Jornalista Andrade Junior

domingo, 5 de abril de 2026

A MAQUIAGEM DO NECROTÉRIO

 Alex Pipkin, PhD em Administração


A indecência perdeu o pudor e se transformou no modo de ser estatal. E já nem se esconde.
Você acorda, o Estado morde. No café da manhã, no banho quente, no trajeto esburacado. O confisco é silencioso, preciso, cotidiano. E cada vez aumenta mais.
Mas o escárnio vem depois, como prêmio. Você financia a peça publicitária que tenta convencê-lo de que a sua vida está melhorando. Não melhorou, claro. Mas está sendo muito bem dirigida.
O truque é de uma perversidade quase elegante. Quando a realidade é insuportável, edita-se a percepção. Com a trilha certa e um slogan limpo, surge um país de laboratório, inexistente na vida real, caríssimo no horário nobre.
Não é comunicação, evidente que não. É maquiagem de necrotério.
O cidadão banca o incêndio e, logo depois, paga por quem enquadra as chamas sob a luz certa.
Chamam isso de “prestação de contas”. É mentira escrachada.
Prestação de contas não tem trilha, não tem roteiro, não pede emoção. Resultado não se explica, ele se impõe na vida vivida. Na fila que anda, no preço que cabe, na segurança que aparece.
Quando é preciso explicar demais, é porque não aconteceu o suficiente.
O mais revelador não é o exagero, mas a naturalidade. Tornou-se aceitável que governos usem a máquina pública para vender a si mesmos e, de passagem, atacar adversários não com fatos, mas com estética. O Estado, que deveria servir em silêncio, performa. Pior, com o seu dinheiro.
Se fosse bom de verdade, não precisava de campanha.
Se fosse sentido, não precisava de jingle.
Se fosse real, não precisava de edição.
A propaganda estatal não informa, ela substitui a experiência pela narrativa, o cotidiano pela versão, o fato pela encenação.
E é aí exatamente que a distorção se completa. Você não paga apenas pelo que não recebe. Paga também para que tentem convencê-lo de que recebeu.
Evidente que não é sobre comunicação; nunca foi.
É sobre fabricar percepção quando a realidade não se sustenta, e ainda cobrar da vítima o preço da farsa.










publicadaemhttps://www.pontocritico.com/espaco-pensar-artigo/a-maquiagem-do-necroterio-020426

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