Jornalista Andrade Junior

sábado, 11 de setembro de 2021

"Licões históricas em tempos de turbulência",

 por Ana Paula Henkel

George Washington perdeu mais batalhas do que ganhou. Mas ganhou a guerra pela criação de um farol da liberdade



Muitas pessoas pelo mundo, quando pensam em independência e autonomia, têm na mente os Estados Unidos da América como um farol da liberdade. Ou a “cidade no topo da colina” (a city upon a hill) como muitos, desde os tempos da colonização, se referem ao país. A expressão bíblica “Uma cidade sobre uma colina” é uma frase presente no Sermão da Montanha de Jesus. Num contexto moderno, é usada na política dos Estados Unidos para se referir à América como um “farol de esperança” para o mundo.

Muitos, no entanto, não conhecem em detalhes do que fez os Estados Unidos um ponto de luz em tempos obscuros. Não foram apenas políticas acertadas e lições extraídas dos erros que colocaram nos pilares genéticos da nação a palavra resiliência. Também não é difícil achar frases inspiradoras de grandes presidentes norte-americanos, como Abraham Lincoln e Ronald Reagan, por exemplo, para serem usadas em tempos de dúvidas e destemperos.

O que muitos não visualizam é que a persistência na vontade do progresso diário desses presidentes e do povo americano está na concepção da nação, nas escolhas pensadas das 13 colônias originais que, de maneiras diferentes, encontraram um ponto importante em comum. E, claro, em homens como Samuel Adams, John Adams e George Washington.

Samuel Adams, um dos Pais Fundadores da América, foi o segundo presidente norte-americano. Durante os anos que antecederam à Revolução Americana, atuou como um propagandista e político apaixonado, não excessivamente escrupuloso em seus ataques às autoridades e políticas britânicas. Em inúmeras cartas de jornais, criticava as medidas britânicas e o comportamento dos governadores reais, juízes e homens da alfândega. Era um mestre da organização. Planejava auspiciosamente a eleição de homens que concordavam com ele, obtendo influência em comitês que agiriam como ele desejasse e assegurando a aprovação das resoluções que ele almejava.

Sam Adams era também um agitador. Muitas vezes usou seu espírito inquieto para inflamar manifestações. Chegou até a pedir o enforcamento dos soldados britânicos no famoso episódio do Massacre de Boston. Mas errou, pois os soldados ainda não tinham passado pelo julgamento adequado. (Vale muito a pena assistir ao primeiro episódio da série John Adams, da HBO, que trata sobre esse evento!)

Samuel foi membro da convenção que moldou a Constituição de Massachusetts de 1780. Participou também da convenção de seu Estado que ratificou a Constituição Federal. Ele foi a princípio um antifederalista. Se opôs ferozmente à ratificação da Constituição por medo de que ela atribuísse poder demais ao governo federal. Mas abandonou sua oposição radical quando os federalistas prometeram apoiar uma série de emendas futuras, incluindo o projeto de lei de direitos. Comprometido com a liberdade, jurou lutar contra a tirania dos atos britânicos. Foi um dos homens que ajudaram a montar uma forte milícia e uma rede de inteligência contra a superpotência britânica, por amor a seus justos propósitos.

O primo de Samuel, John Adams, era um excelente advogado de Boston. Havia se tornado um membro visível do movimento de resistência que questionava o direito dos britânicos de tributar as colônias americanas sem que elas tivessem qualquer representação no Parlamento. Era intensamente combativo, cheio de dúvidas sobre sua própria capacidade, mas nunca sobre sua causa.

John Adams tornou-se uma figura importante na oposição à coroa inglesa. Após a revolução, por ter personificado a independência americana do Império Britânico, foi amplamente ignorado. Acabou relegado para a periferia do centro político seus quase três anos morando em Londres. No entanto, foi durante esse tempo que Adams se dedicou ao aprofundamento da história da política europeia. Buscava lições que pudessem ajudar o incipiente governo americano em seus esforços para alcançar o que nenhuma grande nação europeia havia conseguido produzir — um governo republicano estável.

“Quanto mais difícil for o conflito, maior será o triunfo”

O resultado desses estudos foi o lançamento em 1787 de três volumes de citações e observações pessoais intitulados Uma Defesa das Constituições de Governo dos Estados Unidos da América (A Defense of the Constitutions of Government of the United States of America). Esse longo trabalho continha os insights de John Adams como pensador político. Ele desejava alertar seus compatriotas americanos contra todos os manifestos revolucionários que visavam a uma ruptura fundamental com o passado.

Ele acreditava que todas essas expectativas reacionárias eram utópicas, impulsionadas pelo que chamou de “apenas ideologia”. Para ele, a crença de que ideais imaginários, tão reais e sedutores em teoria, eram capazes de ser implementados no mundo e na nova nação, mas com um preço alto demais a ser pago. Como segundo presidente dos Estados Unidos, evitou escolher a glória, a elevação de seu nome e uma fácil reeleição ao negar entrar em uma guerra ao lado da França, por amor e proteção à sua pátria. O ego não foi o seu norte.

Samuel e John Adams tornaram-se líderes da facção que rejeitou as perspectivas de reconciliação com a Grã-Bretanha. Foram os primeiros a pedir uma separação final dos ingleses. Ambos assinaram a Declaração de Independência e exerceram considerável influência no Congresso. Porém, os primos, muitas vezes chamados de “Adams brothers”, eram totalmente diferentes nas estratégias que ajudaram as 13 colônias britânicas na América do Norte a adquirir o status de nação, hoje bastião da liberdade no Ocidente.

Dentre os bravos homens que forjaram a nação mais próspera do mundo, está George Washington, o personagem mais influente a enfeitar as páginas dos livros de história americana. Seu efeito no mundo é incomensurável e ilimitado. Washington liderou as colônias, contra todas as probabilidades de vitória, a derrotar o Império Britânico para se tornar uma nação livre.

Mais tarde, ele liderou o novo país durante os primeiros oito anos sob a Constituição e deu o exemplo para todos os futuros presidentes. O primeiro presidente norte-americano decidiu fortalecer a América e fez exatamente isso, criando uma potência mundial que se tornaria o farol para a liberdade no mundo. E muitas ferramentas que podemos usar de seu legado vão além de sua forte administração, mas das lições de comprometimento durante toda a Revolução Americana.

Muitos, quando olham para uma pintura de George Washington, imaginam um general destemido e imbatível, que derrotou uma grande potência. Destemido, sim, mas, imbatível, nem tanto. O que poucos sabem quando observam seu rosto estampado numa nota de US$ 1 é que, apesar da pouca experiência prática na gestão de grandes exércitos convencionais, Washington provou ser um líder capaz e resiliente das forças militares americanas.

Durante a Guerra Revolucionária, perdeu mais batalhas do que venceu. Antes de sua nomeação como chefe do Exército Continental, Washington nunca comandou um grande exército no campo. No entanto, a escolha de prioridades e estratégias lhe renderam vitórias cruciais. Como a Batalha de Trenton, em 1776, e em Yorktown, em 1781.

George Washington não foi o intelectual mais brilhante entre os Pais Fundadores. Ele não era o mais ambicioso e não era o mais capaz. Na verdade, Washington não era Thomas Jefferson. Nem Alexander Hamilton. E certamente não era um Benjamin Franklin. Não elaborou a Constituição, mas a apoiou com suas ações e palavras. Representou tudo o que a América precisava e ajudou a dar o exemplo do que era um americano. Washington liderou as pessoas implementando os pensamentos e planos de outras mentes brilhantes, para que o país prosperasse.

Em momentos quando nos falta o ar em desespero contra injustiças, tento imaginar o que homens como George Washington nos diriam. Seus discursos caem como uma luva, ou um cobertor quente em corações cansados, como andam os nossos. Em uma sociedade cheia de platitudes vazias e discursos imediatistas, é um alento mergulhar no universo de quem esteve em uma situação muito pior do que a nossa. E deparar com mensagens como essa: “Quanto mais difícil for o conflito, maior será o triunfo. A felicidade humana e o dever moral estão inseparavelmente ligados”.

Somos um povo apaixonado, feliz por natureza, mas que está cansado da luta diária contra um emaranhado de configurações políticas que insistem em frear nosso desenvolvimento como nação. Não é difícil desanimar, confesso. Mas é necessário seguir em frente. Sejamos líderes inspiradores em nossas famílias, em nossas comunidades, entre nossos amigos. É preciso tentar incorporar características desses grandes homens nos nossos sonhos. Mas, principalmente, na eficácia e no pragmatismo das ações.

Não estamos em uma corrida de 100 metros, mas em uma maratona olímpica

Não precisamos vencer todas as batalhas. Mas precisamos vencer as batalhas certas. Durante os oito anos da Revolução Americana, o General Washington gastou muito mais tempo, pensamento e energia como organizador e administrador das forças militares do que como estrategista militar e tático. Ele enfrentou duras realidades de alistamentos de curto prazo, deserções, soldados malvestidos e sem equipamentos, congressistas e legisladores estaduais lenientes, muitos traidores do movimento. Mesmo assim, muitos soldados e civis confiaram em sua causa.

Nessa semana, li um post de um querido amigo em sua rede social que dizia o seguinte: “Thomas Sowell escreveu um tempo atrás que, em uma guerra, você não trava batalhas que certamente perderá, apenas porque precisará de suas tropas para lutar mais tarde em batalhas que pode vencer. E cita as tropas britânicas que escaparam de Dunquerque, e voltaram à França quatro anos depois, como parte das forças que invadiram as praias da Normandia, libertaram a França e avançaram para a Alemanha para a derrota final do regime nazista. Na política, como na guerra, você precisa de poder para vencer e não dissipar suas forças lutando em batalhas que, com certeza, perderá. Simbolismo e autoindulgência emocional simplesmente não valem a pena”, disse Sowell.

O Exército comandado pelo general Washington não era páreo para o Exército britânico, nem em experiência militar, nem em poder de fogo. O Exército americano repetidamente teve de se retirar, recuar e até mesmo fugir para evitar ser aniquilado. Quando Washington fez sua célebre travessia do Delaware, ele se dirigia para uma vitória dramática, usando soldados que ele salvou para aquele momento. Guerras são para vencer, não para gestos simbólicos fúteis que a deixam pior”, completou meu amigo em sua brilhante publicação.

Em tempos de pura escassez de líderes mundiais inspiradores, é preciso resgatar os melhores exemplos não apenas de liderança, mas de resiliência, estratégia e inteligência emocional. Nosso Brasil não foi contaminado por agentes do retrocesso em poucos anos. E não será em um ou dois ciclos presidenciais, ou mesmo trocando algumas cadeiras do Congresso por parlamentares realmente engajados com o nosso futuro, que veremos nosso horizonte ser ampliado. Não estamos em uma corrida de 100 metros, mas em uma maratona olímpica. E, para isso, não podemos ser soldados de uma batalha, é necessário a paixão de um patriota, a sabedoria de um estudioso observador e o fôlego de um general. É necessário que saibamos ouvir nossa assembleia de vozes com inteligência e escolher a quem ouvir com a alma, jamais com o fígado.

Revista Oeste
























PUBLICADAEMhttp://rota2014.blogspot.com/2021/09/licoes-historicas-em-tempos-de.html


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