o ovo da serpente da corrupção no setor público.

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