por Merval Pereira O Globo
Talvez seja a sina de governos que estão decaindo, não sei se há estudos
sobre isso. Se não houver, depois do programa do PT será preciso uma
análise mais aprofundada da psicologia de governos que perdem o apoio
popular e, numa reação de suicídio político, se lançam a desafios que
não estão em condições de enfrentar.
Foi
assim com Collor, quando convocou o povo a sair às ruas de verde e
amarelo para apoiá-lo, e está sendo assim com o governo Dilma, que
resolveu, do fundo do poço em que se encontra, ameaçar os oposicionistas
pedindo-lhes “juízo” e sugerindo tragédias como consequência de uma
crise política que já está implantada, e ao mesmo tempo ridicularizar o
panelaço, como a desafiar o povo brasileiro que, de acordo com a mais
recente pesquisa Datafolha, tem 71% de cidadãos que rejeitam o governo.
Não há nem mesmo mais a possibilidade de atribuir o descontentamento à
elite, pois a rejeição está em todas as classes, em todas as regiões do
país, deixando a presidente Dilma com o menor índice de popularidade de
um presidente na história recente do país.
O governo da presidente Dilma perde espaço, perde poder, perde a
capacidade de administrar o país. Caminhamos para uma séria crise
institucional. Não há mais maioria no Congresso para o governo tentar
aprovar medidas importantes de seu ajuste fiscal, não há credibilidade
do governo, que não consegue se impor politicamente.
A atitude irresponsável do Congresso é corroborada pelo próprio PT, que
está aderindo à oposição na votação de medidas claramente contrárias ao
governo, como a indexação dos salários da Advocacia Geral da União e
outras categorias aos dos ministros do STF. Não há o menor espírito de
colaboração do Congresso por que a maioria pensa apenas em salvar a
pele, sem se importar com o destino do governo.
Ninguém quer ser sócio de Dilma no desgaste de popularidade, mesmo que
esse seja um raciocínio político raso. Num regime parlamentarista, esse
governo já teria sido destituído, e convocadas novas eleições. No
presidencialismo, estamos à beira de uma crise institucional.
Não existe nenhuma figura no cenário político brasileiro que possa ser
ouvido, ou se fazer ouvir, para tentar unificar o país, como apelou o
vice-presidente Michel Temer, a figura mais próxima desse modelo
pacificador que não se encontra num Congresso que já abrigou políticos
do tamanho de Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Thales Ramalho,
Petrônio Portella, todos mestres em conciliação política.
Um acordo é muito difícil, sobretudo, por que não existe por parte do
governo Dilma a disposição de assumir erros cometidos. O máximo que
chegaram perto foi, no programa do dia 6, perguntar retoricamente: “Não
é melhor a gente não acertar em cheio tentando fazer o bem do que errar
feio fazendo o mal?”.
Na véspera, o chefe da Casa Civil chegara a fazer um apelo patético por
um acordo suprapartidário, e ensaiou elogios ao PSDB. No programa do PT,
os adversários foram acusados de só pensarem em si, e, pela frase, de
fazerem “o mal” propositalmente, enquanto o PT, quando não acerta, é por
que está tentando “fazer o bem”.
Tudo isso a 10 dias das manifestações marcadas para todo o país contra o
governo Dilma. Se não é provocação, o que será? Difícil entender o
movimento político do PT diante da crise que o país vive. Difícil
imaginar o que se passa pela cabeça da presidente Dilma quando seu
futuro à frente do governo está ameaçado por questões concretas como as
contas que o Tribunal de Contas da União (TCU) está examinando, e pelo
esfacelamento da base congressual, que não resiste mais à realidade.
O Congresso voltou do recesso mais oposicionista do que nunca, e isso
revela o estado de espírito que os parlamentares encontraram em suas
bases eleitorais, refletido na pesquisa do Datafolha. Não é simples
coincidência que nessa volta o PTB e o PDT tenham pulado do barco
governista, e que até o PT vote contra a orientação do governo.
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