Jornalista Andrade Junior

domingo, 19 de outubro de 2025

'Tope a briga, ministro'  

 Augusto Nunes -  O que não falta por aí é valentão sem coragem física


— Está incompleta — queixou-se Gilmar Mendes a um amigo depois de ler nesta coluna a lista de 20 culpados sem cura que livrou da cadeia. — E os outros? 


— Não cabia todo mundo — ponderou o confidente. — A lista completa é mais extensa que o desfile de bandalheiras do Sérgio Cabral. 


— Não custaria lembrar que não fujo de briga, mas sei perdoar e às vezes tenho de lutar para não chorar — lastimou o inventor do pranto convulsivo sem lágrima. — Precisei tomar água até na despedida do Barroso. 


Comovida com a decepção do decano do Supremo Tribunal Federal, a coluna tratou de resgatar na internet vídeos e reportagens que documentam o lado brigão do queixoso. Vídeos gravados em Lisboa informam que finge não ouvir os inevitáveis insultos berrados por brasileiros que reconhecem aquele sessentão de tênis zanzando pelas ruas. A vontade de mandar prender é traída pelo sorriso amarelo e pelo olhar de quem examina vitrines imaginárias. É nas dependências do STF que recupera a confiança nos superpoderes conferidos pela toga. 




No caso de Gilmar Mendes, a certeza de que é um homem especialíssimo costuma manifestar-se em bate-bocas de ruborizar brigão de cabaré de antigamente — e, de vez em quando, em reconciliações enfeitadas pela infiltração de juristas alemães no palavrório em juridiquês erudito. Foi assim na sessão em que Luís Roberto Barroso anunciou que decidira aposentar-se.




— A vida nos afastou e nos aproximou 


— começou Barroso, olhando para Gilmar. 


— Fico feliz que tenha sido assim, e sou grato pela sua parceria valiosa, nos dois anos de minha gestão, e por sua defesa firme do tribunal, nos momentos mais difíceis. 


— Sua Excelência sabe do apoio que eu lhe prestei, e não foi nenhum favor, mas na verdade um dever, durante esses dois anos difíceis. 


Opero, sempre que posso… (a voz embargada é socorrida por um gole de água) … como um paradigma da ética da responsabilidade, de que fala Weber, e que é um clássico. Por isso, não guardo mágoas.


Estão revogados, assim, tanto o parecer emitido há sete anos por Barroso quanto o troco dado por Gilmar. 


Trechos do parecer: “Você é uma pessoa horrível… uma mistura do mal com pitadas de psicopatia… uma desonra para o STF… temperamento agressivo, grosseiro e rude… você nos envergonha…”. O troco, repetido aos gritos: “Então, feche o seu escritório! Feche o seu escritório!”. 


A reconciliação liberou o decano para concentrar-se em Luiz Fux. Antigo desafeto, o único juiz concursado do STF voltou à mira de Gilmar com o voto solitário que implodiu, no julgamento de Jair Bolsonaro e aliados do ex-presidente, a fantasia forjada para acusar os réus de criarem um tipo de golpe de Estado que dispensa tropas, comandante, armas e planos. 


Bastam um esquema de abastecimento.baseado num carrinho de algodão doce, um batom e a mobilização de centenas de paisanos inconformados com a posse do presidente condenado por ladroagem em três instâncias e resgatado da cadeia por Gilmar e seus parceiros.


O cartel do brigão inclui ataques de baixíssimo nível a adversários nada combativos. Cármen Lúcia, por exemplo, virou discípula. Nunes Marques ouviu em silêncio a mesma ladainha — “Não há salvação para o juiz covarde” — e em silêncio continua. Ricardo Lewandowski, também insultado, já caiu fora do tribunal. Joaquim Barbosa levou o decano às cordas, mas preferiu deixar a corte antes da hora. Um possível oponente, André Mendonça, nunca vai além do segundo round. Sobrou Luiz Fux, o alvo da vez. 


Na quinta-feira, o magistrado solitário foi novamente provocado por Gilmar. Ainda inconformado com o voto desmoralizante para carcereiros compulsivos, o decano enfureceu-se com o pedido de vista que interrompeu temporariamente a perseguição sofrida pelo senador Sergio Moro. “Vê se consegue fazer um tratamento de terapia para se livrar da Lava Jato”, caprichou na redundância o gerentão do Supremo. “Eu o critico publicamente por considerá-lo lamentável”. Tomara que Fux tope o confronto e se inspire no exemplo dos brasileiros de Lisboa. 


O que anda sobrando no Brasil é valentão que, chamado para uma briga de verdade, sai à francesa por falta de coragem física. 


Augusto Nunes - Revista Oeste








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