por José Nêumanne
A eleição de 2018, a ser decidida em 28 de outubro próximo, foi disputada sob a égide das fake news,
expressão inglesa da moda que serve para disfarçar palavras mais duras
na língua do caolho Camões, tais como mentira, lorota e estelionato. O
Tribunal Superior Eleitoral finge combater as que circulam nas redes
sociais e ficaram famosas por causa dos tweets do
presidente dos EUA, Donald Trump. Mas não se conhece autoridade no
Estado brasileiro que investigue pra valer as notícias falsas que
deturpam e fraudam, de verdade, a decisão soberana do eleitor em
campanhas e palanques, do bico de pena da Primeira República às urnas
eletrônicas.
Coleguinhas apressados no Brasil e no exterior, acadêmicos militantes e
analistas ignorantes e improvisados em geral detectam na revolta contra o
Estado estroina e espoliador uma onda “conservadora”. O termo é suave
para definir esse discurso infame. A palavra direita, usada com nojo e
sem pudor, até por jornais de alta circulação, passou a ser mero
eufemismo, quando cotejada com as lembranças do Holocausto e da ditadura
militar, cujos fantasmas pairam em discursos de candidatos alijados do
processo pelo poder soberano do eleitor. Um desses candidatos, Ciro
Ferreira Gomes, coronel da República de Sobral nascido em
Pindamonhangaba, usa termos como nazi-fascistas para definir os quase 50
milhões de brasileiros que deram o primeiro lugar no primeiro turno ao
deputado e capitão reformado Jair Bolsonaro. O espelho do
multipartidário do Ceará deve estar quebrado, porque filhote da ditadura
é ele mesmo, civil servil dos militares de 1964, na condição de
parlamentar da Arena. E com irrelevantes serviços prestados aos
desgovernos petistas de Lula e Dilma, dos quais se aproxima e se afasta
de acordo com as próprias conveniências.
Se tivesse frequentado aulas de História no grupo escolar, talvez lhe
fosse permitido vislumbrar a realidade que muitos acadêmicos, incluindo
historiadores, fingem não ver. Getúlio Vargas, estancieiro de São Borja,
no Sul, tornou-se o pai dos pobres e a mãe dos ricos ao fundar o
Estado-empresário na cidade onde os cavaleiros gaúchos amarraram seus
pingos, antiga Corte e capital da República, São Sebastião do Rio de
Janeiro. Desde os idos da ditadura do Estado Novo, os cidadãos
brasileiros têm sustentado a ineficiência de uma casta burocrática
incompetente e gulosa, pendurada nos milhões de cabides de empregos da
máquina pública. Os militares, dos quais o candidato do partido fundado
para manter a herança getulista foi valet de chambre (criado
de quarto), insurgiram-se contra o populismo do caudilho, cuja memória é
desde sempre patrimônio político do engenheiro Leonel Brizola e de seus
prosélitos no atual PDT.
Só que, como diz a juventude dourada das praias de Fortaleza, Gegê já
era. Agora a moda é Lula, o presidente mais popular da História da nossa
República. Ciro Gomes não sabe e não quer aprender que, da mesma forma
que serviu aos militares antigetulistas que aprenderam a tratar os
políticos civis a seu serviço como “vivandeiras de quartel”, está fadado
a passar a vida invejando e louvando os usuários de macacão e colarinho
branco que hoje compõem a república da roubalheira. Sob os auspícios do
ferramenteiro de Garanhuns, essa república bestializa o populacho
inerte, sob o signo do Estado larápio, no qual o contribuinte espoliado
sustenta não apenas os marajás, que se servem do serviço público, mas
também os socialistas de araque, que surrupiam o erário sem deixar
moeda.
Fora do jogo, Ciro voltará ao aprisco a que sempre pertenceu, apoiando
Lula, que, driblando a leniente e serviçal dita “Justiça” Eleitoral,
concorre à Presidência da República, ao transformar seu poste, preboste,
preposto, pau-mandado e moleque de recados num simples codinome. Assim
como Dilma Rousseff era Estela para confundir a repressão à guerrilha no
regime militar, a que Ciro serviu, Lula fez a barba, vestiu a beca do
Professor Preguiça e cobra a conta dos cidadãos que alimentou na urna
mais próxima. Esta é outra lorota desta eleição: o ringue de MMA do
espaço cívico não sedia lutas entre pobres e ricos, socialistas de
araque e nazi-fascistas de ocasião, em suma, esquerda e direita.
Trata-se apenas de uma disputa que vencerá ou a garantia da manutenção
incólume do Estado-empresário, que sobrevive da miséria dos pobres e
distribui prebendas entre miliardários, sob a gatunagem do bem, ou o
justiceiro, que não parece bem saber como, mas promete ao cidadão
indignado combater violência e furto.
Quase 50 milhões de brasileiros foram às urnas com medo, coragem, raiva e
juízo para acabar com a farra do Estado-empresário que virou larápio.
Não acabou no primeiro turno. E mais uma vez, no segundo, a cidadania
brasileira decidirá de que lado está: se se disporá a desmontá-lo ou se
se renderá ao carisma de Lula. Ou seja, perdoará liminarmente seus
crimes, fartamente comprovados, em gratidão pelos anos de alívio em que
se beneficiaram do Bolsa Família, frequentaram escolas nas quais nada
aprenderam, viajaram de avião e compraram automóveis a perder de vista,
que depois, desempregados pelo “gópi”, não tiveram mais como pagar?
Pode parecer cínico e cruel, mas se trata apenas da realidade nua, dura e crua dos fatos. Foram tão bons os tempos do padim que
não pode ser verdadeiro o discurso de quem atribui a felicidade àquela
bonança, que, na verdade, fartura nunca foi. Não é simples mesmo
estabelecer uma conexão lógica entre a carne gorda das vacas de antanho e
os esqueletos esquálidos destes tempos de milhões de desempregados
dormindo ao relento e pedindo uma esmola para matar a fome e um cobertor
para suportar os rigores do inverno de nossa desesperança. Quem achar
que a história não é boa não perderá por esperar o pior, que há de vir.
O capitão teve quase a metade dos votos válidos dos brasileiros, que não
suportam mais pagar com seu emprego a incompetência do
Estado-empresário, somada à volúpia infinita do Estado-larápio. Eles
armaram uma tempestade de votos para dar uma goleada no primeiro tempo,
mas o jogo, como diria Abelardo Barbosa, o Velho Guerreiro, só acaba
quando termina. Nele o PT de Lula, vulgo Haddad, elegeu a maior bancada
na Câmara dos Deputados, Casa do poder que manda na República da
coalizão. Se ganhar a parada final, o que é muito difícil, mas nunca
impossível, o partido dos tesoureiros onipresentes nos escândalos de
corrupção escolherá entre velhos aliados suspeitos sob a mira da Lava
Jato um presidente do Senado para chamar de seu. E a suprema casa da
tolerância federal, que mantém o “guerrilheiro” José Dirceu - cumprindo
pena de 30 anos e meio por corrupção passiva e lavagem de dinheiro –
solto pelo presidente Toffoli, ex-advogado dele, e do solta-tucanos
Gilmar.
A classe média reclamou do Estado que queimava sua poupança nas
manifestações de rua em 2013 e foi traída na eleição fraudada de 2014,
em que Dilma e Temer gastaram 1 bilhão e 400 milhões de reais, segundo
Palocci, que coordenou a primeira campanha de madama tatibitate. E por
Aecinho, que vendeu o ânimo opositor pelas migalhas que caíram da mesa
do churrasco dos irmãos Batista e pelo propinoduto de uma empreiteira da
Bahia de todos os demônios, onde Jaquinho das candongas reina mais
absoluto. Os tucanos sapatearam na cova reservada para o PT no massacre
das eleições municipais de 2016 e agora se escondem num túmulo
abandonado, imaginando que serão esquecidos pelos que esqueceram.
O Senado sem Dilma será menos ridículo mercê do eleitor mineiro que
tornou inócua a penada de Lewandowski, que lhe permitiu que ela
disputasse cargo público antes de completar oito anos do quarentene após
o impeachment. Bob Dylan será poupado dos assassinatos de Blowin in the Wind por
Eduardo Suplicy. Lindbergh ficará rouco de responder a xingamentos de
populares quando pensar que terá sido esquecido e sair às ruas. Requião e
Ciro treinarão sua grosseria sem freios em torneios retóricos
particulares entre eles. Ou seja, os lugares que eles não mais
frequentarão se tornarão mais civilizados e agradáveis.
Mas é cedo para saber se a República larápia ainda será combatida por
policiais, procuradores e juízes federais que atuam desde 2014 na Lava
Jato. Isso dependerá da decisão medrosa, corajosa, raivosa e racional do
cidadão no domingo 28. Graças a Deus, ele continua dono dos destinos da
República. E resolverá se chegou, ou não, a hora da libertação do jugo
de quem furta nosso suado dinheirinho se fazendo de defensores do povo.
Com Blog do Augusto Nunes - Veja
extraidaderota2014blogspot




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