por Guilherme Fiuza
LuĂs Roberto Barroso e Heraldo Pereira subiram ao palco para um duo musical.
LuĂs Roberto Barroso Ă© ministro do Supremo Tribunal Federal e Heraldo Pereira Ă© jornalista da TV Globo.
Vamos começar com uma ressalva.
A TV Globo tem um papel importante em mais de meio século de jornalismo, entretenimento e principalmente dramaturgia.
Quem tem apreço pela cultura só pode desejar que ela supere diretrizes equivocadas e siga prestando serviços relevantes nessas åreas.
Feita a ressalva, voltemos à pantomima. Ela contém muitos significados.
O mais expressivo deles estĂĄ relacionado Ă questĂŁo da imunização: Barroso e Heraldo mostraram a certeza de estarem imunes ao pĂșblico, aos cidadĂŁos e Ă s instituiçÔes.
O poder Ă© deles e eles fazem com isso o que bem entenderem — inclusive atravessar o samba da promiscuidade.
Barroso estĂĄ sempre bem na tela que Heraldo ocupa.
Ou mais que isso: nos Ășltimos dois governos, essa tela dispara diariamente contra o ocupante da cadeira presidencial — e nos Ășltimos dois governos Barroso se dedica com afinco Ă mesmĂssima atividade.
Por mais de um ano, essa tela bombardeou sem parar o entĂŁo presidente da RepĂșblica Michel Temer, baseando-se na delação imprestĂĄvel do criminoso confesso Joesley Batista — delação que inclusive acabou suspensa.
Barroso virou uma espécie de palestrante antibolsonarista, um onipresente e inveterado personagem de lives colegiais
Esse cerco regido de forma rudimentar pelo entĂŁo procurador-geral da RepĂșblica Rodrigo Janot, cujo ex-braço direito na Procuradoria foi o instrutor de Joesley na manobra, contava com a ação diligente de LuĂs Roberto Barroso.
O ministro do STF fez a sua parte prorrogando indefinida e artificialmente as investigaçÔes contra o entĂŁo presidente da RepĂșblica, sem qualquer inibição diante dos indĂcios comprometedores que insistiam em nĂŁo aparecer.
Manter o cerco a Temer era um ato singelo, como subir num palco e cantar. Cada um na sua.
O governo mudou, entrou no palåcio outro presidente, mas a tela e a toga mantiveram a mira na mesma direção.
Barroso virou uma espécie de palestrante antibolsonarista, um onipresente e inveterado personagem de lives colegiais, cheias de construçÔes filosóficas indigentes sobre aspiraçÔes iluministas contra o espectro do fascismo imaginårio.
Um numerão patético.
Esse numerão patético ficaria relegado à sua condição bastarda se não fosse, fiel e invariavelmente, envernizado na poderosa tela ancorada pelo companheiro Heraldo.
Afinação é tudo.
Por outro lado, se coloque no lugar do Barroso.
O que vocĂȘ faria se o mais poderoso dos holofotes te buscasse no fundo da sua mediocridade e te transformasse em orĂĄculo? VocĂȘ subiria num palco e soltaria a voz, certo?
Pois Ă©, foi exatamente o que ele fez.
E o mais comovente na cena do supremo caraoquĂȘ foi o seguro de vida.
Estava lĂĄ o Heraldo, o representante da seguradora, rosto e voz da alquimia oracular que ungiu o felizardo Barroso, lado a lado com ele, validando a apĂłlice ao vivo, confiança na veia, rosto colado e sem mĂĄscara — porque quem estĂĄ imune a tudo e a todos nĂŁo precisa de mĂĄscara.
Nem para esconder o vexame.LuĂs Roberto Barroso e Heraldo Pereira subiram ao palco para um duo musical. LuĂs Roberto Barroso Ă© ministro do Supremo Tribunal Federal e Heraldo Pereira Ă© jornalista da TV Globo.
Vamos começar com uma ressalva. A TV Globo tem um papel importante em mais de meio século de jornalismo, entretenimento e principalmente dramaturgia. Quem tem apreço pela cultura só pode desejar que ela supere diretrizes equivocadas e siga prestando serviços relevantes nessas åreas.
Feita a ressalva, voltemos Ă pantomima. Ela contĂ©m muitos significados. O mais expressivo deles estĂĄ relacionado Ă questĂŁo da imunização: Barroso e Heraldo mostraram a certeza de estarem imunes ao pĂșblico, aos cidadĂŁos e Ă s instituiçÔes. O poder Ă© deles e eles fazem com isso o que bem entenderem — inclusive atravessar o samba da promiscuidade.
Barroso estĂĄ sempre bem na tela que Heraldo ocupa. Ou mais que isso: nos Ășltimos dois governos, essa tela dispara diariamente contra o ocupante da cadeira presidencial — e nos Ășltimos dois governos Barroso se dedica com afinco Ă mesmĂssima atividade. Por mais de um ano, essa tela bombardeou sem parar o entĂŁo presidente da RepĂșblica Michel Temer, baseando-se na delação imprestĂĄvel do criminoso confesso Joesley Batista — delação que inclusive acabou suspensa.
Barroso virou uma espécie de palestrante antibolsonarista, um onipresente e inveterado personagem de lives colegiais
Esse cerco regido de forma rudimentar pelo entĂŁo procurador-geral da RepĂșblica Rodrigo Janot, cujo ex-braço direito na Procuradoria foi o instrutor de Joesley na manobra, contava com a ação diligente de LuĂs Roberto Barroso. O ministro do STF fez a sua parte prorrogando indefinida e artificialmente as investigaçÔes contra o entĂŁo presidente da RepĂșblica, sem qualquer inibição diante dos indĂcios comprometedores que insistiam em nĂŁo aparecer.
Manter o cerco a Temer era um ato singelo, como subir num palco e cantar. Cada um na sua.
O governo mudou, entrou no palåcio outro presidente, mas a tela e a toga mantiveram a mira na mesma direção. Barroso virou uma espécie de palestrante antibolsonarista, um onipresente e inveterado personagem de lives colegiais, cheias de construçÔes filosóficas indigentes sobre aspiraçÔes iluministas contra o espectro do fascismo imaginårio. Um numerão patético.
Esse numerão patético ficaria relegado à sua condição bastarda se não fosse, fiel e invariavelmente, envernizado na poderosa tela ancorada pelo companheiro Heraldo. Afinação é tudo.
Por outro lado, se coloque no lugar do Barroso. O que vocĂȘ faria se o mais poderoso dos holofotes te buscasse no fundo da sua mediocridade e te transformasse em orĂĄculo? VocĂȘ subiria num palco e soltaria a voz, certo? Pois Ă©, foi exatamente o que ele fez.
E o mais comovente na cena do supremo caraoquĂȘ foi o seguro de vida. Estava lĂĄ o Heraldo, o representante da seguradora, rosto e voz da alquimia oracular que ungiu o felizardo Barroso, lado a lado com ele, validando a apĂłlice ao vivo, confiança na veia, rosto colado e sem mĂĄscara — porque quem estĂĄ imune a tudo e a todos nĂŁo precisa de mĂĄscara. Nem para esconder o vexame.
Barroso — logo ele que falou tanto em ameaça totalitĂĄria — manda demitir por justa causa nĂŁo vacinados, se lixando para o fato de que as vacinas nĂŁo bloqueiam contĂĄgio e nĂŁo tĂȘm estudos conclusivos sobre riscos.
Ele nĂŁo precisa de nada disso.
Com o holofote do Heraldo, ele pode reescrever a ciĂȘncia inteira se quiser, entre um refrĂŁo e outro.
VocĂȘ estĂĄ indignado porque nĂŁo fez as amizades certas.
Subo nesse palco, minha alma cheira a talco, como bumbum de bebĂȘ.
Quero mil bolsonaros para eternizar o meu humanismo de fachada empoderado pela tela mais vista do continente.
Com a minha fala mole o céu é o limite, porque a alquimia eletrÎnica transforma afetação em erudição e quase ninguém diz. Pelo menos aqui do gabinete não då pra ouvir.
E criar uma conjunção de poder particular fingindo prestar serviços ao pĂșblico Ă© gostoso demais.
A diferença entre um doutrinador e um farsante estĂĄ no nĂvel de distração da plateia. AtĂ© aqui, tudo bem.
Revista Oeste
PUBLICADAEMhttp://rota2014.blogspot.com/2021/12/a-tela-e-toga-por-guilherme-fiuza.html




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