escreve Paula Leal
Número de casos de covid-19 em ascensão, recorde de mortes dia após dia, hospitais abarrotados e risco de colapso no sistema de saúde brasileiro. Em 2020, estávamos em pleno voo cego, tateando teses sobre isolamento, contaminação, vacinas e tratamentos para conter o avanço do vírus chinês.
Mais um ano se passou e o Brasil enfrenta uma crise sanitária ainda pior que a do primeiro pico da pandemia. Sem entrar na fissura das manchetes olímpicas e fúnebres tão apreciadas pela grande imprensa, o fato é que registramos quase 3 mil mortes em um único dia nesta semana e acumulamos um saldo de mais de 285 mil mortos no país. Algo deu errado.
O Brasil contou com a vantagem de ser alvo do coronavírus tardiamente em relação a outros países da Ásia e da Europa. Os governantes tiveram a oportunidade de aprender com a experiência de outras nações, aplicar as medidas que deram certo e descartar as erradas.
A primeira capa publicada pela Revista Oeste, em março do ano passado, mostrava, por exemplo, o caso da Coreia do Sul, que investiu em testagem em massa e no rastreamento de doentes, evitando a transmissão desordenada.
O uso massivo de tecnologia de dados também permitiu rastrear rapidamente o percurso feito por um infectado, e avisar a população, por mensagens de celular, sobre as áreas de maior contágio, os bairros a evitar, a rota de alguém com diagnóstico positivo para a doença.
Para não dizer que isso seria medida muito futurista para o Brasil, o governo de São Paulo fez uma parceria com as operadoras de telefonia para rastrear o deslocamento da população. Mas foi só para se certificar de que você não sairia de casa. Ponto.
Em vez de focarem as lições de sucesso, os governantes resolveram implementar as próprias políticas de gabinete e copiar alguns fiascos de projeção internacional.
São vários os motivos que tornaram o Brasil o epicentro mundial do coronavírus.
Um deles, certamente, é a guerra política entre presidente, prefeitos e governadores. Como se não bastasse, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) também resolveram virar “gestores” da covid, e palpitar sobre tudo relacionado à pandemia.
A encrenca começou quando o STF esvaziou poderes do governo federal e transferiu a Estados e municípios a responsabilidade para tomar medidas no combate à covid-19. A decisão do Supremo deu carta branca a cada gestor para implementar as próprias políticas.
Virou bagunça.
Medidas descabidas, resultados medíocres
Em São Paulo, entre idas e vindas na paleta de cores do governador João Doria (PSDB), todo o Estado está agora na fase vermelha “emergencial”, a mais restritiva de todas. Só que dar tratamento igual a municípios com realidades sanitárias diferentes está longe de ser uma política justa e eficiente. Inconformado, o prefeito de São José dos Campos, Felicio Ramuth (PSDB), ganhou na Justiça o direito de manter a cidade na fase laranja do Plano São Paulo, menos rigorosa que a vermelha.
O argumento utilizado pelo gestor municipal é que a ocupação de UTIs não justificaria a mudança para o nível mais severo do plano de combate à covid-19. Em vídeo publicado no Facebook, Ramuth chegou a dizer que a “justiça foi feita”.
Entretanto, a “justiça” durou pouco. O STF suspendeu a decisão do Tribunal de Justiça e a cidade foi obrigada a seguir o decreto estadual e ir à fase vermelha. É a segunda vez que a prefeitura de São José dos Campos não adota as regras do governo de São Paulo e o embate chega ao Supremo. Com o poder da caneta nas mãos, 11 juízes togados, cada vez mais desconectados da realidade brasileira e com seus salários intocados, decidem o destino de milhões de pessoas.

Na cidade de São Paulo, no ano passado, o rodízio de carros “pares e ímpares” instituído pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) foi um desastre: tirou carros da rua, mas lotou o transporte público.
A prefeitura também tentou diminuir o número de automóveis em circulação bloqueando avenidas — a medida foi suspensa em dois dias. A antecipação de feriados apenas estimulou o trânsito de pessoas da capital para o interior, espalhando a disseminação do vírus pelas regiões que estavam com a epidemia sob controle.
A estratégia dos gestores da covid baseou-se em provar que o confinamento da população iria deter o coronavírus. “A gente sabe que essas epidemias virais vêm em ondas. Na gripe espanhola, a segunda onda foi ainda mais mortal.
As pessoas não estudam História para ver como as coisas se comportam”, pondera o médico imunologista Jorge Kalil Filho. Leia a entrevista com Kalil nesta edição.
Oeste publicou uma extensa reportagem sobre o fracasso do lockdown, experiência sem base científica que não se mostrou bem-sucedida em vários países. Mesmo assim, foi copiada por aqui, com algumas adaptações tupiniquins. O fechamento obrigatório de atividades comerciais promoveu demissões em massa, falência de empresas, fome e pânico.
Estima-se que, passada a pandemia, o mundo terá mais 150 milhões de indivíduos vivendo abaixo da linha de pobreza. Como bem observou J. R. Guzzo, colunista de Oeste, ao questionar a gestão dos “cientistas” que hoje ditam as regras no país: “Nunca lhes ocorreu, até hoje, que é indispensável salvar, ao mesmo tempo, a vida de quem pega a doença e a de quem não pega; uma e outra valem por igual”.
Em Aparecida, cidade no interior paulista conhecida nacionalmente pelo turismo religioso, o prefeito Luiz Carlos de Siqueira (Podemos) deu um depoimento emocionado ao programa Opinião no Ar, na Rede TV, sobre as dificuldades enfrentadas com o endurecimento das medidas de restrição.
“Minha cidade está destruída, completamente destruída. Na periferia, está faltando comida na mesa. O governo do Estado não tem os olhos voltados para a tragédia socioeconômica que a cidade vive. Estamos em situação de miséria, de tragédia.”
O município, que chega a receber 12 milhões de fiéis anualmente, está deserto e falido. “Estou governando uma cidade com mais de 70% de desempregados. O comércio todo está quebrado e quebrando. Esse novo decreto emergencial do governador está levando nossa cidade para uma situação muito grave”, disse o prefeito.
Em Criciúma, cidade de Santa Catarina que fica no sul do Estado, o prefeito Clésio Salvaro (PSDB) decretou um lockdown sob medida para o serviço público, que bem poderia servir de modelo para o restante do país. “Estou assinando o decreto de lockdown na prefeitura de Criciúma — lembrando só um detalhe: lockdown sem remuneração”, explicou. “Não quer vir trabalhar? Não tem problema.
Quer se cuidar? Ótimo!
Pode ficar em casa, mas não receberá salário”, afirmou Salvaro. “É muito fácil pedir lockdown com a geladeira cheia e o salário garantido”, completou.
Impulsionada por grande parte da mídia brasileira, a classe média comprou a tese de que o “Fique em casa” é a solução para vencer a pandemia. Na bolha imaginária de uma minoria da população, o mundo ficou restrito ao home office, comida por delivery e compras on-line. Excluindo os funcionários públicos, que torcem pelo isolamento eterno, e os que vivem de renda, há uma multidão de trabalhadores que simplesmente não podem viver a “pandemia caviar”.
Eles precisam sair de casa e trabalhar todos os dias para ganhar a vida. Oeste compilou uma série de dados para estimar quantas pessoas na cidade de São Paulo são obrigadas a se deslocar diariamente para garantir serviços como manutenção de wi-fi, abastecimento de água e energia, entrega de comida, atendimento a clientes em supermercados, farmácias e postos de gasolina.
Nada menos que 4,3 milhões de indivíduos estão nessa situação.
Ou seja: parece razoável presumir que, em vez de reduzir a oferta de transporte público para desestimular aglomerações, o governo deveria ampliar a oferta, dada a existência de um contingente expressivo de pessoas que inevitavelmente terá de sair de casa.
A nova fase da pandemia e a busca por culpados
Em vários Estados brasileiros, nesta segunda fase da pandemia, o sistema de saúde se aproxima do colapso. Especialistas afirmam que o perfil dos internados mudou em relação ao do pico anterior, em julho. Segundo dados do Estado de São Paulo, tem crescido o número de pacientes entre 30 e 50 anos, sem doença prévia. Além disso, o tempo de permanência em UTI aumentou.
“Tínhamos antes média de sete a dez dias de internação, agora ela está em 14 a 17 dias de internação no mínimo em UTI”, diz o secretário de Saúde do Estado de São Paulo, Jean Gorinchteyn.
Ao contrário do primeiro pico, em que foi dada atenção especial a casos de baixa e média complexidade, desta vez o foco é nos pacientes mais graves, que precisam de leitos de UTI. Só que eles estão em falta. Mas alguém parou para se perguntar por que não havia hospitais e leitos de UTI antes da covid-19?
A população já pagou os impostos para a sua construção e operação, e agora paga tudo novamente para, em troca, ouvir dos gestores que é culpada pelas mortes nesta pandemia. Governadores e prefeitos se queixam de que a União suspendeu repasse de recursos para o financiamento de leitos de UTI para a doença.
O governo federal já transferiu R$ 420 bilhões a Estados e municípios. Só para as secretarias de Saúde foram R$ 131 bilhões — R$ 33 bilhões desse montante para gastos exclusivamente no combate à covid-19.
Nesse jogo de empurra, que só evidencia ainda mais a incompetência do poder público em administrar a crise, o bode expiatório preferido para o morticínio no país é o presidente Jair Bolsonaro. É inegável que a gestão federal falhou. Falhou ao não negociar antecipadamente a aquisição de vacinas no ano passado. Agora falta produto no mercado. Quem se planejou e comprou com antecedência saiu na frente. É o caso de Israel, Estados Unidos e Reino Unido.
O Brasil ficou atrás na fila. Vacinamos até o momento apenas cerca de 5% da população brasileira — embora, em números absolutos, estejamos em quinto lugar no mundo. O caminho ainda é longo e, apesar das promessas de entrega de doses, ficamos na dependência dos laboratórios para acelerar a vacinação. É fato também que a pandemia tem sido tratada pelo presidente num discurso com sérios problemas de comunicação. A questão da vacina é um exemplo. Bolsonaro se manteve resistente em relação à imunização e preferiu investir no debate sobre o tratamento precoce, como se uma coisa excluísse a outra.
A politização de medicamentos não contribuiu para o debate, pelo contrário. Acirrou ânimos partidários e afastou a ciência do centro da discussão. Entretanto, desde o início, a preocupação de Bolsonaro com os impactos das medidas de isolamento social na economia é legítima. Mas qualquer tipo de solução intermediária foi execrada pela mídia e por parte dos “cientistas” eleitos para decidirem por você.
Agora, o presidente carrega nas costas a conta das mortes pela covid no país. Como se a pandemia não tivesse começado na China, país que escondeu, com a chancela da Organização Mundial da Saúde, a gravidade da doença. Como se países bem mais desenvolvidos que o Brasil, como Bélgica e Reino Unido, não estivessem amargando números de mortos por milhão de habitantes bem piores do que os nossos. Como se a União Europeia não estivesse às turras enfrentando problemas logísticos e atrasos na vacinação. Parece até negacionismo…
A caçada pelo culpado-mor da pandemia culminou com a cabeça do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. Em uma mudança que já era esperada, o Brasil amanheceu nesta semana com um novo ministro, o quarto a comandar a Pasta. O médico cardiologista Marcelo Queiroga ainda não assumiu oficialmente o cargo, mas já está em Brasília aquecendo as turbinas. Queiroga caiu no “olho do furacão” e terá a missão de conduzir o país em meio ao pior momento da tragédia sanitária. O maior desafio de todos: garantir a vacinação em massa.
Se faltava um jaleco ao futuro ex-ministro Pazuello, a questão está resolvida, embora esse detalhe não tenha impedido a demissão dos antecessores, os também médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich. Queiroga também terá de enfrentar a pressão por leitos de UTI e acompanhar a distribuição de recursos a Estados e municípios. Na última sexta-feira, 12, o Ministério da Saúde liberou R$ 188,2 milhões para financiar quase 4 mil novos leitos de UTI em cidades de 21 Estados.
O poder público, que no ano passado pediu à população que ficasse em casa sob o argumento de que era preciso “achatar a curva” de contágio e assim ganhar tempo para equipar o sistema de saúde a fim de atender à nova demanda, mais uma vez não entrega o que prometeu. Parece cena repetida. Depois de um ano de luto, de isolamento social, de fechamento do comércio, falência de empresas, chega-se ao desastroso quadro atual, sem que tenham sido superados desafios como a oferta adequada de leitos.
De novo, os mais pobres pagam a conta da inépcia dos governantes. Quem tem plano de saúde e pode pagar por bons médicos sabe que a doença tem controle e tratamento, ainda mais quando feitos precocemente, como qualquer outra doença cuidada pela medicina. “O que mais mata no Brasil é o tratamento tardio, isso é um fato”, defende o médico clínico geral e doutor em imunologia Roberto Zeballos. O brasileiro está cansado de replay.
Revista Oeste





0 comments:
Postar um comentário