Gil Castello Branco
O escritor português Eça de Queiroz dizia: “Políticos e fraldas devem
ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo.” A partir das
manifestações de junho de 2013, os brasileiros descobriram que com um
celular à mão era possível mobilizar outras milhões de pessoas e
participar ativa e diretamente da política. A maioria dos partidos
políticos, entretanto, continuou na mesmice, curtindo os conchavos, os
cargos, os R$ 2,6 bilhões (2018) dos fundos partidário e eleitoral e os
privilégios. Deu no que deu: a indignação das redes sociais foi para as
urnas.
Já havia sinalizações claras do que estava para acontecer. A Fundação
Getulio Vargas (FGV) constatou no segundo semestre do ano passado que os
brasileiros não confiavam no presidente da República (83,2%), nos
políticos eleitos (78,3%) e nos partidos (78,1%).
Curiosamente, para os entrevistados, as duas instituições mais
confiáveis eram a Igreja (61,5%) e os militares (45,8%). A corrupção era
a principal responsável pela angústia do brasileiro, independentemente
de idade, nível de escolaridade, renda e região do país. A insatisfação
era tamanha que 71,6% dos brasileiros afirmaram que, se fosse possível,
sairiam do Brasil.
Na contramão dos anseios de moralização, os atuais deputados federais e
senadores têm, somados, 1.274 inquéritos e processos judiciais. A
bancada campeã é a de São Paulo, que responde a 200 processos judiciais;
seguida por Minas Gerais, com 100; Santa Catarina, com 86; e o Rio de
Janeiro, com 81, segundo a ONG Ranking dos Políticos. Os partidos
políticos, em sua maioria, também não afastaram os seus integrantes
atolados na Lava-Jato e ainda “rasgaram” as Dez Medidas de Combate à
Corrupção propostas por 1,6 milhão de brasileiros. Ao virarem-se de
costas para a sociedade, pagaram o preço...
Dos 32 senadores que tentaram a reeleição, só oito conseguiram. Entre os
24 que fracassaram está a cúpula do Senado, incluindo o presidente
Eunício Oliveira (MDB-CE), o vice-presidente Cássio Cunha Lima (PSDB-PB)
e Romero Jucá (MDB-RR), que estava há 24 anos na Casa e foi líder dos
governos Lula, Dilma e Temer. Além desses, ficaram de fora Edison Lobão
(MDB-MA), Jorge Viana (PT-AC), Magno Malta (PR-ES) e Sarney Filho
(PV-MA), entre outros. A família Sarney, aliás, sofreu uma dupla
derrota, pois Roseana Sarney (MDB-MA) não teve sucesso na tentativa de
eleger-se governadora. Vários desses já vão tarde...
Ainda em relação ao Senado, ao contrário do que as pesquisas indicavam,
Dilma Rousseff (PT) ficou somente na quarta colocação em Minas Gerais, e
o ex-senador Eduardo Suplicy obteve apenas o terceiro lugar em São
Paulo.
Sob a ótica da Lava-Jato, 47 investigados não se elegeram. No entanto,
apesar das delações e citações, cinco réus, 24 investigados e seis
denunciados foram eleitos. Na relação estão Jader Barbalho (MDB), o mais
votado para o Senado no Pará, Renan Calheiros (MDB), o segundo colocado
em Alagoas, e Ciro Nogueira (PP), o primeiro colocado para o Senado no
Piauí, embora tenha sido alvo de mandados de busca e apreensão na reta
final da campanha. A faxina poderia ter sido maior...
Dentre os senadores investigados, dois conseguiram se eleger, ao
concorrerem ao cargo de deputado federal: Gleisi Hoffmann (PT-PR), que
foi absolvida pelo STF, e Aécio Neves (PSDB-MG), réu na mesma Corte por
corrupção passiva e obstrução da Justiça. Entre os 47 alvos da Lava-Jato
que foram derrotados também estão, entre outros, o ex-governador
paranaense Beto Richa (PSDB), que chegou a ser preso durante a campanha,
Marconi Perillo (PSDB-GO), Lindbergh Farias (PT-RJ) e Cândido
Vaccarezza, que era do PT e passou para o Avante.
Alguns familiares de políticos famosos não estarão em Brasília em 2019.
Os filhos de Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Jorge Picciani, Roberto
Jefferson e Marcelo Crivella não obtiveram vagas na Câmara dos Deputados
na próxima legislatura.
Voltando a Eça de Queiroz, com certeza ainda existem na República muitas
fraldas a serem trocadas. As mudanças que a sociedade deseja estão
apenas começando.
O Globo
extraídaderota2014blogspot





0 comments:
Postar um comentário