Jornalista Andrade Junior

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Uma reflexão sobre o poder do STF e da esquerda

 Fernando Barduchi


Há poucos dias, vimos ministros do STF encenando um teatro de quinta categoria, com performances não convincentes sobre qualquer preocupação com a ideia de justiça. O resultado, que ganhou tempo para Alexandre de Moraes, não foi nenhuma surpresa.

O que chama a atenção é a interessante estratégia de defesa. Ninguém realmente tentou defender Moraes no mérito. A defesa inteira consistiu em questionar se a denúncia seguiu o ‘processo’ que o próprio STF considera correto — o mesmo STF que, no interminável inquérito das fake news, passou por cima de qualquer resquício de devido processo legal. A votação de terça, inclusive, era importante, porque uma vitória de Moraes garantiria que a legalidade das ações de Mendonça e seu processo fossem julgadas juntas, o que ampliaria massivamente sua chance de isenção.

A reversão da condenação de Lula teve o mesmo roteiro. E, de um jeito geral, na Justiça brasileira, atacar o processo parece ser hoje um caminho mais eficiente para escapar de uma condenação do que provar inocência ou sequer levantar dúvida razoável.

A melhor defesa é o ataque

Além de esse aspecto dizer muito sobre a justiça brasileira e a sociedade brasileira em si, isso também demonstra uma excelente estratégia de se sobressair em uma batalha de narrativas. A melhor defesa é o ataque.

Esse é um padrão geralmente apresentado por pessoas narcisistas ou psicopatas quando confrontadas com alguma falha moral. Nessas situações, esse tipo de pessoa sempre irá inverter a culpa de alguma maneira e, em um confronto, colocará seu oponente na defensiva. Isso foi o que mais claramente vimos no voto de Gilmar Mendes, onde ele trata as ações de Mendonça como algum tipo de crime hediondo, sem nem sequer, por um segundo, considerar qualquer necessidade de defender Alexandre de Moraes ou o STF.

Uma lógica similar explica por que a direita está em desvantagem há décadas. Em seu ensaio O igualitarismo é uma revolta contra a natureza, Murray Rothbard aponta um péssimo hábito da direita moderna:

Já faz bem mais de um século que se tem considerado que a esquerda tem a moralidade, a justiça e o ‘idealismo’ do seu lado; a oposição conservadora tem se limitado a apontar a ‘falta de praticidade’ dos ideais da esquerda.

Uma visão corrente, por exemplo, é que o socialismo é fantástico ‘na teoria’, mas que não pode ‘funcionar’ na vida prática. O que os conservadores não perceberam é que, embora ganhos de curto prazo possam de fato ser obtidos ao se recorrer à falta de praticidade de desvios radicais do status quo, reconhecer que a ética e os ‘ideais’ pertenciam à esquerda destinava-os à derrota a longo prazo.

Afinal, se se concede a ética e os ‘ideais’ desde o início a um dos lados, então este conseguirá realizar mudanças graduais mas seguras em sua própria direção; e, à medida que essas mudanças se acumulam, o estigma da ‘falta de praticidade’ torna-se cada vez menos relevante.

Isso coloca a oposição às ideias de esquerda em uma natural posição de desvantagem, pois eles estão competindo nos mesmos princípios. Assim, o conservadorismo só pode frear pontualmente a ascensão da esquerda. O resultado final ainda será o igualitarismo, socialismo e tirania estatal, mas demorará mais para chegar no destino final.

Para retomar a ofensiva e ter alguma chance de reverter o poder do leviatã, do STF e da esquerda – que apesar de terem roupagens distintas, ainda estão todos nos levando pelo caminho da servidão – é necessário, ao mínimo, não deixá-los se apresentar como tendo qualquer superioridade moral.

Infelizmente, no Brasil, estamos muito longe de sequer perceber isso. Toda eleição presidencial demonstra muito bem o fenômeno de candidatos de direita sinalizando para a esquerda com medo de perder voto. O exemplo mais claro é o Bolsa Família — nenhum candidato de direita realmente se propõe a acabar com o programa, mas isso nunca impediu o PT de afirmar o contrário, e boa parte da direita cai na armadilha de ficar na defensiva justificando uma posição que nem defende.

O papel da hipocrisia

Nos últimos anos, o STF passou por cima de princípios básicos para prender opositores políticos — o próprio Moraes já utilizou o critério de que apagar mensagens do celular é uma forma de obstrução de justiça, e suficiente para condenar uma mulher. Um precedente que obviamente nunca se aplicou às próprias mensagens de WhatsApp que Moraes apagou em sua conversa com Vorcaro.

A esquerda construiu boa parte da sua narrativa reclamando do autoritarismo de regimes de direita, como Mussolini e Pinochet (sendo bastante discutível a ideia de Mussolini ser, de fato, de direita), enquanto ignorou ou justificou o totalitarismo comunista — como se os genocídios de Stalin fossem, de alguma forma, menos graves que os de Hitler, só porque buscavam “igualdade”, ainda que na cabeça de Hitler ele também estivesse apenas se livrando do grupo que ele via como opressor.

Na busca pelo poder, essa hipocrisia não é um problema a ser escondido — ela funciona melhor exatamente por nunca ser admitida de forma explícita. Ela reforça a mensagem de que as regras morais que a esquerda tenta impor não valem para ela mesma, sem nunca precisar dizer isso abertamente. É uma ferramenta perfeita de manipulação psicológica.

Considerações finais

A conclusão aqui não é que devemos aceitar hipocrisias na direita (aqui definida da maneira mais ampla possível, incluindo quaisquer grupos que se oponham à escalada totalitária que vivemos no Brasil, independentemente das inúmeras diferenças entre grupos dentro desse bolo), ou que devemos focar apenas no poder em si. Mas é importante nos atentarmos ao que nos levou a essa enorme posição de desvantagem na batalha de narrativas.

Na esfera política e na guerra de narrativas, não existe algo como o debate de ideias. Existe dominar a narrativa. E é isso que todos esses grupos estatistas conseguiram alcançar no último século, quando brilhantemente colocaram seus principais opositores em uma posição defensiva.

Para superar isso, devemos ao mínimo reverter a estratégia retórica de ficar na defensiva, e partir para a ofensiva. Não é possível conseguir qualquer ganho prático significativo se a direita seguir tentando dominar a narrativa seguindo os jogos da esquerda.

Obviamente, a esquerda tem a vantagem de já ter tomado as principais instituições, como mídia e educação, ainda nos anos 60, o que dificulta mais a vida da direita. No entanto, acredito que essas sejam mudanças práticas plausíveis para começarmos a tentar reverter a situação. A nossa vantagem é ter a verdade ao nosso lado, e não precisar apelar para truques sujos. Para atacar a esquerda, basta falar a verdade e não validar os ataques do outro lado. O debate de ideias contra a esquerda já foi vencido há muito tempo. O que resta hoje é a disputa pelo controle da narrativa.
















publicadaemhttps://mises.org.br/artigos/22564/uma-reflexao-sobre-o-poder-do-stf-e-da-esquerda/

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