Escrito por Cel. Luis Alberto Villamarín Pulido
Ao
cabo de meia hora o carro estava totalmente incinerado, o cadáver de
Ñañez irreconhecível e os guerrilheiros olhávamos atônitos, desde
escassos trinta ou quarenta metros, o incrível ato de sadismo...
Produto
do vagalhão midiático que as FARC despertaram com as argúcias de Iván
Márquez em Oslo, é pertinente lembrar ao país que não só o “movimento
armado”, senão o padrinho político dos terroristas, quer dizer, o
manhoso Partido Comunista Colombiano (PCC), inspirador de toda a
barbárie marxista-leninista contra a Colômbia devem reparar as vítimas, e
tanto os cabeças armados quanto os desarmados devem ser levados ao
cárcere pelos crimes cometidos.
Começando
pelo próprio Iván Márquez e os camaradas desarmados que aproveitam
todos os espaços de opinião para falar da “justeza da insurgência”,
etc., etc. Os instigadores do terrorismo são igual ou mais responsáveis
que as FARC. Não importa que sejam advogados, jornalistas,
historiadores, dirigentes políticos de esquerda com dupla moral, ou
infiltrados em sindicatos, na justiça, etc. Devem responder política e
penalmente. Do contrário, nunca haverá paz na Colômbia.
Transcrevo
o testemunho de Rigoberto Perdomo, cognome “Danilo”, desertor do Bloco
Sul das FARC, hoje exilado político nos Estados Unidos, narrado ao autor
deste artigo no verão passado em uma cafeteria de uma cidade cheia de
imigrantes hispânicos no estado de Maryland:
“Fui
testemunha ocular de quando Iván Márquez ordenou seqüestrar, amarrar,
torturar e queimar vivo Ernesto Ñañez Ramírez, natural de Neiva-Huila,
um narcotraficante de nível médio que servia de ligação entre as Frentes
14 e 15 das FARC e os capos do cartel de Medellín”.
“Ñañez
era um desses tipos que chamamos de abelhas. Bastante liso e
resvaladiço. Entrava e saía do Caguán como Pedro em sua casa. Nessa
época estávamos na ante-sala dos diálogos com Belisario Betancur. O
camarada Iván já havia anunciado que ele iria ao Congresso Nacional,
como quota das FARC, pelo movimento político que fundaram Jacobo e
Manuel na chave com o Partido Comunista, mas que nós tínhamos que
continuar empenhados em conseguir recursos no Baixo e Médio Caguán com
os impostos aos coqueros [1] e em fazer muito proselitismo a favor desse
movimento para continuar organizando as células comunistas de combate”.
“Embora
Iván Márquez saudasse Ñañez com abraço e com grande familiaridade, em
privado nos dizia que deveríamos investigar muito esse tipo. Lembro
muito bem que Ñañez tinha uma caminhonete Chevrolet de cor azul escuro,
que deixava guardar (sic) em Cartagena del Chairá e só a utilizava para
ir até Remollinos ou qualquer outro lugar para se encontrar com Iván,
para lhe entregar o dinheiro e recolher a mercadoria”.
“De
volta à Florencia, Ñañez ficava para dormir na casa de um familiar de
Iván Márquez e nessas andanças teve um romance secreto com a esposa
desse senhor. Como o ofendido era parente de Márquez, ele planejou a
vingança para assassinar o traqueto, porém Ñañez se adiantou e o mandou
matar, como é costume entre os narcos. Iludido, Ñañez acreditou que
Márquez iria pensar que havia sido um assassinato por outros motivos”.
“Porém,
para desgraça de Ñañez, Márquez sabia de tudo o que acontecia em
Florencia com a morte de seu parente. Uma manhã Iván Márquez nos reuniu
uns vinte guerrilheiros perto de Remolino del Caguán, onde nós éramos a
lei e a autoridade, pois por ali não aparecia nunca o Exército, nem a
Polícia, nem o DAS, nem o F-2, nem nenhuma autoridade do Estado”.
“Ordenou
que quando Ñañez chegasse à blitz permanente da guerrilha, o
desarmássemos, tirássemos o dinheiro que trazia e o mantivéssemos com
uma arma apontada até sua chegada para decidir a sorte do bandido”.
“Para
maior desgraça de Ñañez, Iván Márquez estava na blitz quando sua
caminhonete chegou ao lugar, onde supostamente voltaria a receber um
carregamento de coca e entregaria uma gorda soma de dinheiro às FARC”.
“Rapidamente
dois companheiros apontaram-lhe com fuzis G-3, pediram-lhe o dinheiro e
lhe tiraram uma pistola Browning 9mm. Iván Márquez lhes passou umas
cordas de arame farpado mais ou menos grosso com dois pares de alicates.
Os guerrilheiros amarraram as mãos de Ñañez à direção da caminhonete e
os pés da vítima no assento do carro. Depois passaram vários fios de
arame farpado ao redor da cintura de Ñañez mas por detrás do assento
para que não pudesse se mover. Finalmente, com os alicates retorceram as
amarras, para assegurar que a vítima não pudesse se soltar”.
“O
sujeito implorava que o saltassem, que ele havia entregado o dinheiro
completo, que o deixassem ir ele trazia mais dinheiro, que não fossem
matá-lo. Porém, Iván Márquez continuava calado, sem dizer palavra
alguma. Quando Ñañez esteve totalmente imobilizado, com parcimônia Iván
Márquez jogou abundante gasolina no veículo por dentro e por fora, mas
sem que o combustível caísse sobre Ñañez. A tortura para esse desgraçado
foi tenaz, pois continuava gritando que ele era correto nos pagamentos,
que não se equivocassem, que o perdoassem, etc.”
“No
fim Márquez falou: ‘Isso é o que deveria ter pensado antes de se meter
com minha família’ e, ato contínuo, jogou um fósforo sobre o assento
traseiro da caminhonete. O estalido da combustão queimou a cara de Ñañez
que aumentou os gritos e retorcidos de dor e de angústia dentro da
caminhonete, mas o incêndio avançava com força”.
“Ao
cabo de meia hora o carro estava totalmente incinerado, o cadáver de
Ñañez irreconhecível e os guerrilheiros olhávamos atônitos, desde
escassos trinta ou quarenta metros, o incrível ato de sadismo... Pouco
tempo depois Iván Márquez foi congressista da Colômbia pela União
Patriótica (UP)”.
Seria
muito positivo para a paz do país que Iván Márquez responda por este e
milhares de crimes que ordenou cometer em nome da revolução comunista, e
que os padrinhos políticos dos terroristas que cada vez que as FARC
falam de paz, aparecem ante os meios de comunicação como supostos
mediadores bem intencionados, reparem a este e às milhares de vítimas
caídas sob balas assassinas, as torturas, os seqüestros, as
expropriações, o narcoterrorismo.
Esse
é um dos grandes desafios dos negociadores do Governo e da Justiça
colombiana, claro, sem que se repitam abomináveis aberrações jurídicas
como aquela em que os computadores de Raúl Reyes não são provas válidas
contra os comprometidos lá, porque não foram entregues primeiro a Rafael
Correa, reconhecido cúmplice das FARC.
Nota da tradutora:
[1] “Coquero” é como se chamam aos plantadores de coca que vendem sua produção às FARC.
Tradução: Graça Salgueiro