Jornalista Andrade Junior

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

'A Copa da patrulha ideológica',

 por Silvio Navarro


A obsessão da esquerda por Bolsonaro e pela agenda 'progressista' ofusca o futebol dentro de campo


No último dia 24, o país inteiro parou no meio da tarde para assistir à estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo, em Doha, no Catar. A dez minutos do final da partida, o atacante Neymar precisou ser substituído por causa de uma lesão no tornozelo. Eufóricos com o placar vitorioso, muitos brasileiros não perceberam a gravidade da situação, até que um cinegrafista da TV Globo flagrou o craque do time chorando de dor do lado de fora do campo.

Horas depois do jogo, outra cena, captada pelo celular de um autor desconhecido, causou alvoroço nas redes sociais e ajudou a incendiar ainda mais o clima político no país. Num auditório improvisado no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), em Brasília, a equipe de Lula festejava a contusão do jogador. A imagem mais marcante é a da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, acenando com um “tchauzinho” para o camisa 10 aos prantos. Outros políticos aplaudiram. Sobraram sorrisos.

O motivo que levou os auxiliares de Lula a comemorarem o drama do principal atleta do time brasileiro é um só: Neymar declarou apoio à reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Chegou a participar de uma live na reta final da campanha. Ainda não se sabe se a gravidade da lesão o deixará fora do restante do Mundial — para o qual ele se preparou durante quatro anos. Segundo cronistas esportivos europeus, Neymar vive o auge de sua forma em campo. Mas para a esquerda brasileira, pouco importa: qualquer um que apoie Bolsonaro deve ser perseguido — ou “cancelado”, segundo o dicionário “progressista”.

O gesto abjeto de Gleisi e sua equipe também serviu como uma espécie de senha para uma ação dos novos MAVs (sigla criada pelo PT para Militância e Ambiente Virtual) contra Neymar nas redes sociais. “Novos” porque a denominação surgiu em 2011 para caçar jornalistas e personalidades públicas carimbadas como “inimigos de direita”. Mas, tempos depois, como os expoentes do partido foram varridos pela Lava Jato e Lula acabou trancafiado numa prisão gourmet, o núcleo passou anos esvaziado — até ser reativado na campanha presidencial pelo aloprado André Janones.

A velha imprensa que ‘fez o L’

Paralelamente ao caso, o noticiário esportivo no Brasil tinha duas missões: enaltecer a brilhante exibição do atacante Richarlyson, autor de dois gols — um deles “de placa”—, e sustentar que a lesão do camisa 10 poderia colocar fim à “Neymardependência”. Ou seja, era a oportunidade perfeita para os comentaristas que “fizeram o L” rifarem o apoiador de Bolsonaro da Copa. A escalação dos analistas esportivos no consórcio da mídia é bem conhecida.

Reprodução brasil247
Reprodução Yahoo Esportes
Reprodução UOL

O tratamento dado a Richarlyson foi completamente diferente. Destaque do jogo, ele foi celebrado pelo consórcio da imprensa como um defensor das grandes causas mundiais. O texto da abertura da reportagem do Jornal Nacional, da TV Globo, é infalível.

“O centroavante do Brasil em 2022 é aquele que levanta a voz contra o racismo, que defendeu a vacina e a ciência nos momentos mais difíceis, é quem protestou contra as queimadas na Amazônia e no Pantanal. É Richarlyson” (Jornal Nacional, TV Globo)

Reprodução CUT
Reprodução UOL

Copa de ‘todes’

Nem só da arquibancada anti-Bolsonaro vive a Copa. Tanto no Brasil como no restante do planeta paira a patrulha do politicamente correto sob os holofotes do Catar. Para a maioria dos cronistas “progressistas”, pouco importam as habilidades de um ponta-esquerda ou se determinado jogador já faturou títulos importantes em ligas europeias. O critério de avaliação é a bandeira que o atleta defende.

É evidente que alguns temas, como o combate ao racismo nos estádios, são fundamentais e que a tolerância com esse tipo de crime deve ser zero. Mas, por exemplo, uma imagem do elenco da Alemanha com a mão na boca, em sinal de censura, rodou o mundo. Tornou-se um dos cartões-postais da Copa. O motivo é porque os tetracampeões foram impedidos de ostentar a braçadeira de capitão com o símbolo do arco-íris no braço do goleiro Neuer.

Jogadores da Alemanha protestam em campo | Foto: Reprodução/Redes sociais

Mais uma vez: não se trata de discutir a importância da causa. Contudo, os popstars da crônica esportiva não pensaram nisso há dez anos? Ou naquela época ninguém atentou que a Fifa vendeu o torneio por US$ 220 bilhões para uma ditadura fundamentalista? Trata-se do Mundial mais caro da história — 20 vezes a mais do que custou a Copa na Rússia em 2018. São cifras que superam o PIB de muitos países participantes.

Enxovalhada por casos de corrupção na última década, tanto a Fifa como as confederações de futebol pelo mundo, como a brasileira CBF, venderam suas cotas de patrocínio para marcas que exploraram o politicamente correto em ações publicitárias pelo mundo. Resta a pergunta: nenhuma dessas marcas indignadas com a rigidez do Catar conhecia o regime vigente na sede da Copa 2022?

O fato é que as pautas que hoje predominam no noticiário esportivo não têm nada a ver com o que acontece dentro de campo. Talvez a explicação esteja nas novas gerações que tomaram as redações e as redes sociais. O consórcio da imprensa reclama da falta de cuidado com a covid no Mundial. Também da falta de “empoderamento feminino” no país-sede.

Tornou-se tarefa quase impossível encontrar comentaristas que tenham repertório histórico sobre as Copas ou que tenham estudado o desempenho dos atletas no último ano. Não se fala sobre os uniformes, mas sobram manchetes sobre o look dos treinadores e até das apresentadoras.

Reprodução Lance
Reprodução gshow
Reprodução UOL
Reprodução UOL

Para os amantes do futebol, na 22ª edição da Copa, quase não se fala sobre futebol.















publicadaemhttp://rota2014.blogspot.com/2022/12/a-copa-da-patrulha-ideologica-por.html 

 

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