Jornalista Andrade Junior

FLOR “A MAIS BONITA”

NOS JARDINS DA CIDADE.

-

CATEDRAL METROPOLITANA DE BRASILIA

CATEDRAL METROPOLITANA NAS CORES VERDE E AMARELO.

NA HORA DO ALMOÇO VALE TUDO

FOTO QUE CAPTUREI DO SABIÁ QUASE PEGANDO UMA ABELHA.

PALÁCIO DO ITAMARATY

FOTO NOTURNA FEITA COM AUXILIO DE UM FILTRO ESTRELA PARA O EFEITO.

POR DO SOL JUNTO AO LAGO SUL

É SEMPRE UM SHOW O POR DO SOL ÀS MARGENS DO LAGO SUL EM BRASÍLIA.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Sob o olhar do Xerife de Nottingham

   Dartagnan da Silva Zanela

 Um dos traços da nossa cultura política são as práticas de mandonismo que se fazem presentes de norte a sul do Brasil desde longa data. Claro, cada momento histórico tem lá suas peculiaridades, cada região, suas especificidades; mas esse trem doído continua presente em nossa sociedade — com outras roupagens, é claro.

Todos conhecemos a história da formação dos redutos eleitorais cativos que são controlados por caciques políticos — redutos estes edificados com uma série de benefícios regalados aos seus eleitores que, nos termos populares, sentem-se obrigados a votar em quem o cacique indicar.

O historiador José Murilo de Carvalho, em seu livro Cidadania no Brasil: O longo caminho, chama-nos a atenção para esse triste traço da história política do nosso país, no qual os cidadãos se encontram em uma situação de fragilidade dentro de uma sociedade sem uma sólida cultura de participação democrática.

Detalhe importante: o grande despreparo não vem tanto da parte dos cidadãos desvalidos, mas sim da nossa classe política e das nossas elites econômicas e intelectuais. Isso mesmo, cara-pálida. Pergunte-se: quem coagia os eleitores? Quem comprava os votos? Quem falsificava as atas eleitorais? Com certeza não era o pobre do Jeca Tatu. Demais a mais, o brocardo "em uma eleição vale tudo, menos perder" reflete muito bem a mentalidade predatória dos donos do poder nestas terras de ninguém.

Mas voltemos ao ponto do conto: a compra de votos em nosso país por bagatelas, juntamente com a troca de favores, é um traço permanente na história das eleições brazucas — traço esse que reflete a carência que imperou e impera entre nós e que, de forma cruel, força muitas pessoas a se sentirem reféns daqueles que se apresentam como seus protetores.

Como nos lembra José Osvaldo de Meira Penna, em seu livro O Dinossauro, caudilhos e demagogos de todos os naipes ideológicos não se cansam de se apresentar no imaginário midiático e propagandístico como uma espécie de Robin Hood — que tira dos ricos para dar aos pobres —, quando, na verdade, na maioria das vezes não passam de maquiavélicos Xerifes de Nottingham, que tomam de todos para beneficiar a si mesmos e aos seus.

Podemos dizer que, de certa forma, a velha política do pão e circo nunca sai de cartaz. Sempre funcionou muito bem, funciona online que é uma beleza e, ao que tudo indica, continuará fazendo sucesso por muito tempo. Por quanto tempo? Só Deus sabe.

Pensando nisso e voltando nossos olhos para a conjuntura atual, é bom não nos esquecermos de que muitíssimos brasileiros dependem de algum programa social. Além disso, uma fatia significativa de lares brasileiros possui algum tipo de dívida e outros tantos estão com contas atrasadas ou inadimplentes. Em resumo: são muitos os cidadãos que se encontram em uma situação delicada.

Por isso, as palavras do senhor Luiz Inácio, ditas no ano de 2000, são muito interessantes. Dizia ele que a compra de votos, o clientelismo e demais práticas similares levavam o povo a pensar com o estômago, e não com a cabeça. É por isso que se distribui tanta cesta básica, tanto tíquete de leite, porque na verdade tudo isso seria uma peça de troca em época de eleição que despolitiza o processo eleitoral. É, meu amigo: Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou, e ele está certíssimo no que disse.

Enfim, ao levantar esses pontos, não estou sugerindo que essas famílias devam ser desassistidas — muito pelo contrário, cara-pálida. O que faço é refletir com meus alfarrábios sobre esses pontos e constatar, com pesar, o quão precárias são nossas discussões políticas porque, mesmo estando em pleno século XXI, ainda nos vemos às voltas com um emaranhado de subprodutos do velho coronelismo que, de certa forma, tornou-se, à sua maneira, uma espécie de "doutrina" extraoficial do clientelismo estatista brasileiro, que instrumentaliza a filantropia, reduzindo direitos sociais a favores concedidos por pretensos e intocáveis benfeitores.

*             O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "NAS ENTRANHAS DO LEVIATÃ", entre outros livros.














publicadaemhttps://www.puggina.org/outros-autores-artigo/sob-o-olhar-do-xerife-de-nottingham__18759


ARMADILHA DA DESCONFIANÇA

 INSTAGRAM


ARMADILHA DA DESCONFIANÇA




Petêncio, porque não dividimos o país?

 petêncio/instagram


Petêncio, porque não dividimos o país?



A VITÓRIA VIROU SEU PIOR PESADELO: O PLANO ERRADO, NA HORA ERRADA

 brunomusa/youtube


A VITÓRIA VIROU SEU PIOR PESADELO: O PLANO ERRADO, NA HORA ERRADA

clique no link abaixo e assista

https://www.youtube.com/watch?v=mlRqYJwll9s

A FONTE ORIGINAL DE TODA A NOSSA CORRUPÇÃO

 fernaolaramesquita/youtube


A FONTE ORIGINAL DE TODA A NOSSA CORRUPÇÃO


clique no link abaixo e assista

https://www.youtube.com/watch?v=zzBHzuQMf1U

PORQUE SERÁ QUE AS PESSOAS AINDA VOTAM NO PT?

 TOMEABDUCH/FACEBOOK


PORQUE SERÁ QUE AS PESSOAS AINDA VOTAM NO PT?



COMO FUNIONA NA REAL

 IAFRUTAS/INSTAGRAM


COMO FUNIONA NA REAL



Antonio Gramsci e o Outubro Vermelho

 percivalpuggina/youtube


Antonio Gramsci e o Outubro Vermelho


clique no link abaixo e assista

https://www.youtube.com/watch?v=E7JLsVyCLxo

OLHA O PACOTE QUE A REELEIÇÃO TROUXE

 FACEBOOK


OLHA O PACOTE QUE A REELEIÇÃO TROUXE



ABSURDO! Lula Censura Desenho Cristão da Record!

 deltandallagnol/youtube


ABSURDO! Lula Censura Desenho Cristão da Record!


clique no link abaixo e assista

https://www.youtube.com/watch?v=e_dbBuYzGAs

A Enganação da Imprensa Para Salvar Moraes do Impeachment!

 andremarsiglia/youtube


A Enganação da Imprensa Para Salvar Moraes do Impeachment!

clique no link abaixo e assista

https://www.youtube.com/watch?v=ZrDgBiY9jRQ

Coppolla analisa a ‘semana da ressaca’ após reeleição de Lula

 caiocoppolla/youtube


Coppolla analisa a ‘semana da ressaca’ após reeleição de Lula


clique no link abaixo e assista

https://www.youtube.com/watch?v=QxzRNvKarS4

ENTENDA AS ARMAÇÕES NO CONGRESSO NACIONAL

 RONI GABRIEL/FACEBOOK


ENTENDA AS ARMAÇÕES NO CONGRESSO NACIONAL



REGRA É MAL ENTENDIDA

 GRANAPRATICABR


REGRA É MAL ENTENDIDA



MÍDIA ESCONDE FATOS GRAVES DOS BRASILEIROS | LACOMBE

 luisernestolacombe/youtube


MÍDIA ESCONDE FATOS GRAVES DOS BRASILEIROS | LACOMBE

clique no link abaixo e assista

https://www.youtube.com/watch?v=82RhlrGAGng&t=11s

IMPRENSA AMERICANA CONTRA MORAES

 ELIABECOSTA/THREADS


IMPRENSA AMERICANA CONTRA MORAES



segunda-feira, 2 de novembro de 2026

A Guerra Silenciosa na América Latina

 Marcos H. Giansante 


“Quando o saque se torna um modo de vida para um grupo de homens numa sociedade…” — Frédéric Bastiat, Sofismas Econômicos.

Nasci em uma América Latina que ainda acreditava que os jornalistas eram guardiões dos fatos, não curadores de narrativas. Seis décadas depois, esse ethos foi em grande parte substituído pelo que Alexis de Tocqueville previu como “despotismo democrático”: um poder suave e onipresente que reduz os cidadãos a “rebanhos de animais tímidos e industriosos” sob a tutela do Estado.

Essa transformação não foi repentina. Sua arquitetura foi construída gradualmente pelo Foro de São Paulo, lançado em 1990 por Luiz Inácio Lula da Silva e Fidel Castro. A estratégia era infiltrar-se lentamente, moldar mentalidades e corroer resistências, começando pelas escolas, núcleos culturais artísticos, púlpitos, redações e, por fim, tribunais.

Ecoando o alerta de Bastiat, o Foro substituiu os direitos clássicos à vida, liberdade e propriedade por uma ordem moral que justifica a coerção em nome da justiça. Hayek advertiu que a liberdade exige responsabilidade individual, enquanto Burke nos lembrou: “Tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada”.

Este ensaio traça a ascensão do Foro, das universidades às cortes supremas, e pergunta: como resistir a uma força que corrói em vez de confrontar?

 

Origens e Métodos Silenciosos

O Foro de São Paulo não surgiu no vácuo. Ele emergiu de um processo complexo e prolongado que reformulou o vocabulário moral e político da América Latina. Fundado em 1990 por Lula da Silva e Fidel Castro, o Foro nasceu oficialmente como uma reação ao colapso do bloco soviético. Mas suas raízes institucionais e ideológicas são mais profundas, estendendo-se a salões paroquiais, assembleias sindicais e salas de seminário.

As bases foram lançadas no final da década de 1960, quando a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) aprovou uma nova estratégia pastoral inspirada pelo Concílio Vaticano II. Em sua VII Assembleia Geral (1966–1970), a CNBB aprovou o Plano de Pastoral de Conjunto (Doc. 77), que orientava a Igreja a “ajustar-se à realidade socioeconômica do país” e promover o testemunho cristão por meio de uma “presença construtiva na sociedade”.

Essa nova abordagem encontrou seu braço operacional nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), grupos de base liderados por leigos que combinavam estudo bíblico com consciência política. Segundo estudiosos, essas comunidades tornaram-se incubadoras de consciência política, especialmente entre os pobres e a classe trabalhadora. Um estudo sobre a esquerda católica e a formação do Partido dos Trabalhadores (PT) descreve as CEBs como “pontes entre o mundo eclesial e o político”, despertando nos cristãos um “compromisso político a partir da perspectiva dos oprimidos” (A esquerda católica na formação do PT). Enquanto isso, os frades dominicanos de São Paulo avançavam em uma forma mais radical de engajamento. Em Cartas da Prisão, Frei Betto relata que diversos clérigos dominicanos “serviram de apoio logístico” a grupos revolucionários como a ALN de Carlos Marighella. Suas atividades confundiam caridade cristã com resistência armada. Mais tarde, Frei Betto se tornaria um dos mais proeminentes defensores da teologia da libertação, argumentando que “fé cristã e análise marxista não apenas são compatíveis, mas aliadas necessárias” na luta contra o capitalismo.

Até meados dos anos 1980, o Partido dos Trabalhadores, alimentado por esse ecossistema teológico-político, havia absorvido grande parte do capital humano das CEBs. O 5º Encontro Nacional do PT (1987) revela a guinada ideológica do partido: as resoluções apoiam explicitamente o “socialismo popular” e condenam o “imperialismo norte-americano”, sinalizando alinhamento com agendas revolucionárias em toda a América Latina.

Nesse contexto, o Foro de São Paulo foi menos uma ruptura e mais uma culminação. Ele formalizou uma rede já construída por décadas de realinhamento moral, infiltração de base e reengenharia cultural. Sua força não vinha de vencer debates eleitorais, mas de remodelar os próprios critérios pelos quais se entendem legitimidade política, justiça e liberdade. Era, nas palavras de Hayek, “não pelo poder de coagir, mas pelo poder de moldar consciências.”

 

Educação, Mídia e Religião: As Trincheiras Invisíveis

Se o Foro de São Paulo foi o motor, educação, mídia e religião foram seu sistema de transmissão. Esses setores, formalmente apolíticos, tornaram-se condutores de realinhamento ideológico. A mudança não ocorreu por decreto, mas por captura epistemológica gradual: redefinir o que conta como verdade, virtude e justiça. No Brasil, teóricos do direito passaram a defender abertamente princípios largamente derivados de normas progressistas internacionais em vez da jurisprudência local.

Nas universidades brasileiras, especialmente nas faculdades de jornalismo, direito e economia, a transição foi sutil, mas decisiva. Os currículos abandonaram referências liberais clássicas, direito natural, individualismo metodológico e propriedade privada, em favor do positivismo jurídico, do keynesianismo e do planejamento tecnocrático. Alunos que antes liam Locke e Bastiat agora discutem Foucault e Gramsci. O resultado? Um clima intelectual que vê o Estado não como um mal necessário, mas como bússola moral do progresso.

A mídia, antes povoada por repórteres comprometidos com os fatos independentemente de sua visão política, seguiu o mesmo caminho. Lembro de jornalistas dos anos 1970, alguns alinhados à esquerda, que ainda prezavam a verdade acima da narrativa. Esse código se perdeu. Hoje, muitos atuam como ativistas com crachá de imprensa. Já em 1988, Herbert de Souza (Betinho) escrevia que o objetivo era formar uma “nova cidadania” por meio da mídia, “não a neutralidade, mas o engajamento”.

Nos círculos religiosos, a transformação foi ainda mais profunda. As CEBs — inicialmente redes de apoio espiritual — tornaram-se centros de mobilização política. A teologia da libertação, especialmente como formulada por Leonardo Boff, reinterpretou Cristo não como redentor das almas, mas como libertador revolucionário dos oprimidos. Em Jesus Cristo Libertador, Boff afirma que “o pecado já não é mais uma transgressão individual, mas uma injustiça sistêmica”. Sua leitura encontrou eco em dioceses e seminários, especialmente entre os dominicanos paulistas e a própria CNBB, que deu respaldo institucional às CEBs ao longo das décadas de 1970 e 80.

Essa tripla captura, da escola, da imprensa e do púlpito, não ocorreu da noite para o dia. Seguiu o método paciente: infiltrar, falar a linguagem da paz e redefinir a moralidade por meio da erosão cultural. Por volta de 1990, quando o Foro foi criado formalmente, o campo semântico da política latino-americana já estava moldado. As eleições podiam ser vencidas ou perdidas, mas as palavras, o que significam justiça, liberdade e dignidade, já pertenciam à narrativa dominante. O Foro não precisava mais conquistar países pela força; ele já havia conquistado suas consciências.

 

Dos Andes ao Prata: Uma Teia Continental

O Foro logo se tornou engrenagem continental. De Chávez na Venezuela e Evo Morales na Bolívia aos Kirchners na Argentina e Bachelet no Chile, partidos e governos convergiram para uma agenda comum: substituir gradualmente a ordem liberal por um Estado centralizador.

Inspirados em Gramsci, priorizaram a hegemonia cultural. Leis de “mídia democrática”, reformas constitucionais e tribunais militantes avançaram onde tanques falhariam. Mesmo governos tidos como moderados, como no Uruguai ou Paraguai, adotaram políticas intervencionistas, confiantes de que o novo léxico moral blindaria críticas como “reacionárias” ou “imperialistas”.

A durabilidade dessa rede vem da adaptabilidade: ela fala em inclusão, progresso e direitos humanos enquanto corrói as bases institucionais que sustentam esses ideais.

 

Conclusão: Nomear o Inominado

Em seu Discurso da Servidão Voluntária, Étienne de La Boétie mostrou que povos se submetem não só pela força, mas pelo hábito e pela sedução. O Foro de São Paulo opera assim: redefine virtudes, troca liberdade por tutela e rotula contestação como egoísmo.

Resistir exige mais que urnas e slogans: requer recuperar os primeiros princípios, propriedade, responsabilidade e verdade. Como alertou Ludwig von Mises, “somente ideias podem derrotar ideias”. Denunciar o Foro é restaurar um vocabulário em que justiça não é redistribuição compulsória, mas limite ao poder, e liberdade não é favor do Estado, mas direito inalienável.

A guerra silenciosa continua, mas nomear o agressor já é meio caminho para vencê-la.











publicadaemhttps://mises.org.br/artigos/9516/a-guerra-silenciosa-na-america-latina/

Democracia: entre a ameaça de truculência da maioria e a pressão de grupos minoritários

   Og Leme


Qualquer processo político é precário, o democrático inclusive. Essa precariedade é devida a várias causas, mas não é propósito desta nota comentá-las, e sim referir-se apenas a duas das debilidades próprias da democracia, ambas pressentidas por Alex de Tocqueville e por ele mencionadas em seu livro A Democracia na América; ambas foram posteriormente tratadas com mais detalhes por autores contemporâneos, entre os quais Hayek e Buchanan, dois economistas laureados com o Prêmio Nobel.

Hayek preocupou-se especialmente com a degradação do processo democrático que poderia decorrer da permanente ameaça da “tirania” da maioria e sua consequência, o esmagamento da minoria. James Buchanan, por sua vez, dedicou boa parte de su profícua vida acadêmica à análise do perigo da “subversão” das minorias, de cuja análise nasceu a moderna corrente de pensamento econômico conhecida como a “escola da escolha pública”.

São duas ameaças reais, e não meras hipóteses acadêmicas ou meras especulações teóricas. Ambas têm estado em ação praticamente em todas as democracias, inclusive na dos EUA. A intuição de Tocqueville não o traiu: hoje os cientistas políticos reconhecem que o processo político da democracia é extremamente frágil, navegando sempre e perigosamente entre Cila e Caríbdis, isto é, entre a ameaça de alguma truculência da maioria ou uma molecagem de algum grupo minoritário disposto a subverter a pureza das instituições liberal-democráticas, usando para tal fim, sub-repticiamente, instrumentos políticos tidos convencionalmente como lícitos.

Hayek dedicou mais tempo à análise de dois problemas: 1) a legitimidade da representação não apenas em seu sentido mais corrente, mas também o da legitimidade de representação cultural, no sentido de os representantes serem fiéis aos valores, usos, costumes e tradições do povo que eles representam; 2) a autenticidade das leis que, segundo Hayek, dependiam de serem universais, abstratas e prospectivas, ao contrário de ordens administrativas, que são concretas, objetivas, especificamente dirigidas a determinadas pessoas, tempo e circunstâncias. A fim de minimizar os dois problemas, Hayek sugeria a substituição do conceito vigente de democracia pela nova ideia de uma demarquia (ver seu livro Direito, Legislação e Liberdade), e rigorosa vinculação do conceito de lei àqueles três atributos acima mencionados.

A preocupação de Buchanan é com a capacidade que podem ter grupos de pressão, no sentido de obterem privilégios legais em detrimento do resto da sociedade. Mais ainda: preocupação com o fato de serem essas vantagens conseguidas por meios políticos supostamente legítimos… e, pior ainda, com o beneplácito dos Três Poderes, incluída aí a Suprema Corte dos EUA.

Buchanan não alimenta muita esperança de que algum tipo de Constituição ideal possa superar os obstáculos por ele identificados. Hayek, por sua vez, não conseguiu o apoio que certamente esperava à sua demarquia, tida por muitos como utopia ou, então, como um instrumento exequível, mas incapaz de preservar a legitimidade cultural e o conceito de lei autêntica.

Assim, parece que as democracias continuarão a cumprir a sua sina de navegar entre Cila e Caríbdis. Isso significa que esse problema não possa ser minimizado? A resposta é Não. Enquanto não se encontrar uma solução cabal, a solução do tipo second best continua a ser a redução da dimensão do processo político, o que se consegue com a devolução à esfera das decisões individuais de todos os assuntos de sua competência e que atualmente se encontram – em todos os países e em diferentes graus – em mãos do setor público.













publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/democracia-entre-a-ameaca-de-truculencia-da-maioria-e-a-pressao-de-grupos-minoritarios/

Quando a vítima vira ‘vitimista’

 julianaantonelli


“Liberdade de expressão não elimina a responsabilidade de educadores, jornalistas, autores e cidadãos de contestar erros”

A relativização do Holocausto não ameaça apenas a memória dos mortos. Ela corrói os critérios de verdade, responsabilidade e convivência que sustentam uma sociedade livre.

Em um vídeo que circulou nas redes sociais, uma menina entrevistada durante uma Bienal do Livro afirmou que O Diário de Anne Frank era um livro ruim porque Anne “se vitimizava demais”. A frase provocou indignação, e com razão.

Anne Frank não era uma personagem em busca de atenção. Era uma adolescente judia escondida dos nazistas, em um país ocupado, sob o risco permanente de ser presa e assassinada. Descoberta em 1944, ela morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen, em 1945.

Mas a reação ao vídeo também merece uma reflexão mais ampla. O problema não é apenas uma opinião equivocada sobre um livro. O episódio revela como a relativização do Holocausto pode avançar, muitas vezes, não começando com a negação explícita dos campos de extermínio ou das câmaras de gás. Começa com a banalização da experiência das vítimas, com a inversão da responsabilidade e com a transformação do sofrimento documentado em uma espécie de exagero subjetivo.

É importante, contudo, não transformar a menina em alvo. Uma sociedade liberal deve defender o direito de alguém, inclusive de uma adolescente, fazer uma leitura ruim, superficial ou até ofensiva de uma obra. Liberdade de expressão não existe apenas para opiniões maduras, corretas ou socialmente aprovadas. Ela existe justamente porque seres humanos são falíveis e porque o debate aberto é preferível à censura.

Isso não significa que todas as opiniões mereçam o mesmo grau de credibilidade. Liberdade de expressão não elimina a responsabilidade de educadores, jornalistas, autores e cidadãos de contestar erros. Uma opinião pode ser permitida e, ao mesmo tempo, intelectualmente indefensável. O papel de uma sociedade aberta não é proibir a ignorância, mas impedir que ela se apresente como conhecimento sem ser questionada.

O não vitimismo de Anne Frank

Anne Frank não “se vitimizava”. Ela registrava a vida em condições de perseguição, confinamento e medo. Seu diário não é um manifesto de autopiedade, mas o relato de uma jovem tentando preservar sua humanidade em meio a um sistema criado para desumanizá-la. Reduzir essa experiência à linguagem contemporânea do “vitimismo” é um erro histórico e moral.

O termo “vitimismo” pode ser útil em algumas situações. Há, de fato, pessoas que instrumentalizam o sofrimento para escapar de responsabilidades ou obter vantagens indevidas. O debate público deve ser capaz de distinguir entre sofrimento real e manipulação política. O problema surge quando esse vocabulário é aplicado indiscriminadamente a qualquer vítima. Nesse caso, a crítica deixa de examinar responsabilidades e passa a suspeitar de quem sofreu.

No caso do Holocausto, essa inversão é especialmente perigosa. O genocídio dos judeus europeus não foi uma tragédia abstrata nem uma disputa de versões. Foi uma política de Estado, organizada pela Alemanha nazista e executada com a colaboração de instituições, agentes públicos e grupos aliados. Aproximadamente seis milhões de judeus foram assassinados. A perseguição começou com leis, registros, boicotes, exclusões e confiscos antes de chegar aos guetos, deportações e campos de extermínio.

A relativização não se limita a afirmar que o Holocausto não aconteceu. Ela também pode minimizar o número de vítimas, desculpar os perpetradores, sugerir que os judeus provocaram a própria perseguição ou comparar o genocídio de maneira oportunista para diluir sua especificidade. A definição de trabalho da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto reconhece essas formas de distorção como parte de um mesmo fenômeno, a tentativa de deformar os fatos para reduzir a responsabilidade dos criminosos e tornar novamente aceitáveis ideias antissemitas.

Além da história

É nesse punto que o tema deixa de ser apenas histórico e passa a ser político, no sentido mais amplo da palavra. Uma democracia depende de cidadãos capazes de distinguir fatos de preferências. Se toda evidência pode ser descartada como “narrativa”, se todo testemunho de uma vítima é tratado como exagero e se todo agressor pode ser apresentado como alguém com “seus motivos”, o espaço público perde uma referência fundamental: a responsabilidade.

A defesa da verdade histórica não é uma pauta de esquerda ou de direita. É uma exigência liberal. O liberalismo, em sua melhor tradição, combina a proteção da liberdade individual com o reconhecimento de que a vida em sociedade depende de regras, instituições e fatos compartilhados. Sem isso, a liberdade se transforma em mera competição entre versões, na qual vence não quem tem razão, mas quem grita mais alto, manipula melhor os algoritmos ou dispõe de maior poder político.

O Holocausto também prejudica a educação. O estudante que aprende apenas a repetir datas e números talvez não desenvolva compreensão histórica, mas aquele que aprende que toda fonte é igualmente suspeita pode concluir que não existem fatos, apenas versões concorrentes. Entre a memorização vazia e o relativismo absoluto, a educação deve ensinar a examinar evidências, reconhecer a autoridade de fontes confiáveis e compreender como o conhecimento histórico é construído.

Isso não exige transformar a escola em instrumento de doutrinação. Ao contrário: exige formar pessoas capazes de pensar criticamente, distinguir argumento de propaganda e questionar qualquer autoridade, inclusive aquela que se apresenta em nome da liberdade.

Uma sociedade aberta não teme o debate; teme a perda dos critérios que tornam o debate racional possível. Por isso, defender Anne Frank e preservar a memória do Holocausto não significa impedir opiniões controversas nem transformar uma adolescente em alvo de punição pública. Significa rejeitar a confusão entre liberdade e indiferença diante dos fatos. A liberdade de expressão protege o direito de falar, mas uma cultura liberal também depende do compromisso de ouvir, investigar, corrigir erros e responsabilizar quem deliberadamente distorce a realidade.

O verdadeiro oposto do vitimismo não é a suspeita permanente contra as vítimas. É a responsabilidade: dos agressores pelos crimes que cometeram, das instituições por suas escolhas e de cada geração pela memória que decide preservar. Lembrar o Holocausto é, portanto, mais do que honrar os mortos. É defender as condições intelectuais e morais sem as quais nenhuma sociedade livre pode existir.

(Texto escrito por Juliana Antonelli, diretora do Instituto Atlantos e colaboradora do Instituto Liberal).





















publicadaemhttps://www.institutoliberal.org.br/blog/politica/quando-a-vitima-vira-vitimista/

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More