Flavio Amoedo
A escassez e o consolo
O sofrimento é uma condição permanente da existência humana. Ele não nasce de um arranjo social específico, nem de uma classe, nem de um governo. Nasce da escassez, que é inerente à natureza.
Todo ser vivo luta contra a escassez de alimento, de abrigo, de tempo, de energia. O ser humano não é exceção. Nenhuma organização da sociedade, por mais engenhosa, elimina essa condição. Ela pode apenas tornar a luta mais eficiente, e é exatamente isso que a cooperação voluntária e o sistema de preços fazem.
O sofrimento, porém, não se resolve com explicações econômicas. Ele exige sentido. Durante milênios, a religião tradicional cumpriu essa função. Ela ofereceu ao indivíduo um propósito transcendente, uma explicação para a dor e uma forma de suportá-la sem culpar ninguém por ela.
Essa última característica é decisiva. Na religião tradicional, o sofrimento faz parte da condição humana. Ele não tem um culpado terreno a ser punido.
A religião secular
Quando uma sociedade abandona a explicação religiosa, o sofrimento continua lá. A necessidade de sentido também. A lacuna deixada pela religião não desaparece: ela é ocupada por outra coisa.
A ideologia de esquerda, especialmente em sua tradição marxista, rejeita a explicação metafísica do sofrimento e transfere a promessa de redenção para a política. A transformação da sociedade passa a ocupar o lugar da salvação. A igualdade assume a condição de ideal moral supremo. A militância oferece identidade, pertencimento e propósito existencial.
Essa transferência não é uma metáfora. Raymond Aron chamou de religiões seculares as doutrinas que prometem a salvação dentro da história, primeiro no ensaio “L’avenir des religions séculières”, e depois em O Ópio dos Intelectuais. Eric Voegelin, em As Religiões Políticas, analisou os movimentos totalitários de seu tempo como religiões políticas, que substituem a transcendência por uma promessa mundana de redenção. O próprio Mises, em Socialismo, apontou o caráter quiliástico do marxismo: a promessa de um reino final de reconciliação, agora situado na história e não além dela.
A política, então, deixa de ser um instrumento de coordenação social e assume características religiosas. Seus líderes são tratados como figuras sagradas. Seus princípios tornam-se dogmas, seus adversários passam a representar o mal e críticas são recebidas como heresia.
O mecanismo do ressentimento
O ressentimento não nasce na política. Nasce de uma experiência comum a todos: sofrer sem ter a quem culpar. A escassez é impessoal. A seca que destrói a colheita não tem intenção, a doença não escolhe suas vítimas e o mercado que não remunera um talento não age por maldade. Esse sofrimento sem autor é difícil de suportar justamente porque não oferece um alvo.
Ele se agrava quando passa pela comparação. Ter pouco é uma condição; ter menos do que o vizinho é uma ofensa. E a ofensa cresce quando a vida fica abaixo do que se esperava dela. Cada pessoa carrega uma ideia do quanto o mundo lhe deve, e quando o mundo entrega menos, a diferença não é sentida como acaso, mas como injustiça. Essa expectativa é uma construção da própria mente, não um dado da realidade. A frustração que ela produz, no entanto, é inteiramente real.
É aí que a ideologia encontra o ressentimento, que oferece a ele uma desculpa. O ressentido sente que foi lesado, mas não sabe por quem. A ideologia responde por ele: foi o capitalista, o rico, o empresário, o sistema. A escassez impessoal passa a ser lida como injustiça pessoal. O sofrimento ganha um autor, e o ressentimento, que era difuso, ganha direção.
A desculpa é tanto mais atraente quanto mais protege a autoestima. Mises descreveu esse fenômeno em A Mentalidade Anticapitalista. Numa sociedade de mercado, a posição de cada um depende em grande medida do valor que os outros atribuem ao que ele oferece. Quem não alcança a posição que esperava fica diante de uma conclusão difícil de aceitar sobre si mesmo. A ideologia o dispensa dela: o fracasso não é seu, é do sistema. O que era frustração privada se converte em acusação pública.
A captura
Uma vez que o sofrimento passa a ter um culpado, o ressentimento é convertido em indignação, e a indignação é elevada à condição de virtude. O que era inveja ou frustração passa a ser chamado de consciência social. Nietzsche descreveu essa inversão de valores; a diferença é que aqui ela tem uma raiz material, a escassez, que ele não identificou.
A partir desse ponto, o militante não está apenas descontente. Ele está do lado do bem. A ideologia oferece uma explicação completa para o sofrimento, identifica os culpados e promete uma sociedade reconciliada com os desejos humanos. Explicação, culpado e redenção: a mesma estrutura de qualquer religião.
Nesse estágio, a inteligência deixa de questionar as crenças e passa a reforçá-las. Quanto mais inteligente o militante, mais sofisticada se torna a racionalização. A inteligência não protege contra a captura.
Isso explica por que fatos raramente convencem um militante. Os fatos se dirigem à inteligência, mas a adesão foi feita pelo sentimento. Uma crença que dá sentido ao sofrimento não é abandonada por causa de uma estatística.
O paradoxo da dependência
O paradoxo é que, ao procurar superar o sofrimento por meio da política, o indivíduo se torna psicologicamente dependente da ideologia que promete libertá-lo.
A dependência se forma porque a militância entrega uma recompensa real. Ela oferece o que o sofrimento sem autor nunca ofereceu: um alvo para a raiva, uma comunidade de iguais e a certeza de estar do lado certo. A indignação compartilhada produz alívio imediato. O ressentido deixa de ser alguém que fracassou e passa a ser alguém que denuncia.
Essa recompensa, porém, não muda nada na situação que a provocou. A escassez que gerou o ressentimento continua lá, intacta. O militante sente alívio sem ter resolvido coisa alguma. Essa é a estrutura do vício: uma recompensa que se separou da necessidade que deveria satisfazer. A substância alivia o desconforto sem remover sua causa; por isso o desconforto volta, e com ele a necessidade de uma nova dose.
Na militância, a dose é a indignação. Cada nova denúncia, cada novo inimigo, cada nova ofensa renova o alívio por algum tempo. Como no vício, a tolerância aumenta e o discurso precisa se tornar mais radical para produzir o mesmo efeito. E, como no vício, a dependência se fecha sobre si mesma, porque o militante passa a precisar do próprio problema que alega combater.
Se a injustiça apontada fosse resolvida, a identidade do militante acabaria junto com ela. O pertencimento, o propósito e a superioridade moral desapareceriam. Por isso o movimento precisa do ressentimento vivo. Cada conquista é seguida por uma nova desigualdade a ser denunciada, e a redenção prometida nunca chega.
Estrutura e vulnerabilidade
O mecanismo descrito aqui não é exclusivo da esquerda. Ele aparece em qualquer movimento capaz de transformar sofrimento em culpa alheia. A diferença está na arquitetura de cada tradição.
Na tradição marxista, o ressentimento é estrutural. A doutrina coloca a desigualdade e a distribuição no centro do diagnóstico. A comparação, que é a origem do ressentimento, faz parte da própria teoria. Somam-se a isso a rejeição da religião tradicional, que deixa a lacuna de sentido aberta para a política, e um arcabouço intelectual construído para reforçar essa leitura. Psicologia, religião e teoria apontam na mesma direção.
Na direita, o ressentimento é uma vulnerabilidade, não um dogma. O conservadorismo e o liberalismo não colocam a comparação de riqueza no centro de suas explicações e o nacionalismo exacerbado é a forma em que essa vulnerabilidade se manifesta.
Embora a identidade e o pertencimento a uma comunidade cumpram uma função legítima no nacionalismo, esse sentimento pode distorcer-se e passar a enxergar no estrangeiro ou em outra nação o autor do seu sofrimento.
Quando o nacionalismo converte a humilhação em dogma central, como fez o nazismo ao transformar Versalhes em ferida fundadora, ele adquire a mesma estrutura do caso marxista.
O critério, portanto, não é o lado do espectro político. É a arquitetura: onde o ressentimento está no centro da doutrina, a captura é a regra; onde ele é uma falha, a captura é a exceção.
A escassez que nenhuma política abole
Nenhuma ideologia elimina a escassez. Ela pode apenas mudar a forma como o sofrimento é interpretado. A religião tradicional ensinava a suportá-lo. A religião política ensina a culpar alguém por ele.
A diferença tem consequências. Quem aceita a escassez como condição da existência procura formas de coexistir com ela e minimizá-la. É exatamente essa busca descentralizada, coordenada pelos preços, que tirou a maior parte da humanidade da miséria. Quem enxerga na escassez uma injustiça pessoal procura alguém para punir. E a punição não produz um único grão a mais.
A solução não é uma ideologia. É reconhecer o sofrimento pelo que ele é: a marca de uma vida que precisa continuar lutando contra a escassez. A escassez é um fato, e maneiras de minimizá-la nunca vêm de um partido. A minimização da escassez vem da ação de cada indivíduo, livre para buscar o alívio de seu próprio sofrimento, cooperando com os outros.
publicadaemhttps://mises.org.br/artigos/23389/a-politica-como-religiao-e-a-moral-do-ressentimento/





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