Jornalista Andrade Junior

domingo, 11 de dezembro de 2022

Haddad na Fazenda apenas aumenta as incertezas

 Revista Oeste


Entre os economistas que, tanto no primeiro quanto no segundo turno da campanha presidencial, declararam apoio a Lula, não faltavam nomes comprometidos com a defesa da responsabilidade fiscal. Mas o presidente eleito estava realmente empenhado em confirmar as piores expectativas que estavam se desenhando a respeito de quem comandaria a política econômica do próximo governo; em vez de um nome qualificado, capaz de dissipar as incertezas que se avolumam a ponto de merecer menção especial no último relatório do Copom, Lula escolheu aumentar a tensão ao indicar Fernando Haddad para o Ministério da Fazenda, pasta que será recriada com o desmembramento do atual Ministério da Economia.

O novo ministro rapidamente invocou o “histórico” na esperança de amenizar as reações a seu nome. “É só olhar o histórico e ver que a Prefeitura de São Paulo recebeu grau de investimento pela primeira vez durante minha gestão”, afirmou na sexta-feira. É o que Lula vem fazendo há um bom tempo, recordando resultados de sua primeira passagem pelo Planalto. Mas administrar uma prefeitura, ainda mais de uma das locomotivas do país, é diferente de administrar as finanças de uma nação inteira; e as circunstâncias de 2023 são bem diferentes das de 2003, quando Lula recebeu uma “herança bendita” de Fernando Henrique Cardoso, na forma do tripé macroeconômico. Jair Bolsonaro e Paulo Guedes entregam um Brasil com desemprego e inflação em queda, mas ainda longe dos níveis ideais; a pressão por mais gasto público é enorme e vem de dentro do próprio governo eleito; e a economia global ainda passa por enormes dificuldades que afetarão o Brasil, ao contrário do clima positivo visto nos dois primeiros mandatos de Lula. Histórico, portanto, não significa muito diante da mudança radical no cenário brasileiro e mundial; um guia mais certeiro está nas ideias defendidas pelo futuro ministro.


A julgar pelas convicções demonstradas pelo presidente eleito e pelo futuro ministro, o ajuste fiscal só acontecerá se a realidade se impuser à dupla de forma muito contundente


Analisando publicações de Haddad na imprensa paulista, o colunista da Gazeta do Povo Diogo Schelp levantou um conjunto de plataformas bastante preocupante: crítica a privatizações, ao teto de gastos, à reforma da Previdência e à independência do Banco Central; defesa da fracassada política de “campeões nacionais”; e a repetição da grotesca distorção da verdade que culpa a Operação Lava Jato pela “destruição” de empregos. As falas recentes de Haddad, tanto nos dias que antecederam sua indicação como já na qualidade de futuro ministro, não tentam desfazer a má impressão deixada por esses textos; o petista limitou-se a referências genéricas à necessidade de uma reforma tributária e de um novo marco fiscal para substituir o teto de gastos, sem explicitar alguma linha-mestra que permita concluir se as reformas pretendidas caminhariam na direção correta.

Como a PEC fura-teto deixa claro que o futuro envolve mais gasto público, o bom senso mandaria que o próximo governo já enviasse sinais a respeito de como pretende contrabalançar a pressão gastadora por meio de um ajuste fiscal. Mas isso não tem ocorrido – pelo contrário: membros da equipe de transição e defensores da PEC fura-teto têm argumentado que não há risco inflacionário nem recessivo na elevação súbita da despesa pública e que o caminho está na repetição das políticas expansionistas de Guido Mantega durante o segundo mandato de Lula, entre 2007 e 2010.

É possível que Haddad, em vez de repetir Guido Mantega, acabe seguindo os passos de Antônio Palocci, o primeiro ministro da Fazenda de Lula e que se pautou pela austeridade fiscal, a ponto de ter conseguido aprovar uma reforma da Previdência do setor público em 2003? A chance existe, mas, a julgar pelas convicções demonstradas pelo presidente eleito e pelo futuro ministro, isso só acontecerá se a realidade se impuser à dupla de forma muito contundente. É será péssima notícia para o Brasil se a responsabilidade fiscal só virar política de governo depois que o estrago estiver feito, e não como forma de prevenir mais inflação, juros, desemprego e recessão.












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