Jornalista Andrade Junior

FLOR “A MAIS BONITA”

NOS JARDINS DA CIDADE.

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CATEDRAL METROPOLITANA DE BRASILIA

CATEDRAL METROPOLITANA NAS CORES VERDE E AMARELO.

NA HORA DO ALMOÇO VALE TUDO

FOTO QUE CAPTUREI DO SABIÁ QUASE PEGANDO UMA ABELHA.

PALÁCIO DO ITAMARATY

FOTO NOTURNA FEITA COM AUXILIO DE UM FILTRO ESTRELA PARA O EFEITO.

POR DO SOL JUNTO AO LAGO SUL

É SEMPRE UM SHOW O POR DO SOL ÀS MARGENS DO LAGO SUL EM BRASÍLIA.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Visitando Miriam Leitão

Visitando Miriam Leitão
Marco Antonio Esteves Balbi
Eu também era menino em cidade do interior quando ouvi no rádio a notícia sobre a fuga de Jango do Brasil. Fiquei muito satisfeito. Meu pai vivia assombrado pelo fantasma do desemprego e todos da família nos revezávamos nas filas para comprar os produtos da cesta básica de alimentos. Tudo isto virou passado.      
Estava se iniciando um tempo muito bom para mim. Estudei, concluí o ensino fundamental e me graduei na faculdade, mesmo que para isso, assim como provavelmente com você, tivesse que ir morar na cidade grande. Do mesmo modo como não me envolvi com a federação de estudantes secundaristas na minha cidade, deixei de lado a turma do diretório da faculdade. Afinal, só queriam era fazer política, não é verdade? Com você parece que foi diferente você chegou a pertencer a um daqueles grupos que pregavam o que mesmo? Vocês queriam mudar o que mesmo?

Mal me formei fui trabalhar, conheci minha mulher, nos casamos, tivemos nossos filhos e batalhamos por construir uma família. Éramos felizes, Míriam! Nossos amigos eram felizes! Nenhum jovem ou adulto jovem estava encurralado, Míriam! Só aqueles que procuraram organizações fora da lei, ou por ardor da própria juventude, ou catequizados por adultos espertos, aproveitadores, que se valeram da impulsividade e entusiasmo característicos desta fase da vida.      
Não há porque deixar de comemorar o que aconteceu há 49 anos, Míriam! Criaram uma comissão espúria que só vai ouvir um dos contendores! Sim, Míriam, contendores, porque os jovens retratados no parágrafo anterior partiram para uma guerra e quem tinha o poder do Estado foi para a luta. Nem tinham a experiência para fazê-lo, assim a adquiriram combatendo. A luta armada deflagrada pelos jovens orientados por marmanjos desajuizados não deixou outra opção. A não ser que entregassem o país, transformando-a numa grande Cuba!            
Posso anexar aqui uma lista semelhante a sua de pessoas vitimadas pelos atos terroristas desencadeados pelos jovens encurralados. E não me venha dizer que já foram processados e julgados, que não é verdade. Você sabe muito bem disto. Exemplo, o assassino de Edson Luiz, flanelinha no Calabouço, convenientemente transformado em estudante. Atribuíram a morte dele às forças policiais, quando na verdade o assassino dele veio a falecer no ano passado sem nunca ter sido sequer processado. Isto sem contar as pessoas que morreram apenas pelo fato de estarem no lugar errado na hora errada, vítimas do terrorismo indiscriminado. Ou os justiçamentos. Há farta literatura a respeito.        
 Aliás, você que tanto elogia o gênero, agora não é mais politicamente correto falar sexo, sei lá, prefiro continuar chamando de sexo feminino, disse que discutiram o assunto numa reunião da Comissão da Verdade. Julgaram Prestes, quando ele condenou Elza à morte? Você sabia que ela era menor de idade quando foi executada, não sabia? Bom, o partido do Prestes não mudou muito, não é mesmo, afinal abriga um espancador de mulheres em seus quadros!           
Enquanto a Panair pagou todas as dívidas trabalhistas depois que faliu por perseguição política(?), sorte dos seus funcionários, a ditadura obrigou a massa falida a fazê-lo(?), os defenestrados da VARIG amargam até hoje na espera dos seus direitos. Bom, mas esta história você conhece bem e sabe que foi a ditadura petista companheira que beneficiou outra empresa, não é verdade? Dona Rosa está preocupada?          
Miriam! Você venceu, apesar da ditadura pelo que eu entendi, que só teria lhe prejudicado, foi isso? Surpreendente, não é verdade? Depreendo que com muitas outras pessoas, em situação semelhante à sua, aconteceu o mesmo! Eu também venci, mas não me envolvi em nada e como sempre fui do bem, não tenho rancor algum. Posso contar tudo para os meus netos, também sou avô, sem problemas! Acho que você deve fazer o mesmo! E curar o seu amargor! Afinal, o Brasil não se transformou no que você pretendia! Pelo contrário, ficou um país muito melhor, ainda com problemas, mas muito melhor. Nossos netos vão viver num país melhor ainda!       
Como última sugestão: deixem os cadáveres de JK e Jango em paz!       
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 Sobre o mesmo assunto         
Mirian Leitão é sábia, ponderada, e vai, sempre com ímpeto, em busca da verdade, que escancara para todos. Se o assunto, entretanto,  é a Revolução de 64, Mirian mostra-se rancorosa, ácida e vingativa. Supondo que algum parente próximo de Mírian tenha sofrido injustiças e constrangimentos durante o governo militar, vou ao google e surpreendo-me. Surge, inicialmente, o nome de outra repórter, Mirian Macedo, que declara em seu blog que as duas Mírians, ambas repórteres, foram presas, e sem terem sofrido qualquer agressão física, declararam, após libertadas, que foram barbaramente torturadas. A blogueira só agora reviu a sua história; a Mirian Leitão, partícipe da AP, tendo apoiado os guerrilheiros do Araguaia, além de não ter feito a sua revisão pública, omite estes fatos passados, muito importantes para que avaliemos o valor dos seus escritos. É com estes atributos que quer pôr os militares no banco dos réus, quando tem uma história pessoal a expôr, mas não quer fazê-lo porque será desmascarada. Colegas consentem em protegê-la, por omissão, mas não serão publicamente solidários se revelados estes fatos. De algum artigo recente ficou-me na memória que ética é o que se faz quando todos estão vendo e caráter o que fazemos quando estamos sós. Hoje, na Folha de São Paulo, Ferreira Gullar, revela cruamente  os seus erros de avaliação do passado, embora continue crítico do regime militar. Meus respeitos ao poeta.          
 Ricardo M. Santos         
Rua Mal Floriano 53/201 Canela, Salvador-BA       071-33369910   
P.S. Sei que não há qualquer chance de publicação, ainda que a Mirian não seja sua articulista, mas talvez sirva para reflexão de todos da redação.

Piruetas no azul do céu

Piruetas no azul do céu
O Público lotou o calçadão do Pontão do Lago Sul para acompanhar a última apresentação deste ano da Esquadrilha da Fumaça a bordo das aeronaves A-27. Os pilotos passarão por treinamento em Pirassununga (SP) para estrear os modernos Super Tucanos         
ARTHUR PAGANINI ÉTORE MEDEIROS        
O calçadão à beira do Lago Paranoá, no Pontão do Lago Sul, ficou pequeno para a multidão que acompanhou a última apresentação do Esquadrão de Demonstração Aérea (EDA) — a Esquadrilha da Fumaça — com o modelo de aeronave Tucano T-27, da Embraer. Eram por volta das 16h quando os sete pilotos entraram em formação no campo aéreo da região, para a surpresa do público, que aguardava a série de demonstração com ansiedade.                     
 Diferentemente de outras ocasiões, quando um militar das Forças Armadas narrava as manobras em terra, ontem, toda a performance foi executada sem cerimônia oficial. A última apresentação durou cerca de 30 minutos e ficou marcada como uma despedida carinhosa aos 30 anos de operação dos T-27.         
 O servidor público Ernane Sátyro, 43 anos, aproveitou o domingo de Páscoa para levar o filho mais novo, Diogo, de 8, à apresentação. Pai de dois filhos, Ernane conta que sempre traz a família nas comemorações cívicas em que a Esquadrilha se apresenta. “Isso desperta interesse pelos símbolos nacionais e pela cidadania, o que é importante para as crianças nessa idade”, afirma. O filho também não escondeu o gosto pelas aeronaves e demonstrou conhecimento no assunto. “A Esquadrilha vai ficar sem se apresentar por um tempo, porque eles vão treinar com os novos aviões até se acostumarem”, informou.         
 Espírito cívico     
A chegada das sete aeronaves foi em rasante à beira do Lago Paranoá. Foram apresentadas algumas das mais tradicionais manobras do grupo, como o coração, o looping em leque, o looping com desfolhado e o DNA com duas voltas. Os pilotos chegaram em formação normal, com sobrevoo em formato de flecha.    
 Uma das primeiras manobras foi o looping com desfolhado, em que todos sobem juntos e, no momento de descida, separam em direções diferentes. Manobras de ponta cabeça também foram executadas para fascínio do público. Além dos rasantes, efetuados próximo à margem, a composição do coração foi uma das que mais chamou atenção.       
Esposa de um coronel da FAB, a dona de casa Myriam Müller, de 48 anos, destacou o espírito cívico como um dos principais fatores de atração do público às apresentações militares. “A bandeira, o hino e outros símbolos nacionais estão um pouco esquecidos nas escolas. Sempre instruo meus filhos a buscarem conhecimento sobre a nossa história, pois isso é o que forma o caráter do cidadão”, opina.       
Mas ela lamentou o período de adaptação das novas aeronaves pelos pilotos, o que vai suspender por cerca de nove meses as apresentações do grupo. “A Esquadrilha vai fazer falta, porque onde ela vai carrega multidões”,
 

A doce ilusão X A cruel realidade

A doce ilusão X A cruel realidade
 Gen Bda Rfm Valmir Fonseca Azevedo   
 Brasília, DF,        
Diante da possibilidade de os antigos agentes que atuaram na repressão serem convidados ou obrigados a comparecer perante os doutos membros da Comissão da Verdade, as opiniões são divergentes.
Divergentes, é claro, entre os que aplaudem ou simpatizam com o heroico papel daqueles cidadãos.        
Ambos os lados primam pela honestidade, pela retidão de caráter e pela verdade acima de tudo.      

 Contudo, uns acreditam piamente, que os agentes serão iluminados pela luz divina e como um passe de mágica, poderão trazer ao conhecimento publico o que de fato aconteceu.           
 Inocentes, preferem esquecer que os membros da Comissão foram escolhidos a dedo, e torcem para que, inexplicavelmente, eles sejam ungidos pela imparcialidade da justiça.       
Durante o seu depoimento, os seus acusadores ficarão calados e envergonhados e serão capazes de aventar a possibilidade de devolverem as polpudas indenizações que receberam.       
Sem duvida, será um momento de raro esplendor, pois toda a grandeza da verdade inundaria o salão com um arco - íris de beleza incomparável.    
 Após prestar suas declarações, os agentes seriam aplaudidos, copiosamente. Descobertos, os acusadores, cabisbaixos, deixariam o recinto o mais na moita possível.         
Segundo a imprensa, seria o final de um revanchismo quase que centenário. A Comissão seria extinta pelo clamor público.       
 Bem, o outro lado, mais realista, apoia - se no que vem acontecendo há décadas, uma implacável perseguição, nas vultosas indenizações já pagas aos terroristas, de que até o presente o tal de contraditório foi letra morta, no endeusamento de inúmeros assassinos, nos monumentos aos heróis da subversão,...         
 Estes estão convictos de que ao adentrar à sessão da Comissão os agentes estarão de fato ingressando num dos antigos aparelhos da subversão, e serão doutrinados até à pleura e incentivados ao arrependimento, e de que nada sofrerão caso reneguem a sua antiga função.      
 Estes pessimistas ou realistas acreditam que mestres na distorção do pensamento, artífices no embrulhar incautos procederão ao perguntório que massacrará os bem intencionados agentes.        
Estes, escolados com as CPMIs e CPIs que foram televisadas e redundaram em absolutamente nada, adivinham que neste palco, os agentes serão ridicularizados e desmoralizados, pois a cada declaração sua, uma enxurrada de ataques veementes desqualificarão as suas palavras. Por mais sinceras e verdadeiras que elas sejam.        
Esperamos que as divergências sejam meras especulações entre os veementes cultuadores da verdade acima de tudo e a qualquer preço, e os calejados e descrentes que olham com apreensão o que acontece aos nossos olhos e, por isso, alegam que pode predominar, conforme o desejo do freguês, a inverdade, a meia verdade acima de tudo e a qualquer preço, desde que pago pelos outros.        
Aqueles que acreditam que um dia o revanchismo terá fim, que a verdade assomará e derrotará a inverdade e a meia verdade, lamentamos, pois nada sinaliza que este dia chegará.      
  Infelizmente.    

PRIMEIRO DE ABRIL

ERA PARA SER UMA PEGADINHA DE PRIMEIRO DE ABRIL. O RUSSO CHAMOU A MÃE E DECIDIU DIZER A ELA QUE ELE ERA USUÁRIO DE HEROÍNA. VEJA SÓ A REAÇÃO DA MÃE..

Crescimento brasileiro pode ser ameaçado por fuga de cérebros

Crescimento brasileiro pode ser ameaçado por fuga de cérebros

Políticas públicas mal elaboradas, excessiva burocracia das universidades e dificuldades na emissão de vistos de trabalho são algumas das principais ameaças ao desempenho brasileiro na corrida global por cérebros. De acordo com a reportagem “A guerra global pelos talentos”, publicada pela revista “Exame” da primeira quinzena de abril, o Brasil tem um dos maiores déficits de mão de obra qualificada do mundo. Apenas 7% da população nacional entre 24 e 35 anos têm nível superior de formação. Estimativas mostram que a indústria brasileira tem 150 mil vagas ociosas para engenheiros.
Além do fenômeno da fuga de cérebros, quando os pesquisadores brasileiros deixam o país para fazer carreira em universidades dos países desenvolvidos como Estados Unidos, França e Japão, também sofremos com a baixa de estudiosos estrangeiros em solo nacional. Nos últimos cinco anos, apenas 2% dos 250 mil vistos concedidos a estrangeiros destinavam-se a profissionais com 17 anos de estudos, período equivalente a conclusão da pós-graduação.
Até mesmo a Argentina atrai mais estudantes norte-americanos do que o Brasil. Isso revela que, apesar de ter enviado 22 mil universitários ao exterior desde sua criação, em 2011, o programa de intercâmbio do governo Federal “Ciência sem Fronteiras” trouxe poucos profissionais de outras nacionalidades para o país. Para uma nação em desenvolvimento, como é o caso do Brasil, essa é uma constatação preocupante. Em um futuro próximo, a capacidade de atrair intelectuais será um dos principais fatores de vantagem competitiva dos países e é possível que o país fique atrás mais uma vez.
Oportunidades a vista
A inauguração de novos centros de pesquisa no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) como o laboratório da multinacional norte-americana General Electric e de outras 12 empresas como Siemens e Usiminas criam oportunidades inéditas para os profissionais do país. Ainda assim corremos o risco de empregar estrangeiros vindos dos países mais afetados pela crise econômica mundial, principalmente na Europa.

Confira os gráficos da mão de obra qualificada(fonte: Revista “Exame”)

Faz de conta

Faz de conta - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP -
Aprendizado de matemática piora do meio para o fim do ensino fundamental; país precisa de plano emergencial para formar mais professores


Quanto mais uma nação se mostra encantada com estatísticas, tanto mais se deve perguntar pela capacidade de seus dirigentes e do público para digeri-las e daí derivar um curso de ação. O Brasil, todos sabem, não é um país dado às contas -e poucas áreas deixam isso tão evidente quanto a educação.

Não lhe faltam, hoje, avaliações e indicadores a apontar a má qualidade do ensino. Os avanços obtidos -e os há- são incrementais, difíceis de perceber e de valorizar. As más notícias tendem a ganhar mais atenção, como as que vêm do ensino de matemática.

O buraco negro está no segundo ciclo do ensino fundamental (antigo ginásio). Resultados de 2011 da Prova Brasil -exame bienal realizado pelo governo da União- já haviam indicado algum progresso no primeiro ciclo do ensino fundamental e um desastre no ensino médio (antigo colegial).

No primeiro caso, 36% dos alunos do quinto ano (final do primeiro ciclo fundamental) demonstravam conhecimentos adequados de matemática, ultrapassando assim a modestíssima meta de 35% fixada pelo movimento Todos pela Educação. No terceiro ano do ensino médio, só 10% dos formandos tinham domínio satisfatório, muito aquém do objetivo (reles 20%).

Novo levantamento da organização, com base na mesma Prova Brasil, confirma agora algo que já estava implícito na comparação entre níveis de ensino num mesmo ano: à medida que progridem entre os níveis de escolaridade, o desempenho dos alunos piora.

Na Prova Brasil de 2007, 22% dos estudantes no quinto ano estavam bem em matemática. O mesmo contingente de alunos, ao terminar o nono ano em 2011, tinha só 12% de formandos com aprendizado satisfatório da matéria.

Em outras cifras, 88% deles chegaram ao nível médio sem competência para fazer contas de percentuais ou para interpretar gráficos -habilidades hoje demandadas até nos postos de trabalho de remuneração mais baixa na indústria, no comércio e no agronegócio.

São muitas as razões para esse fracasso, mas há certo consenso de que a deficiência maior está no lado docente. Não apenas a formação notoriamente precária dos professores, mas a pura e simples carência deles: só 45% dos mais de 145 mil docentes na disciplina tinham a habilitação necessária (licenciatura em matemática), segundo o Censo Escolar de 2007. Hoje se estima que o deficit da área seja de 65 mil professores.

Trata-se, já se vê, de uma emergência. Não basta um Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. O Brasil precisa pôr a mesma ênfase na matemática -para não se tornar um país de faz de conta.

De volta do futuro

De volta do futuro - RODRIGO CONSTANTINO

O GLOBO -
“Desesperado com tudo, eu ajustei minha máquina de volta para 2013, decidido a fazer o que estivesse ao meu limitado alcance para impedir um futuro tão maldito do meu país”



O ano é 2030. Cheguei aqui com minha DeLorean, na esperança de encontrar um país mais próspero e livre. Qual não foi minha surpresa quando dei logo de cara com uma enorme estátua de Lula!

Curioso, perguntei a um transeunte do que se tratava. Um tanto incrédulo com minha ignorância, o rapaz explicou que era a homenagem ao São Lula, ex-presidente e “pai dos pobres”. Havia uma estátua dessas em cada cidade grande do país. Afinal, tínhamos a obrigação de celebrar os 150 milhões de brasileiros incluídos no Bolsa Família.

Após o susto inicial, eu quis saber quem pagava por tanta esmola, e se isso não gerava uma nefasta dependência do Estado. O rapaz parece não ter compreendido minha pergunta. Disse que estava com pressa para entrar na fila do pão, e que seu cartão de racionamento ainda dava direito a uns bons cem gramas.

Em seguida, vi na televisão de uma loja um rosto conhecido, ainda que envelhecido. Era o ministro Guido Mantega! E pelo visto ele ainda era o ministro. Ele estava explicando o motivo pelo qual sua previsão de crescimento de 5% não se concretizou. A queda de 3% do PIB havia sido culpa da crise em Madagascar. Mas tudo iria melhorar no próximo ano.

Notei então o preço do aparelho de TV: 100 mil bolívares. Assustado, perguntei ao vendedor do que se tratava, explicando que eu era de fora. O homem disse que, em 2022, após a inflação chegar em 20% ao mês, o governo cortou três zeros da moeda. Pensei logo no bigodudo. Como isso não funcionou, o governo decidiu adotar o bolívar, moeda comum do Mercosul.

Descobri que os países “bolivarianos” chegaram a adotar o escambo, depois que suas respectivas moedas perderam quase todo o valor frente ao dólar. A moeda comum foi uma medida urgente, pois estava difícil efetuar as trocas. O criador de gado argentino precisava encontrar um produtor de soja brasileiro disposto a trocar o mesmo valor de gado por soja. Era um caos!

Levantei ainda alguns dados no jornal “Granma Brasil” (parece que o “controle democrático” da imprensa havia finalmente passado, e o governo se tornou o dono do único jornal no país). A inflação oficial era de “apenas” 30%, mas todos sabiam nas ruas que ela era ao menos o triplo disso. Um centenário Delfim Netto desqualificava os críticos do Banco Central como “ortodoxos fanáticos”.

Não havia mais miserável no Brasil, pois a linha de pobreza era calculada com base no mesmo valor nominal de 2010. Mas havia mendigos para todo lado. Um desses mendigos me pareceu familiar. Eu poderia jurar que era o Mr. X! Mas não poderia ser. Afinal, ele era um dos homens mais ricos do país, e tinha ótimo relacionamento com o governo. O BNDES era um grande parceiro seu.

Foi quando decidi ver que fim tinha levado o banco estatal. Soube que, após o décimo aumento de capital na Petrobras (que agora importava toda a gasolina vendida), e vários calotes dos “campeões nacionais”, o BNDES tinha se unido ao Banco do Brasil e à Caixa, esta falida nos escombros do Minha Casa Minha Vida, para formar o Banco do Povo. O símbolo era uma estrela vermelha.

O Tesouro já tinha injetado mais de US$ 2 trilhões no banco, para tampar os rombos criados na época da farra creditícia. Especialistas gregos foram chamados para prestar consultoria.

Com fome, procurei um restaurante. Todos eram muito parecidos, e tinham a mesma estrela vermelha na entrada. Soube então que era o resultado de um decreto do governo Mercadante em 2018. Em nome da igualdade, todos os restaurantes teriam que fornecer o mesmo cardápio pelo mesmo preço. Frango era item de luxo, e custava muito caro. Continuei faminto.

Veio em minha direção uma multidão de mulheres desesperadas protestando. Quis saber o que era aquilo, e me explicaram que, em 2014, quase todas as empregadas domésticas perderam seus empregos por causa de mudanças nas leis. Havia ficado proibitivo contratá-las. Desde então, elas vagam pelas ruas protestando e mendigando, sem oportunidades de emprego. “O inferno está cheio de boas intenções”, pensei.

Um rebuliço começou perto de mim, e uma tropa de choque surgiu do nada e arrastou um sujeito até a cadeia. Descobri que ele foi acusado de homofobia e enquadrado na Lei Jean Willys, pegando 10 anos de prisão por ter dito abertamente que preferia um filho heterossexual a um filho gay. A pena foi acrescida de 2 anos pelo uso do termo gay, em vez de “homoafetivo”.

Desesperado com tudo, eu ajustei minha máquina de volta para 2013, decidido a fazer o que estivesse ao meu limitado alcance para impedir um futuro tão maldito do meu país.

E a casa ficou grande

E a casa ficou grande - JOSÉ HENRIQUE MARIANTE

FOLHA DE SP -

SÃO PAULO - A professora de direito do trabalho explica que o Congresso foi populista e que a relação entre patrão e empregada doméstica tem que ser diferente das demais. A lógica é que o lucro, a mais-valia marxista, inexiste como objetivo em tal relação. Assim, por natureza, precisa ser regida de outra forma.

Mas, se não há lucro nessa relação, por que investimos nisso? Por que doamos parte do salário, uma fração da casa e, vá lá, aquele cozido que sobrou, muito bom, mas que ninguém vai comer? Provavelmente porque não queremos limpar o banheiro, porque alguém precisa ficar com as crianças, porque fizemos a conta e, dada a diferença entre o que ganhamos por uma hora de trabalho versus o que pagamos para elas pela mesma hora, vale a pena. Não há lucro?

Se há, ele está minguando no bolso da classe média, a original, não a que se forma à força com crédito e consumo neste momento. Essa estreita faixa de gente, mais educada e esclarecida, sempre ansiou por um país mais justo, moderno e melhor. Esse dia chegou, só que de maneira bem diversa da imaginada.

Antes sozinha no elevador e capaz de, com alguma sorte, alcançar o botão do andar de cima, a classe média se viu de repente cercada de gente na cabine. Sem forças para atravessar a multidão e descer no andar desejado. Às vezes com chance de descer apenas no de baixo.

O Brasil atual é especialmente cruel para essa turma. O aclamado pleno emprego é uma ameaça, as linhas de financiamento não se encaixam, o dinheiro no banco vira pó. E, cada vez mais distante do antes visível mundo dos ricos, que agora prefere "mirar" a classe C, vê-se imaginando como será viver nesse universo que causa ojeriza. Que lota aeroportos e hospitais privados antes vazios, que tem crédito para comprar carro e não sabe dirigir, que tem cota na universidade. Que vota.

Acostume-se. Invista no detergente mais caro, que não estraga as mãos.

Realidade

Realidade - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP -

O PT anunciou a realização de seminários para "construir uma narrativa própria" sobre os seus dez anos à frente do governo federal. É uma excelente oportunidade para um acerto de contas com a verdade.

Estou entre aqueles que acreditam que a política deve ser exercida com generosidade, reconhecendo, inclusive, as conquistas dos "adversaries". É uma pena que o pragmatismo muitas vezes acabe por prevalecer e a história passe a ser contada com os recursos da mistificação, quando não da fraude factual.

Ao longo de sua trajetória, os petistas buscaram se apropriar da bandeira da ética. Com o advento do mensalão, que explicitou o enorme abismo existente entre o discurso e a prática do PT, sob a regência do marketing, voltam agora a reivindicar o monopólio sobre as ações no campo social, até como tentativa de esmaecer suas graves e irremediáveis contradições.

É nesse contexto que devem ser compreendidos os excessos representados pela milionária campanha publicitária, para informar ao país que a miséria acabou, e pela declaração da presidente Dilma de que o PT não herdou nada, iniciativas que geraram constrangimentos até entre membros do governo e do partido.

Há, no entanto, cada vez menos espaço para esse tipo de manipulação. É o que mostra, por exemplo, estudo de grande reputação internacional feito pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Trata-se do relatório 2013 sobre a evolução do IDH.

Na página 74, ele informa: "Quando começou a transformação do Brasil num Estado orientado para o desenvolvimento (cerca de 1994), já o governo havia implementado reformas macroeconômicas para controlar a hiperinflação através do Plano Real". Sobre educação, na página 82, é ressaltada a importância da criação do Fundeb, em 1996.

O começo do Bolsa Família aparece de maneira inequívoca na página 87: "O Brasil reduziu a desigualdade introduzindo um programa para a redução da pobreza. O seu programa de transferência condicionada de rendimentos, Bolsa Escola, lançado em 2001, (...) em 2003 foi alargado ao programa Bolsa Família por via da fusão de vários outros programas num único sistema".

O relatório nos permite concluir que foram grandes virtudes dos governos petistas a manutenção e a expansão de iniciativas legadas pelo PSDB.

Os programas sociais brasileiros precisam continuar. Mas, em respeito aos beneficiados, precisam avançar para além da gestão diária da pobreza. Isso significa agregar à importante dimensão da proteção social a da verdadeira emancipação dos cidadãos atendidos.

O Brasil tem ainda um longo e duro caminho a percorrer. Falsear a realidade com slogans e frases de efeito não o tornará mais fácil.

O que os homens esperam das mulheres

O que os homens esperam das mulheres - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA

Tenho a impressão de que eles gostariam apenas que elas parassem de reclamar deles


"Talvez os homens sejam realmente mais básicos ou tenham expectativas mais reais. De minha parte, espero sobretudo que minha mulher me ame, seja companheira, leal, que me motive a andar para a frente, e que sejamos felizes juntos.”

Reproduzo acima o que ouvi de um amigo após a edição da revista ÉPOCA com um especial dedicado a 50 anos de feminismo. O título era “O que as mulheres esperam dos homens”. Em 1963, a mulher tentava escapar da armadilha de mãe doméstica, submissa e dependente, sem direito a divórcio. Era a pré-história da pílula anticoncepcional.

Hoje, meio século depois, me incomoda a maneira como meninas e meninos são educados pelas mães e pelos pais. A menina, desde que nasce, é “a princesinha”. Veste rosa, pinta as unhas e faz festa de castelo encantado. De tanto ouvir que é princesa, desejará um príncipe mais tarde. O menino é tratado como um super-herói, um durão. Seu nome raramente é falado no diminutivo em casa. Mimamos a “Flavinha” e estimulamos o “Paulão”. Por que a família e a escola perpetuam esses papéis e o desencontro na vida adulta?

Como o homem costuma falar menos e ocupa as posições de poder, a mídia relega os machos a um segundo plano. Isso até os favorece, porque não são tratados como um bloco homogêneo. Segundo estudos, a mulher fala 20 mil palavras por dia, e o homem 7 mil. O triplo, será? Para alguns especialistas em linguagem, isso não passa de mito. Se levarmos a generalização ao extremo, os assuntos favoritos costumam ser diferentes.

“Homem fala de futebol e mulher. Mulher fala, fala, fala...De empregada, filhos, sapatos, bolsas, cabelos, homens.” Esse é o comentário de um amigo poeta e provocador. Perguntei o que ele espera de uma mulher. “Que seja inteligente, sedutora, não fale muito e seja boa de cama.” Machista ou básico? Também prefiro homens que não sejam tagarelas e apreciem a cama não só para dormir. Mulheres que se queixam de falta de preliminares devem perguntar-se: eu me debruço sobre o corpo de meu parceiro ou fico deitada aguardando carinhos? Mãos à obra, moças.

Reportagens sobre gêneros costumam concluir que “eles” estão confusos, perdidos e precisam de uma revolução, já que “elas” fizeram a sua. Será que os homens concordam? Duvido. Tenho a impressão, nada científica, de que os homens gostariam apenas que as mulheres parassem de reclamar deles o tempo todo. Ou reclamam deles ou da falta deles.

“As mulheres nunca parecem satisfeitas com nada. Se eles fazem o lanchinho do bebê, elas acham que não fazem direito. Se buscam o filho na escola, ah... por que não corrigiram o dever de casa? Uma lamúria sem fim”, disse uma amiga minha, mãe e profissional bem-sucedida, após ler ÉPOCA. “Acho as mulheres muito chatas. E os homens, à medida que vão se parecendo mais com as mulheres, ficam também cada vez mais chatos.”

Perguntei a um amigo, separado, pai de adolescentes e recém-casado novamente, como ele se sente. “De fato, é muito difícil ser esse macho ideal, que mata um leão por dia no trabalho e ainda precisa levá-la para jantar, cortejá-la, diverti-la e comê-la ardorosamente”.

O que a mulher espera de um homem mudou pouco. Encontrei, num mercado do Brooklyn, em Nova York, um cartão-postal de 1941 sobre “your ideal love mate” (seu amor ideal). A imagem é de um homem de cabelos bem cortados e gravata – bem parecido com o da capa de ÉPOCA. A descrição: “O companheiro ideal é um homem com coração grande, caloroso. Impulsivo, mas com profundo senso de valores. Assume riscos, mas não riscos tolos. Encara suas responsabilidades sem hesitar, é honesto e gentil. Tem um talento real para aproveitar a vida e ajuda sua mulher a aproveitar a dela”. Esse perfil tem mais de 70 anos. Semelhante ao de agora?

O homem deseja o mesmo de sua mulher. Indagado sobre o segredo de 50 anos de casamento com a mesma mulher, tema de um de seus livros, o escritor americano Gay Talese respondeu: “Paciência e bom sexo”. Concordo. De ambos os lados. O ponto alto do especial de ÉPOCA é a entrevista com a socióloga americana Stephanie Coontz. O feminismo do século XXI é sobre defender pessoas e não gêneros. Há quem acredite na besteira de que o mundo é diferente quando dirigido por mulheres. Não sei onde.

A melhor pergunta hoje – especialmente quando vemos o mala do pastor Feliciano agarrado à função insustentável de defensor de direitos humanos – seria: “O que as pessoas esperam das pessoas?”. Que não sejam hipócritas é um bom começo
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segunda-feira, 1 de abril de 2013

Tem boi na linha e no anzol

Tem boi na linha e no anzol - GIL CASTELLO BRANCO

O ESTADO DE S. PAULO -

A Bíblia conta sobre a multiplicação dos pães e dos peixes. Na Galileia, Jesus pregava para uma multidão quando anoiteceu e se aproximou o horário do jantar. Diante da preocupação dos seus discípulos, Jesus chamou um menino que tinha à mão um cesto com cinco pães e dois peixes e orientou seus apóstolos a distribuir esses alimentos. O milagre permitiu que mais de 5 mil pessoas fossem alimentadas.

No Brasil, a multiplicação das últimas décadas não foi a dos pães ou a dos peixes, mas, sim, a dos pescadores, por meio do seguro-defeso, existente desde 1991. Para preservar espécies, o governo paga um salário mínimo aos pescadores artesanais por tantos meses quanto dure a reprodução, em áreas definidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Normalmente, o benefício é pago por quatro meses. Aos interessados basta comprovar o exercício profissional da pesca, a inscrição no INSS e que não tenham outro emprego, bem como qualquer outra fonte de renda.

Seja pela consciência ambiental, seja pela renda fixa e fácil, o número de beneficiados cresceu exponencialmente. Em 2002, eram 91.744 os favorecidos. Em 2011 já eram mais de meio milhão. Há dois anos, exatamente 647.670 pessoas já afirmavam viver tão somente da pesca, individual ou em regime de economia familiar, fato que lhes assegurava o direito de receber o valor de um salário mínimo mensal, durante o período de defeso.

Os gastos do governo, obviamente, cresceram na mesma proporção. Em 2002, o Ministério do Trabalho pagou R$ 60,2 milhões a título de seguro-desemprego aos pequenos pescadores. Em 2012, os pagamentos chegaram a R$ 1,9 bilhão. Neste ano, a dotação do Orçamento-Geral da União é de aproximadamente R$ 2 bilhões. O montante corresponde ao triplo dos R$ 630 milhões orçados em 2013 para o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). O valor bilionário pago com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador é também quatro vezes maior do que as exportações brasileiras de pescado em 2012, que geraram cerca de R$ 500 milhões. Os números são tão estranhos que parecem "história de pescador".

Nos dois últimos anos, os Estados do Pará, Maranhão e Bahia lideraram os recebimentos do seguro-defeso, tendo São Paulo ficado em 15° lugar, pouco à frente do Rio de Janeiro, na 17ª colocação. Enquanto no Pará os pagamentos atingiram R$ 905 milhões, em São Paulo somaram R$ 63,8 milhões. O município paulista campeão foi Iguape, onde os pescadores receberam R$ 7,3 milhões, mais do que o dobro dos R$ 2,6 milhões desembolsados por cidade em favor dos que vivem da pesca em Panorama e Presidente Epitácio. No Guarujá, o 4° colocado, foram pagos R$ 2,5 milhões. Conforme cadastro da Controladoria-Geral da União (CGU), até em Brasília existem cinco pessoas que receberam juntas R$ 11.784,00 em razão do bolsa-pesca.

Alguns fatos explicam o crescimento vertiginoso das despesas. O benefício estar atrelado ao salário mínimo - com evolução real significativa - é uma delas. Merecem também destaque as disposições legais que reduziram o tempo exigido de registro como pescador artesanal para a obtenção do benefício e dispensaram a obrigatoriedade da inscrição em colônias de pescadores. Paralelamente, o número de inscritos no Registro Geral da Atividade Pesqueira cresceu de forma alucinante. Em 2003, o cadastro tinha pouco mais de 85 mil inscritos e, em 2012, o número superou 1 milhão de inscrições. Em menos de dez anos, a variação da quantidade de registros atingiu 1.125%. É claro que tem boi na linha e no anzol.

As fraudes surgem como um tsunami. Em 2011, a própria CGU já havia constatado 60,7 mil pagamentos irregulares, cuja soma alcançava R$ 91,8 milhões. Em 2012, a Advocacia-Geral da União no Ceará apurou que existiam pescadores cadastrados em colônias que nem sequer residiam nas respectivas cidades e não tinham a pesca como atividade principal. Em Santa Catarina, no município de Tubarão, espertalhões que atuavam em outras atividades e nunca viram um peixe na vida se inscreviam nas associações de classe, pagavam anuidades, contavam tempo de serviço e se aposentavam. O procurador da República Celso Três processou mais de 300 pessoas por fraudes, e ainda assim disse: "É como secar um oceano".

Aliás, o Ministério Público (MP) já abriu ações penais no Amazonas, Maranhão e em vários outros Estados. No mês passado, investigações da Polícia Federal (PF) em Minas Gerais identificaram que fazendeiros, políticos, comerciantes e até um pastor dono de clínica de reabilitação em Belo Horizonte recebiam a bolsa. Os inquéritos devem se transformar em processos por estelionato.

Como o que está ruim sempre pode piorar, há vários projetos de lei no Congresso Nacional que pretendem ampliar o benefício. Dentre eles, por exemplo, os que tratam de estender o seguro-defeso aos pesqueiros impedidos de exercer a atividade por causa das condições climáticas e, ainda, a toda a cadeia da pesca, incluindo os que transportam, comercializam, reparam embarcações e costuram redes. Outras propostas cogitam beneficiar os catadores de mariscos, caranguejos, siris e guaiamuns. A idéia mais curiosa é a que concede a bolsa-pesca mesmo àqueles já contemplados pelo auxílio-doença.

Há cerca de 20 dias, o Tribunal de Contas da União divulgou acórdão analisando os fatores que contribuíram para o incremento das despesas e anunciou auditoria no MPA para avaliar a eficácia dos controles internos referentes à concessão do benefício.

Ao contrário da passagem bíblica, fato que a religiosidade explica, é extremamente necessário que os órgãos de controle, a PF, o MP e a própria Justiça investiguem, de forma sistêmica, as fraudes generalizadas relacionadas à multiplicação dos pescadores, que exalam politicagem e má-fé.

Medicina da morte

Medicina da morte - CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O GLOBO -


Título forte, polêmico? Não, caro leitor. É a expressão concreta do sentimento de milhões de brasileiros diante de recente proposta feita pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para a liberação do aborto até a 12.ª semana de gestação. O presidente do CFM, Roberto D'Ávila, na defesa de uma decisão que está em rota de colisão com a ética médica, esgrime argumentos que não param em pé: "Vivemos em um Estado laico. Seria ótimo que as decisões fossem adotadas de acordo com o que a sociedade quer e não como o que alguns grupos permitem". A estratégia de empurrar os defensores da vida para o córner do fundamentalismo religioso já não cola.

Um embrião e um feto (e querem promover o aborto no terceiro mês da gravidez) são também pessoas, tanto do ponto de vista científico como filosófico. É falsa a afirmação de que o feto faz parte do corpo da mãe e que a mãe pode abortar por ter direito sobre o seu próprio corpo. Na verdade, a mãe é a hospedeira, protetora e nutriz de um novo ser diferente dela, um outro indivíduo. Biologicamente, o ser que está aconchegado no seio da mãe é idêntico ao que estará sentado no seu colo com 3 meses ou à mesa com ela quando tiver 15, 20 ou 50 anos de idade. O embrião é distinto de qualquer célula do pai ou da mãe; em sua estrutura genética, é "humano", não um simples amontoado de células caóticas; e é um organismo completo, ainda que imaturo, que - se for protegido maternalmente de doenças e violência - se desenvolverá até o estágio maduro de um ser humano.

Aprovar a autorização legal para abortar, como bem comentam os filósofos Robert P. George e Christopher Tollefsen em seu livro Embryo: a Defense of Human Life, é dar licença para matar uma certa classe de seres humanos como meio de beneficiar outros. Defender os direitos de um feto é a mesma coisa que defender uma pessoa contra uma injusta discriminação - a discriminação dos que pensam que há alguns seres humanos que devem ser sacrificados por um bem maior. Aí está exatamente o cerne da questão, que nada tem que ver com princípios religiosos nem com a eventual crença na existência da alma.

Hoje o que está sendo questionado não é tanto a realidade biológica, inegável, a que acabo de me referir, é coisa muito mais séria: o próprio conceito de "humano" ou de "pessoa". Trata-se, portanto, de uma pergunta de caráter filosófico e jurídico: quando se pode afirmar de um embrião ou de um feto que é propriamente humano e, portanto, detentor de direitos, a começar pelo direito à vida?

O desencontro das respostas científicas - evidente - acaba deixando a questão sem um inequívoco suporte da ciência. Fala-se de tantos dias, de tantos meses de gravidez... E se chega até a afirmar, como já foi feito entre nós, que só somos seres humanos quando temos autoconsciência. Antes disso, só material descartável ou útil para laboratório. Mas será que um bebê de 2 meses ou de 2 anos tem "autoconsciência"?

Perante essa perplexidade, é lógico que se acabe optando pelo juridicismo. Cada vez mais, cientistas e juristas vêm afirmando que quem deve decidir o momento em que começamos a ser humanos e, em consequência, a ter direito inviolável à vida é a lei de cada país. E é isto que querem fazer: embutir o aborto na reforma do Código Penal. Ora, essas leis, por pouca informação que se tenha, variam de um país para outro e dependem apenas - única e exclusivamente - de acordos, do consenso a que chegarem os legisladores. Em muitos casos, mais que uma questão de princípios, decidir-se-á por uma questão de pressões, ou por complexos comparativos, isto é, pelo argumento de que não podemos ficar atrás dos critérios legais seguidos pelos países desenvolvidos. Mas nem pressões nem complexos parecem valores válidos para decidir sobre vidas humanas.

Quanto ao "consenso por interesse", é útil recordar que fruto dele foi a legislação que durante séculos definiu uma raça ou um povo como legalmente infra-humanos e, portanto, podendo ser espoliados de direitos e tratados como "coisas", também para benéficas experiências científicas: caso do apartheid dos negros na África do Sul e dos judeus aviltados e trucidados pela soberania "democrática" nazista.

O juridicismo, hoje prevalente, equivale a prescindir de qualquer enfoque filosófico e naufragar nas águas sempre mutáveis do relativismo. Nada tem um valor consistente, tudo depende do "consenso" dos detentores do poder, movidos a pressões de interesses. Mas se é para falar de consenso democrático, todas as pesquisas, sem exceção, têm sido uma ducha de água fria na estratégia pró-aborto. O brasileiro é contra o aborto. Não se trata apenas de uma opinião, mas de um fato medido em sucessivas pesquisas de opinião. O CFM, representando uma minoria, está promovendo uma ação nitidamente antidemocrática.

Não obstante a força do marketing emocional que apoia as campanhas pró-aborto, é preocupante o veneno antidemocrático que está no fundo dos slogans abortistas. Não se compreende de que modo obteremos uma sociedade mais justa e digna para seres humanos (os adultos) com a morte de outros (as crianças não nascidas).

Além disso, não sei como o Conselho Federal de Medicina consegue articular sua proposta pró-aborto com o juramento hipocrático. A posição da atual diretoria desse conselho, tal como amplamente veiculada pelos meios de comunicação, não parece condizer com o compromisso sobre o qual todos os médicos, velhos ou novos, algum dia juraram. Não creio que o CFM represente o pensamento daqueles que, um dia, prometeram solenemente empenhar sua profissão, seu saber e sua ciência na defesa da vida.

De gregorianos a felicianos

De gregorianos a felicianos - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S.Paulo -

Tratada como remendo eleitoral, a reforma da política está se encaminhando para, na melhor das hipóteses, acabar num fetiche gregoriano: uma mexida de calendário para valer daqui a 10 anos. No pior cenário, a maior interessada, a sociedade, perderia o direito de saber quem financia quem no jogo político-eleitoral.

Depois de muitas reuniões inconsequentes, os líderes partidários concordaram que são incapazes de chegar a acordo sobre a pretensa reforma política. O impasse vai ser decidido no voto na próxima semana - se os nanicos deixarem. Caso PRs e PSCs da Câmara permitam, os deputados devem votar um par de emendas à Constituição e um ou dois projetos de lei sobre o tema.

Presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) escreveu em seu Twitter que "coincidência de eleições municipais e federais no mesmo ano foi o ponto de maior consenso entre os líderes". Por "maior consenso", entenda-se menor dissenso.

Nem todos acham boa ideia dar seis anos - e não quatro - de mandato aos prefeitos que vierem a ser eleitos em 2016. Mas é o jeito para que todas as eleições passem a coincidir a partir do longínquo ano de 2022 sem que haja prefeitos-tampão ou, ainda pior, prorrogações de mandato sem consulta ao eleitor.

Sempre à frente de seu tempo, nossos representantes também divergem sobre a conveniência de incluir na mesma urna até oito votações diferentes: vereador, prefeito, deputado estadual, deputado federal, dois senadores, governador e presidente. Tantas digitações requereriam aulas de piano para o eleitor.

Há quem proponha que a coincidência de eleições se limite ao ano. As votações ocorreriam em datas distintas: para presidente, senadores e deputados federais em - digamos - setembro, e para vereadores, prefeitos, deputados estaduais e governadores um mês depois. Brilhante e econômica solução.

Não importa que os custos sejam dobrados ou que o segundo turno de uma eleição coincida com o primeiro turno da seguinte. Com quatro meses perdidos entre propaganda eleitoral, duas eleições e dois segundos turnos, daria para emendar todo o processo eleitoral com Natal, Copa do Mundo, Semana Santa, carnaval e decretar um ano facultativo. Faria pouca diferença no Congresso.

Outra das emendas é daquelas inutilidades pomposas que os parlamentares se esmeram em aperfeiçoar: para não mais atrapalhar suas viagens de réveillon, querem adiar a posse de prefeitos para 5 de janeiro, de governadores para 5 dias depois, e de presidente para o dia 15. A não coincidência de datas é para poderem ir às cerimônias e festas uns dos outros, é claro.

Depois que essas mudanças constitucionais de primordial importância forem votadas, os deputados finalmente poderão se dedicar ao que mais lhes preocupa: o dinheiro - ou como farão para financiar suas campanhas. O debate é se usarão mais do seu, do meu, do nosso, e se doações de empresas e pessoas continuarão sendo de conhecimento público ou se serão camufladas.

Fundo Perdido. Ironicamente chamada de "financiamento público exclusivo", a proposta petista que deve ir à votação prevê que todas as campanhas eleitorais sejam bancadas por um fundo único. Esse fundo receberia dinheiro do Tesouro Nacional e - a despeito do nome - de empresas e pessoas. O dinheiro seria dividido entre os partidos na proporção dos votos recebidos na eleição anterior. É o chamado fundo perdido.

O brilhantismo da proposta é acertar duas conveniências com uma penada só. Ao privilegiar três de cada quatro reais às campanhas de quem já manda, assegura-se grande vantagem aos incumbentes. Ao misturar tudo em um fundo só, ocultam-se as doações de empreiteiras, bancos e quem quer que seja aos candidatos.

Os partidos que têm as maiores bancadas parlamentares teriam também os maiores repartes financeiros, perpetuando-se no poder. Por mero acaso, o PT tem o maior número de deputados federais. Com as novas prefeituras ganhas em 2012, mais petistas devem eleger-se para a Câmara e Assembleias em 2014, o pleito que serviria de referência para o novo sistema. Muito conveniente.

Se sobrar tempo, os deputados devem votar uma proposta que - essa sim - poderia eliminar boa parte dos vícios que consomem o sistema partidário brasileiro: o fim das coligações nas eleições de deputados e vereadores. Sem esse artifício, partidos nanicos e partidos fisiológicos perderiam sua carona para o poder.

É coligando-se a outras siglas que os nano partidos garantem suas vagas na Câmara. Sem os votos dos coligados, o PSC elegeria 7 em vez de 16 deputados federais - e não teria peso para fazer o pastor Marco Feliciano tornar-se presidente da Comissão de Direitos Humanos. Mas, na lógica dos deputados, isso é menos importante do que dar um tapa no calendário eleitoral.

O CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA ... QUEM DIRIA!

Percival PugginaNão é que o CFM decidiu recomendar ao Senado Federal a ampliação dos casos em que o abortamento não é punido? Tais excepcionalidades, propôs o Conselho, passariam a abranger, também, os realizados em gestações que não tenham alcançado o 12º semana.
Quer dizer, doutores, que até o 12º semana o feto é coisa descartável, que se extrai como uma verruga ou um fecaloma? Sabiam que o anteprojeto para o novo Código Penal, que os senhores querem estragar ainda mais, pretende pôr na cadeia por até quatro anos quem modificar um ninho de ave? Sabiam que existem leis no Brasil que impõem sanções a quem meter a mão no ambiente natural onde determinadas espécies se reproduzem ou cuidam de seus filhotes? Um canto de mato, uma beira de lagoa, um trecho de praia, funcionam como úteros da natureza e ganham proteção legal. Em contrapartida, na ótica dos médicos do CFM, o nascituro, o humano nascituro porque outra natureza jamais lhe advirá, este pode ser, no útero materno, objeto de suas tesouras e aspiradores. Foram necessários, segundo li, dois anos de doutas confabulações para que os membros do CFM chegassem a tamanho despropósito.

Certa feita, num programa de tevê, debatia-se sobre legalização do aborto. Participava do debate um conhecido médico de Porto Alegre que defendia a tese ora aprovada pelo Conselho de sua categoria. Num dado momento, pedi ao mediador que exibisse as fotos da menina Amillia Taylor, nascida com 284 gramas de peso num aborto espontâneo. Perguntei então ao médico se ele seria capaz de arrancar aquele ser aos pedaços do útero da mãe. O médico olhou-me com constrangimento e, diante das câmaras, viu-se obrigado a ser sincero - "Eu não!".

O que mais me estarreceu, nesta manifestação do CFM, foi que, pelas palavras do seu presidente, o órgão "defende a plena autonomia da mulher de levar uma gestação adiante". Credo! Essa sequer é uma lógica médica, mas jusfilosófica, e de péssima vertente. Lógica de lobo. Quero porque quero. Atribuíram à mulher uma concepção abusiva do direito de propriedade - "faço o que bem me apraz com o que me pertence, doa em quem doer". Raros liberais afirmariam isso com igual convicção porque contradiz elementares noções de justiça. No caso do abortamento voluntário, o que antes era precária filosofia, vira puro sofisma: se o corpo da mulher a ela pertence, o do feto pertence ao feto porque ele é um inteiramente outro. E na maior parte dos casos até nome próprio já tem.

"O sistema nervoso central ainda não se formou, na 12ª semana de gravidez", prosseguiu o doutor presidente procurando justificar o injustificável. É verdade, doutor, o sistema nervoso central não se formou, mas outros órgãos já funcionam, o coração já bate há muito tempo e está na natureza do feto que todos os demais venham a aparecer. Uma semana depois, na 13ª, já se pode saber se ele é do sexo masculino ou feminino.

Remover do CD player, aos primeiros acordes da 9ª Sinfonia de Beethoven, o CD que em que foi gravada, não autoriza afirmar que a fascinante composição não esteja ali, inteira e bela, até os últimos acordes.

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* Percival Puggina (68) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, articulista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões.

Tentativa de compreensão

Tentativa de compreensão - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP -
Esse revolucionarismo retardado, na maioria dos países, foi uma fantasia passageira


Talvez que, para melhor entender o atual neopopulismo que chegou ao governo de alguns países latino-americanos, convenha lembrar o que ocorreu antes, logo após a Revolução Cubana, de 1959.

A tomada do poder pelos guerrilheiros de Fidel Castro levou alguns setores da esquerda latino-americana a embarcar na aventura da luta armada, de desastrosas consequências. Os Estados Unidos, que haviam aprendido a lição cubana, trataram de induzir os militares da região a substituir governos eleitos por ditaduras militares.

Nesse quadro, a exceção foi a chegada ao poder, pelo voto, de um partido de esquerda, elegendo Salvador Allende, no Chile, com o apoio da Democracia Cristã, que dele se afastou quando o viu refém da extrema esquerda.

O resultado disso foi o que se conhece: Allende foi deposto e morto, dando lugar à ditadura de Augusto Pinochet. Todos os movimentos guerrilheiros foram sistematicamente dizimados nos diversos países onde surgiram, e com eles a esquerda moderada.

As ditaduras militares, durante décadas, lançando mão da tortura e eliminação física dos adversários, tornaram inviável a vida democrática nesses países. Mas se desgastaram e tiveram que, finalmente, devolver o poder aos civis.

Em cada país isso ocorreu em momentos diversos e com características próprias. No Brasil, por exemplo, essa passagem se fez mediante um acordo que resultou em anistia geral e irrestrita, o que, sem dúvida, facilitou a reimplantação do regime democrático.

Não obstante, aqui como noutros países, esse retorno à democracia não significou o abandono, por todos, dos propósitos revolucionários.

Em alguns deles, os antigos guerrilheiros se reorganizaram em partidos que, implícita ou explicitamente, ainda que disputando eleições, visavam a implantação do regime socialista a que, antes, tentaram alcançar pelas armas.

Esse é um fenômeno curioso, especialmente porque se manteve mesmo após a derrocada do sistema socialista mundial e quando, com o fim da União Soviética, o regime cubano entrou em visível decadência e passou a fazer concessões ao capital norte-americano, que, então, voltou a explorar a hotelaria e o turismo, o que, para os revolucionários de 59, havia transformado Cuba num prostíbulo.

Mas esse revolucionarismo retardado, na maioria dos países, foi uma fantasia passageira, uma vez que, na disputa eleitoral, ficou provado que a maioria da opinião pública rejeitava as palavras de ordem radicais.

No Brasil, após várias derrotas, Lula exigiu que o PT abrisse mão do radicalismo, ou ele não se candidataria mais. Sem outra alternativa, o partido o atendeu e publicou uma Carta ao Povo Brasileiro, em que abria mão do revolucionarismo de palavra e, graças a isso, conseguiu ganhar as eleições de 2002.

Mas não parou aí, pois, para governar, Lula teve que aliar-se até com os evangélicos, numa total negação de seus princípios ideológicos. Claro que, para aparentar fidelidade a suas origens e satisfazer discordâncias internas, estatizou tudo o que pode, enquanto usava o dinheiro público, por meio do BNDES, para financiar grandes empresas privadas.

Esse é o dilema dos neopopulistas latino-americanos: usam discurso de esquerda e governam fazendo acordos e concessões que sempre condenaram. No discurso de Hugo Chávez, por exemplo, os Estados Unidos apareciam como o capeta, mas é para eles que a Venezuela vende quase todo o seu petróleo.

Sei que é impossível fazer política sem fazer concessões. Não é isso que critico, portanto. O que pretendo mostrar é como a esquerda, que se dizia radicalmente comprometida com os princípios anticapitalistas, ao perceber a inviabilidade de seu projeto ideológico, converteu-se, na prática, em seu contrário, mantendo, não obstante, o mesmo discurso de antes.

O mais patético exemplo disso é mesmo o chavismo, que, agora sem o Chávez, deve tomar um rumo imprevisível.

É certo, também, que o neopopulismo, valendo-se do assistencialismo e do discurso esquerdista, inviabilizou a esquerda moderada, que ficou sem discurso. O Brasil é exemplo disso. Lula se apropriou dos programas sociais e econômicos do governo anterior, contra os quais lutara ferozmente, e ainda os qualificou de herança maldita.

Refém das urnas

Refém das urnas - CLAUDIO J. D. SALES

O GLOBO -

Nos últimos meses o setor elétrico tem sido alvo de intenso ataque que vem desestruturando as bases institucional, econômica e regulatória de um setor que é base para o bem-estar social e toda a cadeia de produção.

Tudo começou com a implementação truculenta da Medida Provisória n° 579/2012 (depois convertida na Lei 12.783/2013), que tratou da antecipação do vencimento de várias concessões de geração e transmissão de eletricidade propondo condições que impunham reduções tarifárias aos concessionários.

Da maneira como foi comunicada pelo governo, ficou-se com a impressão que é possível gerar valor por decreto. No entanto, a MP 579 impôs grande perda de valor às empresas do setor elétrico. Não deixa de ser irônico que isso aconteça num momento em que ministros fazem road shows internacionais em busca de investidores para projetos em infraestrutura.

Após a destruição de valor acima outros problemas apareceram. Contando com a hipótese de adesão total dos concessionários à MP 579 (hipótese incorreta, já que algumas concessionárias não aceitaram as condições destruidoras de valor impostas), o governo cancelou o Leilão A-1 de 2012, leilão em que seria comercializada a energia de contratos de energia existente vincendos em 2012.

Esse cancelamento foi desastroso para as distribuidoras, que têm nos leilões regulados pelo governo a única forma de atendimento a seus consumidores. Como a adesão não foi integral, as distribuidoras ficaram expostas e tiveram que comprar energia no mercado de curto prazo a preços elevados devido aos baixos níveis dos reservatórios hidrelétricos.

Desde então, e para minimizar o risco de déficit de eletricidade, o Operador Nacional do Sistema Elétrico tem acionado todas as usinas termelétricas do país.

O custo dessa operação pode atingir R$ 6 bilhões em 2013 e será consolidado no Encargo de Serviços de Sistema, subitem Segurança Energética, pago pelos consumidores. Assim, surgiu no horizonte um cenário aterrorizante para os objetivos políticos do governo: a queda propagada de 20% da conta de luz seria comprometida pelo altíssimo custo conjuntural do despacho termelétrico.

Diante da ameaça a seu discurso de campanha, e numa iniciativa desesperada para socializar os prejuízos dos erros governamentais e regulatórios, o governo publicou no dia 6 de março a Resolução n° 3 do CNPE, que busca expropriar o caixa das geradoras de energia ao impor que passem a arcar com parte do custo do encargo, o que não faz o menor sentido. Afinal, quem deve arcar com os custos de produção de energia são aqueles que a consomem.

Para agravar ainda mais a situação, a liquidação das transações de janeiro de 2013 está suspensa, condição que não pode permanecer porque compromete o caixa de todos os agentes da cadeia de suprimento de energia.

Uma das causas para essa suspensão era a possibilidade de alterar retroativamente a alocação anual da energia (sazonalização) previamente estabelecida. Essa última ameaça, felizmente, acaba de ser bloqueada pela Aneel.

Uso político das empresas estatais, uso eleitoral da tarifa, expropriação de caixa de agentes, ameaças de interferências regulatórias retroativas... Pouco a pouco vão se somando os elementos que configuram um desarranjo institucional completo num setor que deveria ser marcado pela estabilidade legal e regulatória.


Peitos pelo progresso

Peitos pelo progresso - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO -


Como já tive oportunidade de comentar aqui diversas vezes, Itaparica sempre esteve na vanguarda e não raro puxou o bonde nacional. Assim foi quando, depois de os aturarmos durante quase um ano, na época do padre Vieira, enchemos o saco de tantos vanderdiques e vanderleis e botamos os holandeses da ilha para fora — e tudo às carreiras, tanto assim que vários ficaram para trás, para usufruto das conterrâneas mais necessitadas ou mais assanhadinhas, assim se originando as flores que são nossas mulatas de olhos verdes, as quais vem gente de todo o mundo para conhecer. Quase dois séculos mais tarde, se não fosse a ilha, talvez não houvesse independência, pois a convicção dos historiadores sérios é de que o grito do Ipiranga não passou de gogó e sair mesmo no tapa com os portugueses foi na ilha e redondezas.

E não é somente nessa história mais remota que nos destacamos, mas, por exemplo, finado Lamartine, Deus o tenha, contava que um certo coronel Veiga, do tempo em que Lamartine era menino, recebeu um telegrama do Rio de Janeiro, enviado no dia 9 de novembro de 1889, dizendo o seguinte: “MEU CORONEL VG COUSA ESTAH FEIA PT PROCLAMO OU NAO PROCLAMO REPUBLICA INT AGUARDO PREZADAS INSTRUCCOENS PT SAUDACOENS VG SEU CRIADO DEODORO.” Quis, todavia, o dedo ingrato do destino que esse 9 de novembro caísse num sábado, o que atrasou um pouco o telegrama, que só chegou no sábado seguinte, dia 16, quando a desgraça, quer dizer, a república já estava feita. Lamartine lembrava que o coronel xingou o telégrafo até morrer, argumentando que o atraso o fizera cometer uma desfeita contra Pedro II, com quem sempre tivera bom trato.

Em matéria de modas, das filosóficas e artísticas às de aparência e comportamento, tampouco ficamos atrás. Manda a honestidade reconhecer que nunca fomos ditadores da moda, se bem que, no tempo em que o navio atracava na ponte em frente à pensão de Anita, o desfile das moças à espera do desembarque fosse mais elegante e colorido do que em muitas passarelas do Sul do País. Mas também se frise que, embora acompanhemos as preferências mais modernas, jamais incorremos em imitação servil e até por vezes marchamos, como se diz hoje em dia, na contramão de certas tendências, como o que aconteceu com a discutida questão da qualidade de vida.

A qualidade de vida até que pareceu que ia pegar e Beré de Babau chegou a fundar uma academia de ginástica aeróbica com trilhas sonoras de Michael Jackson, mas diz o povo que Babau ficava espiando as alunas e aí Beré deu uns cachações nele e se despediu da carreira de magistério. Sobrou somente Badego que todo dia, chova ou faça sol, sai andando acelerado de costa a contracosta, mas se sabe que Badego, excelente e educadíssima pessoa, por todos admirado, nunca regulou bem da ideia, qualquer um no Mercado corrobora. Gugu Galo Ruço, que é várias vezes rico milionário em Salvador e vem à ilha treinar deitar na rede, me esclareceu a posição que prevalece na terra.

— O problema — disse ele — é que, para garantir qualidade de vida, a gente tem que sacrificar muito a qualidade de vida. Faz cada exercício medonho, come regrado, não come açúcar, não come gordura, não come carne vermelha, não come conserva, metade do prato é capim, não fuma, bebe uma merreca de um dedal de vinho por dia, não perde noite, não toma porre, passa o dia inteiro bebendo água, tem que ter muita abnegação.

— Mas assim você garante uma boa qualidade de vida na velhice.

— E na velhice eu vou poder fazer todas essas coisas?

— Não, claro que não. Não é isso o que…

— Quer dizer, não faço nem na mocidade nem na velhice, é isso? Assim, ou eu vivo ou tenho qualidade de vida. Eu cheguei à conclusão de que viver é preferível.

Mas pelo menos uma moda contemporânea parece que vai ter melhor destino, a julgar pelo que foi revelado em primeira mão, no largo da Quitanda, por Zecamunista. Ele, sempre muito interessado no papel político das mulheres, vem acompanhando com grande interesse os protestos, cada vez mais numerosos, em que elas aparecem com os seios à mostra, para denunciar leis iníquas, abusos de poder e discriminação de todos os tipos.

— Ontem mesmo eu vi na internet uma manifestação fantástica — contou ele. — Uma coisa de um vigor impressionante, não há massa que não fique mobilizada. Tinha uma delegação norueguesa muito boa, até agora estou impressionado.

— E a manifestação era contra o quê?

— Bem, eu não me lembro, na hora eu não percebi, também não se pode assimilar tudo, vou ter que ver mais algumas vezes ainda, vou precisar.

— Vai precisar?

— Não se meta a engraçado, eu sou um homem sério e um feminista de respeito, um paladino das mulheres. Eu vou canalizar o potencial das mulheres aqui da ilha, mais uma vez. Vou fundar uma ONG chamada Peitos Cívicos da Ilha e tenho certeza de que em breve seremos uma das entidades mais temidas do Brasil. Os poderosos tremerão, quando anunciarem que as soldadas dos Peitos Cívicos chegaram, vai ser mais devastador do que a cavalaria para os índios americanos, vai ser peito pulando por todos os lados, um massacre!

— Eu não acredito que isso dê certo.

— Nem eu — disse ele. — Mas tem muita mulher precisando de uma desculpa correta para mostrar os peitos. É uma colaboração da minha parte, eu sempre procuro apoiar a mulher.

EDUARDO E DILMA

EDUARDO E DILMA - AGAMENON

O GLOBO -

Devido à minha idade provecta e avantajada, O Globo me mandou fazer um check up completo (“compreto é 100 real) para avaliar o meu estado físico e mental. Quando estava no posto do SUS tirando sangue, um enfermeiro acertou a minha veia poética e, por isso mesmo, a minha coluna hoje não é para ser lida mas para ser cantada. E cantada com a melodia imortal de “Eduardo e Mônica”, o clássico da banda Religião Urbana celebrizado na voz do inesquecível poeta Renato Tá Russo.

EDUARDO & DILMA

Quem um dia irá dizer que a situação
Vai virar oposição? E quem irá dizer
Que foi em pleno sertão?

Eduardo abriu o verbo e resolveu se candidatar
Seus deputados então se dispuseram
Enquanto Dilma partiu pro ataque
Num palanque da cidade
Que os elegeram

Eduardo e Dilma um dia se estranharam sem querer
E conversaram muito tempo pra tentar se reeleger
Foi um carinha do governo do Eduardo que disse
-Tem uma vaga legal e a gente quer se divertir
Vaga estranha, com gente esquisita
-E a presidenta não é nem bonita
E a Dilma riu do neto do Arraes
O boyzinho de olho azul, que queria impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava no Minha Casa
-Essa mulher é macho, eu vou me ferrar

Eduardo e Dilma pegaram o microfone
Depois discursaram e resolveram se enfrentar
O Eduardo sugeriu às sete
Mas a Dilma disse que tinha que viajar
Se encontraram então no PAC da cidade
A Dilma tem mais voto e o Eduardo tem apelo
O Eduardo achou estranho e melhor nem comentar
Mas a Dilma só queria espremê-lo

Eduardo e Dilma eram super parecidos
Ela tem 65% e ele o Serra nem tem 16%
Ela coçava o saco e tinha um vozeirão
E ele, coitado, é descendente de holandês
Ela gostava do Lula e do Brizola
Da Ana Carolina, da Gadu
Da Bethânia e do Rimbaud
E o Eduardo quase amarela
Pensando na galera que votou no seu avô
Ela mandava em todo o Planalto Central
Em autarquia e em repartição
E o Eduardo ainda estava
No esquema escola, hospital, poço e inauguração

E, mesmo ela sendo dirigente
E ele pouco influente
Alguém pagou pra ver
E os dois se descascavam todo dia
E a raiva crescia
Mais que a do FHC

Eduardo e Dilma fizeram transposição, fotografia
Teatro, artesanato e foram se catar
A Dilma explicava pro Eduardo
Como os ministérios podem se multiplicar
Ele parou de tremer, deixou o cabelo cair
E decidiu se lançar
E ela se tocou no fim do mês
Que ele um dia ia lhe largar
E os dois pensaram no assunto
E juraram de pés juntos que vão se ver depois
E todo mundo diz que ele vai jantar ela e vice-versa
Que nem baião de dois

Quase armaram um barraco uma semana atrás
Mais ou menos quando as cheias vieram
Batalharam verba convocaram geral
Os puxa sacos todos que puderam
Eduardo e Dilma querem ficar em Brasília
E o resto é intriga da situação
Só que em 2014 não vão se esbarrar
Porque o netinho do Arraes
Quer ganhar a eleição

Quem um dia irá dizer que a situação
Vai virar oposição? E quem irá dizer
Que foi em pleno sertão?

***

Vejam só o estádio a que chegamos! A Defesa Civil interditou o Engenhão depois de descobrir que ele está ameaçado de desabar. E o que é pior: a obra custou o triplo do que já tinha sido roubado.

Agamenon Mendes Pedreira não é o coelhinho da Páscoa mas deu de presente uma cenoura e dois ovos para a Isaura, a sua patroa.

A quem interessa o aborto?



Os organismos que estão trabalhando internacionalmente pela aprovação do aborto, todos dispondo de muito dinheiro, são as fundações, (planejando e financiando as ações) e as organizações não governamentais (executando-as).

O aborto como solução para a gravidez indesejada não representa nenhum benefício para a mulher, pelo contrário, os especialistas honestos sabem que o aborto acarreta sérias conseqüências negativas (físicas e psicológicas), como, por exemplo, a síndrome pós-aborto, gerando mulheres deprimidas, inclusive com tendências ao suicídio. Sendo assim, o aborto em vez de resolver um problema, cria outros mais graves. Por isso, a solução adequada passa pela educação, pela conscientização e acima de tudo, pelo respeito integral à vida humana.

O fato é que se legalizarem o aborto as mulheres pobres continuarão sem acesso aos atendimentos básicos da rede pública e vítimas da precariedade do sistema de saúde, que não dá conta das demandas existentes. Na realidade, os que querem a despenalização do aborto têm outros interesses, nada humanitários. O discurso sentimentalista é demagógico e perverso, porque oculta outras intenções.
Estão em jogo na questão do aborto interesses especialmente por razões econômicas, políticas e demográficas. A pressão para a legalização do aborto faz parte dessa estratégia de longo prazo e existe por causa de ações com origem fora do Brasil. A legalização do aborto cria um ambiente onde é possível desenvolver a pesquisa com clonagem reprodutiva que produzirá resultados espetaculares na reengenharia da sociedade humana, mas que hoje são imprevisíveis e estão sendo financiados sem expectativa imediata de lucro, mas aparentemente quase como algo que seria um meta-poder. Esta relação do aborto com a clonagem somente existe, e de modo bem evidente, na mente dos grandes condutores das fundações internacionais, como constatamos, por exemplo, o envolvimento da Fundação Rockefeller com a Biologia Molecular. De modo imediato, a legalização do aborto é desejada por ser o meio mais rápido e eficiente de controle populacional.
O ex-diretor do programa de controle populacional da USAID, nos anos 70, Reimert Ravenholt, dizia que com o orçamento disponibilizado pelo Congresso Americano à USAID (um montante que representou à época o segundo maior programa de ajuda externa já promovido pelos Estados Unidos em toda a sua história, menor apenas do que o Plano Marshall, que reergueu economicamente a Europa depois da Segunda Guerra Mundial) era possível reduzir de modo significativo o crescimento populacional de qualquer país em desenvolvimento, em um período de cinco anos, utilizando métodos convencionais como a esterilização e em apenas dois anos se pudesse ser utilizado o aborto.
Ao fim dos anos 70, quando os dirigentes deste plano perceberam que sua apresentação como um plano norte-americano de controle populacional começava a ser questionado pelos países em desenvolvimento, o magnata do petróleo John Rockefeller III, juntamente com uma cientista social que então trabalhava na Fundação Ford, resolveu introduzir o conceito de emancipação da mulher e dos direitos sexuais e reprodutivos, para que se pudesse impor a mesma coisa sem que se despertassem as mesmas reações. Com isso, organizações como a Fundação Ford e as Organizações Rockefeller passaram a financiar ativamente as redes de ONGs feministas, o movimento homossexual, a educação sexual liberal, a dissidência dentro da Igreja Católica, através de organizações como as “Católicas pelo Direito de Decidir” e outras similares, e também a introdução destes novos conceitos dentro da Organização das Nações Unidas para pressionar as nações em desenvolvimento e, especialmente, as da América Latina para legalizarem o aborto.
Os organismos que estão trabalhando internacionalmente pela aprovação do aborto, todos dispondo de muito dinheiro, são as fundações, (planejando e financiando as ações) e as organizações não governamentais (executando-as). Dentre elas estão as fundações Ford, Rockefeller, MacArthur, a Buffet (entre outras), e a International Planned Parenthood Federation (IPPF, que tem filiais em quase 150 países), a Rede Feminista de Direitos Sexuais e Reprodutivos, as Católicas pelo Direito de Decidir (que não são católicas, mas usam o nome para confundir principalmente os católicos), a Sociedade de Bem-Estar Familiar no Brasil (Benfam) e a International Pregnancy Advisory Services (IPAS), entre outras ONGs.
As fundações usam as ONGs para seus fins utilitaristas, da forma mais pragmática. O argumento, portanto, dos direitos reprodutivos não passa de retórica, que seduz os desinformados (entre eles, os políticos), em prejuízo de muitos, especialmente as mulheres pobres, que são as maiores vítimas dessa lógica inumana.


Hermes Rodrigues Nery
é coordenador da Comissão Diocesana em Defesa da Vida e do Movimento Legislação e Vida, da Diocese de Taubaté. Especialista em Bioética, é pós-graduado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. E-mail: hrneryprovida@gmail.com

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