Jornalista Andrade Junior

domingo, 7 de novembro de 2021

'A petulância dos revolucionários da linguagem',

 por Gabriel Kanner


 

Dois anos atrás é provável que você nunca tinha ouvido falar em linguagem neutra. Aos poucos, esses pequenos ataques à língua portuguesa foram se tornando cada vez mais frequentes, e agora há um enorme esforço para fazer com que essa variação do nosso idioma se normalize em nossa cultura. Quanto mais reflito sobre o tema, mais me impressiona o atrevimento dos defensores desta agenda, mascarada sob o eufemismo da “inclusão”. Para ilustrar esta petulância, vale um exercício.

Imagine que exista um movimento político que represente 0,6% da população. Após alguns anos fortalecendo sua militância, o movimento decide que a bandeira nacional deve ser reformulada, passando a adotar o branco e o vermelho como cores principais. A nova bandeira passa a ser vista em diferentes portais na internet e nos jornais. Inicia-se uma pressão cada vez maior para que todo o país adote o novo padrão. Quem se recusar a aceitar a mudança é taxado de preconceituoso e intolerante. Se há pessoas que se sentem representadas pela bandeira branca e vermelha, como pode alguém negar a elas o direito à inclusão?

Embora esse exercício pareça totalmente distópico, é muito similar com o movimento que estamos presenciando acerca da linguagem neutra. Assim como nossa bandeira, a Língua Portuguesa é um dos pilares da nação. É o que nos une como povo. É que nos torna brasileiros. A tentativa de reformular um pilar nacional para atender a uma pequena parcela da população é de um atrevimento ímpar. De acordo com o Williams Institute, 0,6% da população nos EUA se identifica como transgênero. Podemos considerar que o número no Brasil seja próximo disso. Mesmo com essa baixa representatividade, diversos setores da sociedade passaram a defender essa agenda nos últimos meses.

O mais novo agente a embarcar na revolução linguística é a Rede Globo. Claudia Souto, autora da nova novela “Cara e Coragem”, com estreia marcada para maio de 2022, anunciou que adotará a linguagem neutra no roteiro. Segunda ela, o público se adaptará bem à mudança. Ano passado, o tradicional colégio Franco-Brasileiro, no Rio de Janeiro, enviou um comunicado aos pais informando que passaria a adotar a linguagem neutra na escola. No texto, a direção pedagógica afirma que “a substituição da expressão ‘queridos alunos’ por ‘querides alunes’, por exemplo, passa a incluir múltiplas identidades sob a marcação de gênero em ‘e’.” Em julho deste ano, o próprio Museu da Língua Portuguesa resolveu embarcar nessa onda. Após ser atingido por um incêndio em 2015, o museu resolver ousar em sua comunicação para a reabertura. “Nesta nova fase do MLP, a vírgula — uma pausa ligeira, respiro — representa o recomeço de um espaço aberto à reflexão, inclusão e um chamamento para todas, todos e todes os falantes, ou não, do nosso idioma: venham, voltamos.”

Esses foram apenas alguns exemplos da batalha que está sendo travada no campo linguístico. A linguagem neutra visa a substituir o padrão da norma culta do português e desestruturar nossa língua falada e escrita. O avanço do progressismo já vinha acontecendo nas universidades, na imprensa, na classe artística e, mais recentemente, nas empresas, mas todos esses são campos de batalha com território delimitado. O movimento de trazer a guerra cultural para o campo que tem o maior contato possível com a sociedade — o próprio idioma da nação — é uma estratégia muito eficaz e bem elaborada. É a estratégia cultural de Antônio Gramsci sendo aplicada com maestria. Por isso é tão perigosa, e precisamos saber como combatê-la.

Portanto, caro leitor, enumero 4 razões para você se contrapor toda vez que se deparar com alguém utilizando linguagem neutra:

1 – É uma sabotagem da educação brasileira

Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes de 2018, 68,1% dos estudantes brasileiros com 15 anos de idade não possuem nível básico de matemática, 55% de ciências e 50% de leitura. O nível básico é o mínimo para que a pessoa consiga exercer plenamente sua cidadania. Estes números estão estagnados desde 2009.

Segundo o censo realizado pelo IBGE em 2010, 25% das crianças brasileiras terminaram a 4a série analfabetas, e apenas 29% dos jovens que concluíram o ensino médio sabiam português.

Como podemos querer impor drásticas alterações à estrutura gramatical da Língua Portuguesa diante deste cenário? A linguagem neutra é uma sabotagem pois tumultua e dificulta ainda mais o já caótico cenário educacional brasileiro.

2 – É excludente para crianças e adultos com deficiências físicas ou intelectuais

Muito ouve-se dizer que a linguagem neutra é importante pois é “inclusiva”. Essa afirmação é uma falácia completa. O exato oposto é verdadeiro; é uma linguagem extremamente excludente. Dezenas de milhões de brasileiros tem dificuldades físicas ou cognitivas, e a linguagem neutra, se dizendo inclusiva, afasta ainda mais essas pessoas do resto da sociedade.

Ela exclui crianças portadoras de deficiência intelectual ou distúrbios de aprendizagem, como a Disgrafia, distúrbio de escrita onde a criança apresenta dificuldades em escrever letras e números; a Dislexia, que causa dificuldade de leitura; a Discalculia, que causa dificuldade para entender conceitos relacionados a números, usar símbolos ou funções necessárias para o sucesso em matemática; o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), que causa desatenção, inquietude e impulsividade.

A linguagem neutra também exclui deficientes físicos. Segundo o censo de 2010, cerca de 10 milhões de brasileiros são surdos ou tem algum problema auditivo. A educação dos surdos, segundo nossa Constituição, deve ser bilíngue, com a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeiro idioma e a Língua Portuguesa como segundo. A linguagem neutra impõe, além da dificuldade física, mais um enorme obstáculo para pessoas com problemas auditivos adquirirem conhecimento da Língua Portuguesa. O mesmo acontece com a comunidade dos deficientes visuais, que utilizam o sistema de escrita tátil Braile para conseguirem ler.

O conhecimento da Língua Portuguesa é imprescindível para o exercício da cidadania. É de uma falta de sensibilidade sem precedentes a exclusão de milhões de brasileiros, que já têm dificuldades o suficiente, em nome de uma agenda ideológica.

3 – Não combate o preconceito

Outro argumento muito utilizado para defender a linguagem neutra é de que estaríamos “combatendo o preconceito” contra grupos LGBTQ. É também um argumento desonesto e falso. A adoção da linguagem neutra em nada contribui para a diminuição do preconceito, que está contido muito mais na intenção de quem fala do que na escrita de determinada palavra. Eu argumentaria ainda que a linguagem neutra provoca o efeito inverso. É algo tão distante da realidade da maioria dos brasileiros, que reduz a credibilidade dos grupos de militância LGBTQ+.

4 – É uma língua artificial, que não se baseia no desenvolvimento orgânico do idioma

Os defensores da linguagem neutra costumam dizer que os idiomas evoluem naturalmente; que a escrita e o sentido das palavras sofrem alterações com o tempo, e portanto a “evolução” para a linguagem neutra seria algo orgânico.

Segundo Napoleão Mendes de Almeida, gramático, professor brasileiro de português e latim e autor da “Gramática Metódica da Língua Portuguesa”, a Língua não é um artigo de fabricação, mas reflexo da formação, da história de um povo. É evidente que a Língua sofre alterações ao longo do tempo, mas isso ocorre de forma orgânica dentro de uma sociedade, através de um processo gradual e demorado. Não é o caso da linguagem neutra. Trata-se de uma linguagem artificial, que é aquela de nascimento forçado, calculado, que não tem o propósito de representar o povo de uma nação, mas de privilegiar um pequeno grupo em detrimento da maioria dos cidadãos brasileiros.

(*) Gabriel Rocha Kanner é formado em relações internacionais. É empresário e presidente do Instituto Brasil 200.


Revista Oeste

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicadaemhttp://rota2014.blogspot.com/2021/11/a-petulancia-dos-revolucionarios-da.html

 

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