Domingo, o Brasil perdeu para a Noruega no futebol.
Era uma possibilidade real. Talvez até um resultado esperado, embora a esperança fosse grande. O time vinha jogando bem, convencendo, animando o torcedor. Mas perdeu. Perdeu para uma seleção forte, física, organizada, fria e bem preparada.
À noite, desliguei a televisão.
Não havia como suportar aqueles jornalistas esportivos em estado de histeria, como se o país tivesse desabado por causa de uma bola que entrou ou deixou de entrar. Em poucos minutos, começou o festival de cretinices: a culpa era do Ancelotti, dos jogadores, do esquema tático, da CBF, da convocação, da não convocação do Pedro, da política, do governo, da oposição, do passado, do futuro e, se deixassem, até do clima da Escandinávia.
Nada do que eles próprios haviam dito antes do jogo valia mais. Os elogios desapareceram. As certezas mudaram de lado. As análises anteriores foram jogadas no lixo. E, com a maior cara de pau, passaram a falar como se sempre tivessem previsto o desastre.
Esse talvez seja um dos retratos mais claros do nosso subdesenvolvimento: a incapacidade de pensar com profundidade. Tudo vira escândalo. Tudo vira culpado. Tudo vira gritaria. Tudo vira tribunal.
Perdemos um jogo de futebol, mas o país reagiu como se tivesse perdido uma guerra.
E os jornalistas, que deveriam ajudar a organizar o pensamento público, fazem exatamente o contrário. Alimentam a histeria, exploram a frustração, inflamam a ignorância e depois chamam isso de análise esportiva.
Ninguém parece disposto a olhar para o que realmente existe por trás de certas derrotas. Somos um país de terceiro mundo, marcado pela falta de oportunidades, pela educação precária, pela pobreza administrada como projeto político e por uma juventude que, muitas vezes, enxerga no futebol a única porta de saída da miséria.
Para muitos meninos brasileiros, jogar bola não é apenas sonho. É fuga. É sobrevivência. É a chance de tirar os pais da pobreza, ajudar os irmãos, socorrer os amigos, escapar de uma vida sem horizonte. O futebol no Brasil carrega um peso social que poucos países desenvolvidos conseguem compreender.
Do outro lado estava a Noruega: país rico, organizado, educado, estratégico, com um fundo soberano de trilhões de dólares, instituições sólidas e uma população que não depende de um gol para sentir que ainda tem futuro.
A Noruega entrou em campo com onze jogadores. Mas entrou também com método, disciplina, preparo físico, equilíbrio emocional e uma cultura de planejamento. Nós entramos com talento, esperança, pressão, improviso e um país inteiro pendurado no resultado.
Foi triste ver alguns cruzamentos do Brasil na área adversária. Os noruegueses cortavam bolas sem sequer precisar pular. Ali não havia apenas diferença de jogada. Havia diferença de estrutura, de porte físico, de formação, de preparo, de alimentação, de escola, de sociedade.
Somos, em muitos aspectos, um povo diminuído pelas consequências do atraso. Um país que se acostumou a chamar assistência de solução definitiva. Um país onde se comemora tirar milhões da pobreza colocando-os na dependência permanente do Estado, como se isso fosse emancipação.
Não é.
Aliviar a fome é obrigação moral. Mas transformar a dependência em projeto nacional é a confissão mais clara do fracasso.
Imagine se, no Brasil, um atacante da seleção ficasse cinquenta ou sessenta minutos praticamente parado, esperando o jogo chegar até ele. A torcida já estaria vaiando. Os comentaristas já estariam gritando: “não está fazendo nada”. Pediriam substituição imediata.
Mas Haaland fez exatamente isso. Recolheu-se, esperou, economizou energia, leu o jogo. Passou grande parte da partida quase invisível. E, quando a oportunidade chegou, bastaram poucas bolas para decidir.
Isso, caros jornalistas histéricos, não é sorte. É estratégia.
Ele sabe quem é. Sabe o tamanho que tem. Sabe a força que possui. Sabe que não precisa participar de todas as jogadas para ser decisivo. Tem quase dois metros, porte de lutador, talento de gênio e frieza de jogador formado em uma cultura que não confunde ansiedade com intensidade.
Enquanto isso, no Brasil, qualquer pausa vira suspeita. Qualquer recuo vira covardia. Qualquer derrota vira caça às bruxas.
O Brasil não jogou mal. Teve chances. Poderia ter vencido. Mas nos momentos decisivos, faltou estrutura emocional. Faltou a frieza que separa o bom jogador do jogador decisivo.
Na cobrança do pênalti, Guimarães parecia carregar o peso de duzentas milhões de pessoas nas costas. Antes mesmo de bater, o corpo já denunciava o nervosismo. Parecia quase tremendo. Tudo indicava que poderia perder. E perdeu.
A culpa, portanto, não é simplesmente dele. Nem de Ancelotti. Nem da convocação. Nem da CBF. Nem de uma substituição feita ou não feita.
A culpa é mais profunda.
A culpa é do subdesenvolvimento que nos acompanha há gerações. Subdesenvolvimento econômico, educacional, cultural, emocional e, sobretudo, mental. Um subdesenvolvimento que se revela até mesmo na forma como reagimos a uma derrota esportiva.
Perder para a Noruega deveria ser apenas isso: perder um jogo para uma seleção forte. Mas no Brasil vira crise nacional. Vira espetáculo. Vira choradeira coletiva. Vira combustível para jornalistas que vivem de transformar frustração popular em audiência.
E assim passarão dias, talvez semanas, discutindo uma derrota insignificante como se ela explicasse o destino da humanidade.
Enquanto isso, as verdadeiras derrotas continuarão quase invisíveis: a escola ruim, a pobreza hereditária, a falta de oportunidades, a dependência política, a baixa produtividade, a deseducação do povo, a mediocridade do debate público.
Essas derrotas não rendem tanto quanto um pênalti perdido.
Por isso desliguei a televisão.
Não por causa da derrota do Brasil.
Mas porque a reação à derrota foi muito mais deprimente do que o jogo.
Como pensa um brasileiro.





0 comments:
Postar um comentário