Jornalista Andrade Junior

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

'O cristal quebrado',

 por Roberto Motta


Passada a pandemia, a nova justificativa para suprimir a livre expressão é a 'defesa da democracia'


Cada um de nós traça sua própria trajetória na vida. Temos origens diferentes, somos criados e educados nas mais diversas circunstâncias; cada um de nós enfrenta desafios que, muitas vezes, são completamente desconhecidos por outras pessoas.

É impossível saber que batalhas os outros estão travando.

Muitos de nossos sonhos, desejos e planos são comuns a outras pessoas; outros são só nossos.

A satisfação da maioria de nossas necessidades depende de outras pessoas, da sociedade em que vivemos e de seus mecanismos sociais e econômicos. Mas algumas necessidades só serão satisfeitas através de processos de educação, autoconhecimento e amadurecimento intelectual e emocional que dependem, principalmente, de nossa própria iniciativa — sem esquecer que somos, sempre, reféns de circunstâncias inteiramente fora de nosso controle. Somos reféns do acaso.

O desenrolar de nossas vidas e nossa história ocorre em um palco muito maior do que nós. Existe sempre um cenário de fundo no qual se movimentam forças titânicas — movimentos políticos, interesses corporativos, mudanças culturais, guerras, revoluções e eventos cataclísmicos, imprevisíveis —, o que Nassim Taleb chama de cisnes negros.

Todo nosso progresso, nosso avanço pessoal em direção à prosperidade, nossas pequenas ou grandes conquistas materiais são influenciadas, impulsionadas, atrasadas ou esmagadas por essas forças, totalmente fora de nosso controle.

A maioria de nós desconhece o que se movimenta no pano de fundo de nossas vidas. Nosso foco sempre estará, necessariamente, nas coisas imediatas das quais dependem nossa sobrevivência e o bem-estar de nossas famílias.

O boleto da mensalidade escolar das crianças esperando em cima da mesa grita tão alto que não conseguimos ouvir, por exemplo, o barulho da China — um país controlado por uma ditadura totalitária — lentamente tomando o lugar dos EUA como superpotência dominante, influenciando a política interna das democracias ocidentais e cooptando, de várias formas, seus principais líderes.

A preocupação com o emprego, com uma dívida que não conseguimos quitar ou com a saúde de um parente querido impede que tenhamos consciência de processos que, há décadas, vêm alterando o mundo ao nosso redor — transformando, por exemplo, o sistema de ensino, público e privado, em instrumento de doutrinação ideológica.

Você tem direito a ter e emitir uma opinião sobre qualquer assunto. Não é necessário que sua opinião seja validada, certificada ou aprovada por qualquer órgão oficial

Mas, apesar de nossa ignorância, tudo isso acaba batendo à nossa porta, mais cedo ou mais tarde. Como disse Christopher Hitchens: “Não há refúgio contra o engajamento político. Se você tentar se esconder da vida pública, um dia ela o descobrirá e invadirá seu precioso refúgio”.

É isso, exatamente, o que está acontecendo.

O modelo de governança política dominante no Ocidente no último século — principalmente desde a Segunda Guerra Mundial — é a combinação de um sistema político chamado de democrático, baseado no voto universal, com uma sociedade de consumo de massa.

Um dos dilemas desse sistema é a tensão constante entre os limites do poder do Estado e as garantias da liberdade individual. Esse dilema se tornou uma fratura exposta em vários países, como consequência da pandemia. Nova Zelândia, Austrália e Canadá foram alguns dos países que adotaram medidas incompatíveis com as noções de liberdade e direitos fundamentais que sempre prevaleceram no Ocidente. A lista de países que caíram na armadilha de suprimir a liberdade “em nome da vida” é muito longa.

Passada a pandemia, a nova justificativa para suprimir a livre expressão é a “defesa da democracia”.

Mas não se defende a democracia calando o indivíduo.

Você tem direito a ter e emitir uma opinião sobre qualquer assunto. Não é necessário que sua opinião seja validada, certificada ou aprovada por qualquer órgão oficial, para que você possa expressá-la.

Uma das conquistas do Ocidente foi a noção de direitos naturais ou direitos fundamentais. Entre eles, está o direito à liberdade de expressão. O direito de dizer o que você quiser. Sua opinião não está sujeita à aprovação de ninguém.

Se você caluniar ou difamar alguém, já existem remédios jurídicos. Você pode ser processado penalmente pelos crimes de injúria, calúnia ou difamação, ou pode ser alvo de um processo civil por danos morais.

Fora disso, a expressão é livre.

Livre.

Essa é uma bandeira difícil de carregar, em uma época em que muitas pessoas foram convencidas de que a liberdade de expressão só é válida quando a opinião é aquela permitida pelos fiscais do politicamente correto.

É preciso resistir a isso.

Faço minha parte. Faço o que posso — o pouco que posso — para defender esse Ocidente que ainda resiste.

Tenho um programa diário — um podcast — que vai ao ar no YouTube e outras redes sociais às 10 horas. Nele eu comento notícias, analiso o cenário político, falo de livros e leio cartas que recebo de ouvintes.

Eu preciso contar sobre uma dessas cartas.

No dia 12 de janeiro eu recebi, por e-mail, a seguinte mensagem:

Roberto Motta, boa tarde!
Minha neta tem 12 anos e vai cursar a 8ª série do ensino fundamental.
Na lista de livros da escola está o livro XXXX.
Parece um gibi. É simplesmente horrível, fiquei perplexa com o conteúdo, totalmente impróprio para a idade.
Estamos tentando marcar um horário com a direção da escola para falar sobre isso, mas a coordenadora já avisou que o livro é “muito bem recomendado pelo MEC”.
Fiquei de cabelo em pé.

Você conhece este livro?
Tem alguma sugestão para dar às mães do que fazer a respeito?
Às vezes acho que a escola está querendo impor uma agenda progressista, com a qual não concordo.
Parece que precisamos fazer um trabalho de formiga, já que as escolas estão todas dominadas por ideologia.
Grata pela atenção,

Marcia.

Eu li a carta da Marcia no meu programa. Minha sugestão para ela foi: mobilize-se. Reúna outras mães que pensam como você. Falem com a escola.

O objetivo da escola é servir às famílias que matriculam suas crianças. As famílias precisam estar satisfeitas, ou levarão suas crianças para estudar em outro lugar. As escolas sabem disso, e não querem perder alunos. Esse é o caminho da mudança. Faça ouvir sua voz.

No dia 10 de fevereiro eu recebi outro e-mail da Marcia:

Oi, Motta! Tudo bem?
Gostaria de agradecer muito por ter lido meu e-mail. Passei o link do seu programa para as mães do meu grupo, muitas gostaram.
Tivemos a reunião com a direção, a coordenação e a orientação pedagógica da escola.
Os livros ruins foram retirados da grade. Serão substituídos por outros.
A diretora pediu desculpas e disse que a culpa foi dela, pois não consegue ler todos os livros indicados pelos professores.
Ela disse que foi um mal-entendido. O professor que indicou os livros foi o professor de português, embora não caiba a ele a decisão de incluir temas impróprios em suas aulas.
A diretora concordou com tudo isso, mas tentava impedir que as mães falassem.
Tentou, mas não conseguiu.
Muitas mães falaram e disseram que, de agora em diante, vão examinar tudo que a escola indica, e ficar de olho neste professor.
O cristal foi quebrado.
Um detalhe que achei bem infantil: duas mães, que eram a favor desse tipo de livro, ficaram rindo das opiniões das mães que eram contra, mas não apresentaram argumentos para o debate.
Eu apresentei meu ponto de vista e aproveitei para indicar o livro As Ferramentas Perdidas da Aprendizagem, que você indicou.
Vamos sempre fazer nosso trabalho de formiga.

Marcia.

O cristal foi quebrado.

O cidadão comum descobriu seu poder.

É isso.


Revista Oeste















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