Ubiratan Jorge Iorio
“HĂĄ algum limite de quantas pessoas podem viver no planeta? Provavelmente. Entretanto, para enxergar como essa pergunta Ă© enganosa e sem sentido, considere o medo do jovem John Stuart Mill de que um nĂșmero finito de notas musicais significava que havia algum tipo de limite absoluto para a quantidade de mĂșsicas possĂveis.”
O filĂłsofo e economista John Stuart Mill (1806-1873), inegavelmente, era um jovem brilhante — embora, segundo as lĂnguas ferinas de alguns biĂłgrafos, um tanto matusquela —, mas o seu maior engano ao expressar o estranho medo citado, alĂ©m da desatenção com a velha anĂĄlise combinatĂłria e do desconhecimento da arte da composição musical, foi rigorosamente o mesmo de Thomas Malthus (1766-1834) e, 200 anos depois, dos profetas “progressistas” atuais: subestimar a capacidade criativa dos homens.
Os adivinhos de hoje, essa elite pseudointelectual e polĂtica — os ungidos, na nomenclatura de Sowell — tĂȘm se arrogado cada vez mais o direito de delimitar costumes, leis e cĂłdigos pretensamente morais e de impĂŽ-los aos habitantes da Terra. O mĂ©todo utilizado por essa gente consiste em manipular notĂcias, esconder o sol com a peneira e fazer de gato e sapato quem ousa discordar de suas supostas boas intençÔes e sapiĂȘncia. Mas, a esta altura dos acontecimentos, a peneira esgarçou e revela o fracasso de suas narrativas, abrindo passagem para os raios fĂșlgidos da luz do bom senso, para desespero da festejada intelligentsia (ou “burritsia”, como dizia com humor o saudoso embaixador Meira Penna).
NĂŁo obstante o compromisso indisfarçåvel com a desinformação da velha imprensa, que a faz repercutir somente pautas convenientes Ă agenda “progressista”, quem busca fontes seguras sabe que em vĂĄrios paĂses da Europa estĂĄ acontecendo um levante de agricultores, que vĂȘm entupindo as cidades com seus tratores e caminhĂ”es em protesto contra o tratamento que tĂȘm recebido da burocracia da UniĂŁo Europeia e dos governos dos seus paĂses, todos comprometidos com a chamada Agenda 2030 e, em particular, com uma de suas barrigas de aluguel favoritas, as “mudanças climĂĄticas”.
Parece ser a deflagração de um motim continental, animado pelo barulho estrondoso das mĂĄquinas e municiado pela fuzilaria fĂ©tida do estrume que despejam, enquanto se exige uma revisĂŁo das polĂticas nacionais e da UniĂŁo Europeia que, por sua inadequação, inconsistĂȘncia e arbitrariedade, vĂȘm infernizando a vida dos manifestantes. PorĂ©m, se a imprensa tradicional tenta esconder, a internet nĂŁo perdoa e vem mostrando imagens impressionantes em diversos paĂses, revelando que os agricultores nĂŁo estĂŁo para brincadeira e parecem dispostos a encarar uma guerra de sobrevivĂȘncia contra os fanĂĄticos do meio ambiente que infestam a UniĂŁo Europeia, vĂĄrios governos nacionais e as redaçÔes, universidades, museus e palcos da Europa e de todo o Ocidente.
Na Alemanha, ainda em dezembro e janeiro, jĂĄ se assistira a um caos nas ruas de Berlim. Na França, podemos ver enormes filas marchando em direção a Paris e bloqueando as entradas da cidade com tratores, caminhĂ”es e blocos de feno. HĂĄ vĂĄrios registros de protestos tambĂ©m na RomĂȘnia, na PolĂŽnia, na SuĂ©cia, em Portugal, na LituĂąnia, na GrĂ©cia e na ItĂĄlia. Na BĂ©lgica, bloquearam as estradas de acesso ao Porto de Zeebrugge e, na capital Bruxelas, agricultores amotinados de diversos paĂses jogaram ovos e pedras na sede do Parlamento Europeu e queimaram pneus, feno e atiraram esterco perto do imponente prĂ©dio, exigindo que os polĂticos fizessem mais para ajudĂĄ-los, com a redução dos impostos e dos custos crescentes provocados pelo fanatismo climĂĄtico que tomou conta das cabeças obcecadas pelas loucuras da Agenda 2030 da ONU, do FĂłrum EconĂŽmico Mundial e de centenas de organizaçÔes nĂŁo governamentais abarrotadas de recursos e caracterizadas pela certeza arrogante e autoritĂĄria dos ungidos.
JosĂ© MarĂa Castilla BarĂł, representante da AsociaciĂłn Agraria de JĂłvenes Agricultores (Asaja), o sindicato espanhol da categoria, resumiu em poucas palavras o problema: “Queremos acabar com essas leis malucas que chegam todos os dias da ComissĂŁo Europeia”. Arnaud Rousseau, chefe do sindicato francĂȘs Federação Nacional dos Sindicatos dos Operadores AgrĂcolas (FNSEA), foi um pouco alĂ©m: “O que estĂĄ acontecendo neste momento Ă© reflexo do acĂșmulo de regras que inicialmente vocĂȘ aceita atĂ© que se tornam demais”. O agricultor belga Adelin Desmecht, referindo-se aos custos de produção elevados, Ă s taxaçÔes insuportĂĄveis e Ă enorme burocracia, foi mais incisivo: “Se continuarmos como estamos, o fim da agricultura serĂĄ o fim da civilização”.
Ao que parece, os agricultores finalmente decidiram colocar as cartas na mesa, depois de sucessĂ”es de medidas unilaterais das autoridades prejudiciais Ă sua atividade. E tudo indica que contam com o apoio das populaçÔes de seus paĂses, que, enfim, perceberam o Ăłbvio: sem agricultura nĂŁo hĂĄ comida suficiente, e sem comida nĂŁo se sobrevive. A atestar isso, algumas cenas dos protestos mostravam motoristas de tratores e caminhĂ”es em suas boleias sendo saudados pela população, lembrando as entradas triunfais dos soldados aliados em cidades europeias no final da Segunda Guerra. Em Paris, os taxistas estĂŁo apoiando os protestos e paralisando o trĂąnsito com a opĂ©ration escargot (“operação caracol”). NĂŁo Ă© difĂcil entender a adesĂŁo popular: quem, em sĂŁo juĂzo, vai aceitar abrir mĂŁo de uma picanha para comer um gafanhoto? SerĂĄ que os figurĂ”es da UE, dos governos de esquerda, da ONU, de Davos, da Open Society, dos partidos verdes e das ONGs ambientalistas vĂŁo mesmo comer “carnes” de laboratĂłrio no almoço e besouros no jantar?
A retratar a visĂŁo que os ungidos querem nos fazer engolir sem nos deixar mastigar, 11 das 12 matĂ©rias jornalĂsticas que consultei (92%) antes de começar a redigir este artigo atribuem a revolta dos agricultores Ă influĂȘncia da “extrema direita”. A honrosa exceção na minha pequena amostra coube — sem espanto — ao artigo de Tom Slater (A revolta contra as elites verdes), publicado na edição de Oeste da semana anterior. Segundo o establishment, os protestos em toda a Europa ocorrem em um momento em que os “ultradireitistas”(ou “extremistas de direita”) veem nos agricultores um eleitorado crescente, tendo em vista as eleiçÔes de junho para o Parlamento Europeu.
LĂderes polĂticos da casta dos ungidos, como o primeiro-ministro francĂȘs Gabriel Attal, estĂŁo preocupados e tentando acalmar o barraco: “Em toda a Europa, surgem as mesmas perguntas: como podemos continuar a produzir mais e melhor? Como podemos continuar a enfrentar as mudanças climĂĄticas? Como podemos evitar a concorrĂȘncia desleal de paĂses estrangeiros?”. Sua resposta — a mesma de todos os polĂticos progressistas — Ă© um conjunto de promessas que cheiram a naftalina, tais como aumentar o protecionismo em nĂvel francĂȘs e da UE, impedir importaçÔes baratas de produtos que usam pesticidas vetados na Europa e obrigar que os rĂłtulos dos alimentos indiquem se os produtos sĂŁo importados. Mas os equĂvocos nĂŁo ficam apenas aĂ, porque a ComissĂŁo Executiva da UE jĂĄ tem propostas para limitar as importaçÔes de produtos agrĂcolas da UcrĂąnia. JĂĄ o primeiro-ministro irlandĂȘs, Leo Varadkar, fez eco ao presidente francĂȘs, Emmanuel Macron, em oposição Ă assinatura de um acordo comercial com o Mercosul na sua forma atual. Ora, de que isso vai adiantar, se esse acordo jĂĄ nasceu morto?
SĂł que os agricultores jĂĄ descobriram “onde estĂĄ Wally” e insistem por menos impostos e pela supressĂŁo das regras ambientais. Registre-se que os subsĂdios agrĂcolas continuam elevados na Europa, e a Ășnica diferença Ă© que ultimamente passaram a apoiar a “agenda verde”, com bilhĂ”es de euros destinados Ă s agriculturas ecolĂłgica e orgĂąnica, Ă preservação de paisagens rurais, Ă produção local e ao uso menos intenso de insumos. Ora, qualquer economista sabe (ou deveria saber) que, alĂ©m de custar mais, isso reduz a produtividade e, portanto, a competitividade.
Afinal, o que estĂĄ por trĂĄs das cenas cinematogrĂĄficas dos protestos? O estopim foi o aumento do imposto sobre o diesel, estabelecido pela UE com vistas a reduzir o uso dos combustĂveis fĂłsseis, o que elevou os custos de produção e prejudicou os produtores, com o agravante de que nĂŁo hĂĄ um substituto para o diesel nas propriedades rurais. Mas essa Ă© apenas a ponta do iceberg. A coisa vai muito alĂ©m, e nĂŁo Ă© exagero dizer que do seu desfecho depende a prĂłpria sobrevivĂȘncia da civilização ocidental.
O fetiche das “mudanças climĂĄticas” Ă© apenas um dos muitos perigos inseridos em um plano maior urdido por um grupo de ungidos cuja obsessĂŁo Ă© a de concentrar o seu poder e tomar conta das nossas vidas, na suposição de que somos um bando de egoĂstas ignorantes e que eles, sim, Ă© que sĂŁo os portadores das boas intençÔes.
As principais queixas dos produtores rurais sĂŁo contra os aumentos sucessivos na tributação, a queda progressiva dos subsĂdios que sempre caracterizaram o setor primĂĄrio europeu e a competição “desleal” (segundo eles) dos agricultores de outros continentes, especialmente os brasileiros. AtĂ© aĂ, morreu Neves: quem quer que seja beneficiado por leis protecionistas costuma pĂŽr a boca no trombone quando a proteção diminui. Mas essa revolta pode ter resultados positivos, pois ao pleitear erradamente a volta do protecionismo os agricultores indiretamente estĂŁo — mesmo que nĂŁo tenham consciĂȘncia disso — exigindo uma reviravolta nas cada vez mais absurdas exigĂȘncias ambientais estipuladas pela UniĂŁo Europeia, com suas metas despropositadas para a redução de emissĂ”es de gases de efeito estufa, que prejudicam enormemente a sua competitividade, assim como pressionando por limites Ă enorme burocracia.
A verdade Ă© que o grande vilĂŁo em toda essa histĂłria atende pelos nomes de paranoia ambientalista ou fanatismo climĂĄtico lunĂĄtico. Com efeito, os governos nacionais e a UniĂŁo Europeia vĂȘm se esmerando, sob o aplauso de praticamente toda a imprensa, em criar dificuldades para os produtores rurais sobreviverem. Na Alemanha cortaram o subsĂdio para o diesel, e na Holanda o uso de defensivos agrĂcolas, fertilizantes nitrogenados e atĂ© mesmo, em alguns casos, a utilização de ĂĄgua foram simplesmente proibidos, o que, segundo os agricultores daquele paĂs, poderĂĄ eliminar 30% deles do processo produtivo.
O fetiche das “mudanças climĂĄticas” Ă© apenas um dos muitos perigos inseridos em um plano maior urdido por um grupo de ungidos cuja obsessĂŁo Ă© concentrar o seu poder e tomar conta da nossa vida, na suposição de que somos um bando de egoĂstas ignorantes e que eles, sim, Ă© que sĂŁo os portadores das boas intençÔes e desfrutam do conhecimento “cientĂfico” que os capacita a nos fazer felizes, desde que Ă sua maneira. Os outros componentes desse plano sĂłrdido — as suas mascotes, como as chama Sowell — sĂŁo bastante conhecidos e estĂŁo todos contidos na Agenda 2030, disfarçados com rĂłtulos bonitos, mas com a pureza e castidade de uma Messalina, a VĂȘnus Imperial: igualdade racial, diversidade de gĂȘnero, eliminação de desigualdades, educação sexual, “humanização” de criminosos, laicidade do Estado, defesa do “estado democrĂĄtico de direito”, combate a fake news, repĂșdio a “discursos de Ăłdio” etc.
Para pĂŽr em prĂĄtica o seu “plano do Pinguim”, os candidatos a donos do mundo fazem uso de um mĂ©todo bem conhecido e jĂĄ desmascarado, que consiste em, primeiro, exagerar um problema e criar um alarmismo sobre ele, com base supostamente “cientĂfica” (mas que nĂŁo admite o debate cientĂfico), e, segundo, decretar a sua “solução”, rejeitando qualquer discordĂąncia quanto a ela como “simplista” ou mal-intencionada e submetendo quem diverge ao bullying midiĂĄtico e ao “cancelamento”. NĂŁo Ă© difĂcil antecipar que a UniĂŁo Europeia e os governos “progressistas” de vĂĄrios paĂses vĂŁo fazer de tudo para nĂŁo abrir mĂŁo da sua pauta e, dado o alinhamento de suas ideias escangalhadas com as do atual governo do Brasil, vĂŁo aumentar as pressĂ”es jĂĄ existentes para nos impĂŽ-la, com a habitual ajuda dos militantes de redação, de cĂĄtedra e de toga. Ă preciso peitar essa gente e mostrar que jĂĄ Ă© mais do que tempo de deixarem as vaquinhas e os seus donos em paz. A dupla farsa das mudanças climĂĄticas e do controle populacional jĂĄ deu o que tinha que dar. O clima sempre “mudou”, e os homens sempre foram criativos.
*Artigo publicado originalmente na Revista Oeste.
PUBLICADAEMhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/ecologia/a-paranoia-ambientalista/





0 comments:
Postar um comentĂĄrio