Jornalista Andrade Junior

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Em resumo: cada povo tem o governo que merece

  Caio Gottlieb


Um texto de autoria não confirmada, que circula nas redes, propõe uma reflexão que merece sobreviver ao encerramento da apuração: numa eleição, o julgamento também alcança quem escolhe os governantes.

Passada a votação, fica a pergunta que o calendário eleitoral não encerra: qual é a responsabilidade de uma sociedade pelo país que suas escolhas ajudam a construir?

É confortável atribuir todas as mazelas nacionais aos ocupantes do poder, como se tivessem chegado aos cargos por geração espontânea. Eles têm nome, partido, trajetória e um histórico que a propaganda tenta embelezar, mas não consegue apagar.

Depois de décadas de corrupção, aparelhamento da máquina pública e escândalos que se sucedem sob o abrigo da impunidade, a ignorância é um álibi cada vez menos convincente.

Quando esse passado é conhecido, o voto deixa de carregar apenas uma expectativa. Carrega também a responsabilidade pelo que se decidiu relevar.

A democracia assegura a cada cidadão o direito de escolher segundo suas convicções, seus interesses e suas esperanças. Esse direito, porém, vem acompanhado das consequências da escolha.

Quem aceita o abuso porque favorece seu lado enfraquece a própria autoridade para combatê-lo quando muda o beneficiário.

Quem encontra uma desculpa para cada escândalo ajuda a baixar a régua com que o próximo será medido. O espetáculo se torna obsceno quando a sucessão de denúncias já não constrange, a falta de punição já não surpreende e o compromisso com a decência depende da filiação partidária do acusado. Aos poucos, a indignação perde o caráter de princípio e vira conveniência de ocasião.

Talvez seja esse o desgaste mais profundo de um país: o momento em que o espanto cede lugar ao encolher de ombros. O cidadão conhece a espera por atendimento, a escola que não ensina, a estrada deteriorada e o medo que dita horários e trajetos.

Assiste ao avanço do crime organizado enquanto enfrenta uma máquina estatal voraz na cobrança e precária na entrega. Ainda assim, a corrupção passa a ser descontada na conta das supostas virtudes do governante; o privilégio ganha uma justificativa; o fracasso recebe mais um prazo.

Quem trabalha, empreende e produz segue pagando a conta, espremido entre impostos, burocracia e insegurança. A tolerância se acumula até virar licença.

Nenhum resultado eleitoral entrega um cheque em branco ao vencedor, assim como nenhuma derrota dispensa a oposição de fiscalizar com seriedade.

A cobrança precisa começar pelos próprios aliados e alcançar o condomínio de poder que se acomoda entre o governo, seus parceiros no Congresso e os setores da alta cúpula do Judiciário que deveriam guardar distância de conveniências políticas.

Quando a fiscalização cede à proteção recíproca, os contrapesos da República perdem sua função e o cidadão fica do lado de fora, sustentando o edifício.

Sem disposição para enfrentar esse arranjo, a alternância pode até trocar os nomes nas portas dos gabinetes, mas preservará os hábitos que tornam o poder tão confortável para quem o exerce e tão caro para quem o sustenta.

Essa é a lição que fica depois de domingo. O voto dura poucos segundos; suas consequências atravessam anos.

Quem renova a procuração de um poder cujo histórico conhece assume também o risco de prolongar seus vícios.

E a urna, tão eficiente para registrar uma preferência, não oferece ao eleitor a opção de cancelar a responsabilidade.










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