Fernando Araújo
A Universidade de Oxford pretende liderar um grande ''reset" mundial no ensino de Música, propondo rebatizar a assim chamada música clássica de ‘música branca da era dos escravos’, reformar a própria notação musical (‘sistema colonial de representação’), e por fim cancelar Bach, Mozart e Beethoven por serem parte do tal contexto de ‘supremacistas brancos’, enfim, mudar todos estes pontos por causarem ‘grande sofrimento aos alunos negros’.
A única coisa que pode 'causar grande sofrimento' aos alunos de outras raças é privá-los do contato com as obras-primas de Bach, Mozart e Beethoven. Entre todos os compositores, Bach é talvez o mais apolítico, e sua obra vai além dos parâmetros da Música em si e chega a ser um híbrido perfeito entre Arte e as assim chamadas 'ciências exatas' – geometria, aritmética, física, astronomia – por conter em si todas as fórmulas, proporções, e até mistérios do Universo.
Em outras palavras, Bach está além de seu tempo e de qualquer tipo de colonialismo. Mozart pode até ser mal interpretado por certas passagens do libreto da ' Flauta Mágica ', principalmente se tiradas do contexto do seu Zeitgeist e dos costumes da época – época na qual vocativos como 'o Mouro de Veneza', o 'judeu', o 'turco', o 'alemão' eram comuns e não tinham necessariamente conotação de preconceito, e na qual a própria imperatriz da Áustria se referia a uma ópera que ela menosprezava com adjetivos como 'una porcheria tedesca!' ...
Mozart era cidadão do mundo e dos compositores o mais cosmopolita, fascinado pela literatura – as Mil e Uma Noites, por exemplo – e por toda a cultura do Oriente, pelas quais muitas vezes deixou-se inspirar, como demonstram os movimentos 'alla turca' da sonata para piano em lá maior e do concerto para violino e várias de suas óperas (Zaide, O Rapto do Serralho, a própria Flauta, entre outras). Mozart era humanista e vivia e compunha sob os princípios do Amor Universal, antítese de qualquer forma de racismo, preconceito, injustiça – tanto é que, até recentemente (antes do despontar da tal 'cultura de cancelamento') obras suas como As Bodas de Figaro eram regularmente instrumentalizadas a torto e direito como manifestos marxistas... Independentemente de qualquer postura política – pois, na minha modesta opinião, Mozart era também apolítico – a música de Mozart respira e inspira Amor Universal, simplesmente.
E quanto a Beethoven: se ele fosse supremacista de alguma coisa não teria apagado a dedicatória a Napoleão na sua 'Eroica'... Outro que estava muito além da política do tempo, e muito mais absorvido em questões mais profundas e transcendentes. Sua música também respira e inspira Amor, mas também toda a tragédia humana, a dor profunda, a perseverança, a força e a esperança no ser humano ( talvez não seja coincidência que esta crise tenha começado exatamente em 2020, ano de Beethoven).
Privar os alunos não brancos da música destes três gigantes é não somente uma decisão completamente absurda e infundada, mas acima de tudo RACISTA – racista por parte dos pseudoacadêmicos, pseudoprofessores, pseudointelectuais em subestimar o potencial, a sensibilidade e a inteligência dos alunos de outras culturas em absorver e aprender da Linguagem Universal destes grandes mestres.
Música é Linguagem Universal e vence todas as barreiras – de culturas, de raças, de gênero, de religião – seja um negro spiritual, uma canção em swahili, seja Bach, Mozart ou Beethoven. Em vez de cancelarem estes grandes mestres, caso os doutores de Oxford sejam realmente bem intencionados, muito mais valeria adicionar nos currículos clássicos de outras culturas. Que tal “Cultura do Adicionamento” em vez de “cancelamento”?
PUBLICADAEMhttps://www.puggina.org/outros-autores-artigo/musica,-linguagem-universal__17412





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