A Toca do Lobo
Minha relação com o dinheiro é puramente platônica: eu o admiro de longe, ele me evita ativamente. Por isso, quando leio que alguém assinou um contrato de 129 milhões de reais, sendo pagos com 3,6 milhões por mês, meu primeiro instinto não é inveja, mas a vontade de buscar um psiquiatra para tratar a minha noção de realidade. É uma quantia tão obscena que, se eu a tivesse, eu provavelmente passaria o resto da vida me escondendo num bunker, com medo de que o universo me cobrasse o troco.
O caso em questão envolve uma advogada cuja trajetória jurídica é tão invisível quanto a ética em um cassino de beira de estrada. O sujeito, que faria Tio Patinhas sentir-se um humilde pedinte, paga uma fortuna para ser representado por ela. Mas aí vem a reviravolta digna de um roteiro de Kafka filmado pelo Jerry Lewis: quando o sujeito sente o bafo quente da justiça no cangote, ele, curiosamente, não liga para a sua caríssima defensora, que pelo preço deveria ser a melhor conselheira jurídica do universo. Ele liga para o marido dela. 🤔
É uma coreografia fascinante. O marido, por um acaso do destino (ou por uma conspiração de deuses muito entediados), ocupa um cargo tão alto na hierarquia do universo que ele praticamente decide se a gravidade continua valendo para o resto de nós.
É o tipo de comportamento que me faz questionar a natureza da realidade. É como se um camarada pagasse uma fortuna para uma cardiologista renomada, mas, ao sentir uma pontada no peito, ignorasse o estetoscópio da doutora e ligasse para o marido dela para perguntar se deve tomar uma aspirina ou apenas aceitar o seu próprio fim.
O que temos aqui? Seria um caso de machismo anacrônico, onde o cliente ignora o "talento" milionário da contratada em favor da autoridade de seu "humilde" esposo, ou estamos diante daquela velha e clássica arquitetura de "fachada", onde o dinheiro entra por uma porta jurídica para que a influência saia pela janela dos fundos?
Sigo perplexo no meu mundinho modesto, onde por pagamentos de mais de 3 milhões de reais por mês, eu esperaria que a advogada não apenas me defendesse, mas que também realizasse alguns milagres menores, como transformar água em vinho ou me fazer entender o sucesso de crítica dos filmes do Kleber Mendonça Filho. Mas, aparentemente, no andar de cima, o que se compra não é o saber jurídico, mas sim o telefone certo para se ligar na hora do desespero.
A Toca do Lobo





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